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Natural de Cruz Alta, no interior do Rio Grande do Sul, Maíra Mastella Moreira transformou em carreira a relação com o esporte presente desde a infância, em uma trajetória marcada pela disciplina e pela superação. A árbitra FIFA desde 2024, já atuou em alguns dos principais gramados do futebol brasileiro, como Maracanã, Mineirão, Beira-Rio e Arena do Grêmio. Entre viagens, treinamentos e decisões tomadas em frações de segundo, a assistente construiu espaço em um ambiente historicamente masculino.
Desde os primeiros anos escolares, o esporte ocupou um espaço central na rotina da árbitra. Quando criança, jogava futebol ao lado dos meninos da turma. “Joguei até a sexta série, aí começa a ter uma disparidade física. Foi onde senti que não dava mais para jogar com os meninos”, relembra. Naquele momento, o crescimento de equipes femininas na região permitiu que ela seguisse ligada ao futebol em novos contextos. Antes da arbitragem surgir como possibilidade profissional, Maíra transitou por diferentes modalidades. Jogou tênis, basquete e futsal, e construiu uma relação contínua com o exercício físico.
Aos 17 anos, ingressou na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), onde iniciou a formação acadêmica. Integrante da segunda turma do ano de 2010 do curso de Educação Física Bacharelado, Maíra afirma que guarda boas lembranças da Universidade, teve bons professores e reconhece a importância da UFSM em seu desenvolvimento. Conciliou estudos, estágios e a permanência nas equipes esportivas da instituição. Os estágios nas academias em Santa Maria contribuíram para consolidar o olhar sobre a profissão em que começava a se formar. Naquele momento, porém, a arbitragem não ocupava um lugar definitivo nos planos.
O CAMINHO ATÉ A ARBITRAGEM
Assim que ingressou na graduação, Maíra imaginava seguir carreira ligada ao treinamento físico. Em determinado momento da faculdade, chegou a planejar um intercâmbio nos Estados Unidos, para buscar formas de permanecer no universo esportivo. Foi a partir do Laboratório de Cenários Esportivos na Mídia (LACEM), vinculado à Universidade, que a arbitragem ganhou contornos mais concretos. Muito antes de a presença feminina no futebol se tornar pauta frequente nos meios de comunicação, algumas árbitras já ocupavam espaço nos gramados brasileiros. Nomes como Sílvia Regina, Ana Paula Oliveira e Aline Lambert ganharam destaque ao exercer uma função tradicionalmente masculina, contribuindo para mudanças significativas na percepção do papel das mulheres no esporte, tema que Maíra desenvolveu posteriormente em seu artigo acadêmico.
À medida que aprofundava a pesquisa sobre a presença feminina no cenário esportivo, Maíra passou a enxergar no futebol uma possibilidade real de atuação profissional. Em 2013,durante a graduação, realizou o curso de arbitragem e iniciou uma trajetória que rapidamente exigiu mudanças profundas na rotina. Ainda jovem, adaptou-se aos deslocamentos constantes até Porto Alegre, onde realizava parte da preparação necessária para ingressar no quadro de árbitros.
Os primeiros anos do curso foram marcados por uma rotina intensa. Depois de semanas divididas entre estudos e trabalho, viajava durante a madrugada para participar de atividades aos sábados, como treinamentos físicos e atuações nos campeonatos veterano (categoria para pessoas acima dos 35 anos) de Santa Maria. Além do conhecimento técnico, era necessário alcançar índices físicos rigorosos e manter a preparação contínua.
À BEIRA DO CAMPO
Hoje, como árbitra assistente, Maíra ocupa uma função que exige precisão extrema, concentração permanente e leitura rápida do jogo. Especializada na regra 11, referente ao impedimento, ela explica que a arbitragem contemporânea exige participação ativa. Além disso, a árbitra também tem como um dos seus aprofundamentos os lances relacionados à regra 12, que envolve faltas e sanções disciplinares.
Mesmo inserida há seis anos na elite nacional, Maíra relata ter dificuldade de agir naturalmente em momentos de estádio lotados e partidas decisivas: “Em jogos específicos, especialmente quando o hino toca antes da partida, eu lembro da menina do interior que cresceu acompanhando futebol sem imaginar que poderia chegar tão longe por meio dele.”
