Para escutar o áudio da reportagem, clique abaixo:
“Esse encontro inspira transformações”. A frase registrada nas costas das camisetas usadas por mulheres em privação de liberdade e seus filhos representa as marcas deixadas em cada participante do Projeto Inspira. Com organização da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), da Polícia Penal (PP) e da Polícia Federal (PF), o último encontro do Projeto Inspira ocorreu no dia 15 de maio deste ano. As atividades são realizadas nos meses de maio, outubro e dezembro, para celebrar o Dia das Mães, o Dia das Crianças e o Natal. Desta vez, oito mulheres apenadas e 14 crianças tiveram a oportunidade de se reencontrar fora do ambiente de visitas do Presídio Regional de Santa Maria. O pavilhão da Polícia Federal foi o local que, transformado em um salão de festas, recebeu mães e filhos com balões, brincadeiras, cama elástica, comidas, apresentações e música.
Na manhã deste dia, às 8h36min, chegaram as mulheres escoltadas por oito agentes penitenciários, responsáveis por cuidar de cada uma delas. O pavilhão já estava cheio de voluntários na cozinha, professores e estudantes da Universidade, policiais penais e federais. Todos os olhares foram direcionados às mulheres.
Em outros bairros da cidade, desde as 7h30min, a psicóloga da Polícia Penal, Renata Domingues, e o agente da Polícia Federal, José Getúlio Pompeo, buscavam, com um ônibus da PF, cada uma das crianças em suas casas. Eles são os responsáveis pelo deslocamento e o contato com as famílias. Para que o projeto ocorra, o Inspira é viabilizado por meio de três requisitos: o vínculo entre mãe e filho, a autorização da família e a residência em Santa Maria. O comportamento funciona como critério de exclusão, e não de inclusão.
No pavilhão da Polícia Federal, às 8h46min, o clima de ansiedade se transformou em emoção com a chegada das crianças. Antes delas entrarem no salão, as mães já correram para a porta ao escutar as vozes, gritos e risadas infantis. Então, abraços e lágrimas marcaram o reencontro por alguns instantes. Para os filhos, de dois a 14 anos, esse momento representa o contato materno que não é mais diário. Eles brincam e fazem com que as mulheres também voltem a ser crianças por algumas horas. Para as mães, é um dia de dignidade. Elas estão “livres”, sem algemas, e exercem a maternidade – cuidam, brincam, trocam de roupa, levam ao banheiro e alimentam seus filhos. As atividades cotidianas que compõem essa convivência podem ser retomadas por elas durante um dia.
Privada de liberdade, Amanda Santos* participa do Projeto Inspira pela terceira vez. Ela não recebe a visita dos dois filhos durante o ano porque a mais velha, responsável por eles, acredita que as crianças não devem ser expostas ao ambiente penitenciário. Por isso, o Inspira é a única alternativa. Para Amanda, o encontro representa o respiro de sair de dentro do presídio e uma oportunidade de rever seus filhos. “Para mim, é uma liberdade de volta”, relata.
Todas as mulheres que fazem parte do Inspira estão condenadas e em regime fechado. Uma consequência do encarceramento é a perda do crescimento e do desenvolvimento de seus filhos. A apenada Aline Cardoso* destaca que, no encontro anterior do Inspira (realizado em outubro de 2025), seu filho mais novo, de três anos, não falava nem caminhava. Desta vez, o menino já corria pelo espaço e conversava com todos. Isso a deixou assustada.
A chegada da banda da Base Aérea marcou o início do fim. Ao som de Photograph, de Ed Sheeran, e Amigo Estou Aqui, de Toy Story, o espaço começa a se esvaziar. A despedida é a pior parte, de acordo com a psicóloga Renata. “Nós precisamos, neste momento, retirar as crianças do colo das mães, porque elas não querem ir embora de jeito nenhum”, destaca. E assim foi. Mães e filhos se despediram. As crianças mais velhas acompanharam os irmãos mais novos, de mãos dadas. De longe, as mães abanaram para o ônibus e o silêncio ecoou no pavilhão. Às 16h02min, as mulheres foram organizadas em filas e retornaram ao presídio.
*Nome fictício usado para preservar a identidade da entrevistada.
A manutenção do vínculo
Em um ambiente marcado pela distância da família e pela rotina do sistema prisional, a maternidade permanece como um ponto central na vida de mulheres privadas de liberdade. A psicóloga Renata destaca que a presença dos filhos torna-se uma motivação. “Sempre fazemos algo por alguém. E as mulheres, o objetivo é o filho, a maternagem é uma coisa muito forte”, ressalta. Embora existam muitas outras mães no presídio, ampliar o número de participantes ainda representa um desafio.
Mesmo na realidade do cárcere, essas mulheres ainda exercem o papel de mães. Nos encontros, elas têm a oportunidade de passar um tempo com os filhos em um ambiente diferente da rotina prisional. São momentos de conversa, brincadeiras e convivência que ajudam a fortalecer os laços familiares. A pedagoga Carol Fontana da Silva, que acompanha o projeto desde 2016, explica que o trabalho busca acolher as crianças que convivem com essa realidade. Segundo Carol, o objetivo é ouvir e estar presente na vida das crianças sem julgamentos, para reconhecer que o acolhimento às diferentes infâncias constitui a base de qualquer aprendizagem.
Para reduzir os impactos do cárcere no desenvolvimento infantil, a legislação e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) permitem a conversão da prisão preventiva em domiciliar para gestantes e mães de crianças de até 12 anos, além de mulheres que apresentem bom comportamento. Para a professora do Departamento de Metodologia do Ensino, do Centro de Educação da UFSM, e coordenadora do projeto, Graziela Escandiel, os encontros têm impacto direto na relação entre mães e filhos, uma vez que permitem momentos de convivência fora do ambiente comum das visitas no presídio. “O que importa é eles ficarem com as mães. Então, se eles ficam ali juntos, é uma interação que nós, da educação, entendemos que é importante”, afirma.
Segundo Graziela, apesar de ser uma ação pontual em um momento específico da vida dessas mulheres, os encontros fazem diferença e despertam um sentimento de reconhecimento por proporcionarem aos filhos uma experiência de convivência mais afetiva com as mães.
Dez anos de história