A presença feminina na arbitragem profissional ainda é um espaço de disputa e afirmação. Para ela, o preparo físico sempre funcionou como um elemento fundamental de credibilidade em um ambiente composto majoritariamente por homens. “A mulher precisa provar que pode”, resumiu.
Ao longo da carreira, Maíra construiu referências importantes dentro da arbitragem feminina. Trabalhou ao lado de Sílvia Regina, referência brasileira nos anos 1990 e 2000, teve Ana Paula Oliveira como chefe no âmbito nacional e acompanhou trajetórias de nomes como Neuza Back e Edina Alves, protagonistas da consolidação feminina na elite do futebol brasileiro.
ROTINA E MATERNIDADE
Se dentro de campo a arbitragem exige atenção contínua, fora dele a rotina também passou a demandar novos equilíbrios. Mãe de Benício, menino de um ano de idade, Maíra reorganizou a vida profissional após a maternidade. Antes dedicada também à assessoria esportiva, decidiu reduzir os atendimentos para concentrar-se exclusivamente na arbitragem. A mudança ocorreu no momento em que já integrava o quadro internacional da FIFA, condição que trouxe maior estabilidade profissional.
Ainda assim, a rotina permanece marcada pelos deslocamentos frequentes. Treinos diários, estudos de inglês e espanhol e viagens semanais fazem parte do cotidiano. Nos períodos em que está em casa, busca direcionar o tempo ao convívio com o filho.
A natureza, as viagens e os espaços abertos são refúgios em meio à rotina intensa do futebol profissional. Na cidade de Santa Maria, procura lugares ao ar livre para aproveitar os momentos de descanso com a família.
A maternidade trouxe novos desafios emocionais. Em alguns períodos, as escalas exigem ficar semanas longe de casa. Em outros, mudanças repentinas de designação de jogos alteram os planos de retorno. Longe de construir uma narrativa heroica sobre a conciliação entre maternidade e carreira, Maíra trata essas situações como parte da vida que escolheu construir. “Eu sabia que eu teria esse desafio da distância mas eu defini por isso,eu sabia que teria que dividir esses momentos.”
PREPARAÇÃO E CONQUISTAS
Em uma profissão constantemente submetida à avaliação pública, Maíra aprendeu cedo a concentrar energia na própria preparação e não nas críticas externas. Para ela, a arbitragem exige capacidade de autoavaliação permanente.
A implementação do VAR e o avanço da profissionalização da arbitragem brasileira alteraram significativamente a dinâmica da carreira. Ao contrário da percepção de aumento de pressão associada à tecnologia, ela enxerga o árbitro de vídeo como uma ferramenta de apoio e correção. Já a profissionalização da arbitragem trouxe estabilidade em um cenário historicamente marcado pela incerteza.
Entre as principais realizações da carreira, Maíra destaca a final do Mundial Sub-17 de 2024, competição que aconteceu no primeiro ano no quadro FIFA. Também guarda com significado especial as participações nos clássicos Gre-Nais e na semifinal da Copa do Brasil de 2025, considerada até agora a sua principal atuação em âmbito nacional.
Mesmo com conquistas importantes já acumuladas, a árbitra mantém o olhar direcionado aos próximos ciclos internacionais. A possibilidade de participação nas futuras Copas do Mundo aparece como horizonte profissional, embora ela reconheça a competitividade do cenário.
No futebol, as oportunidades não avisam quando vão chegar, e é com esse pensamento que Maíra Mastella Moreira constrói a própria trajetória sem perder de vista o caminho percorrido. “Penso assim: eu estou conseguindo. Eu vim lá do interior, onde não tinha nenhuma mulher. Eu não sabia se ia ser escalada, não tinha base nenhuma. Mas tive a oportunidade e lutei muito pra isso”, afirma.
Repórteres: Luís Corpis e Ricardo Clausen
Contato: luis.nunes@acad.ufsm.br | ricardo.clausen@acad.ufsm.br
Fotos: Eduarda Zonta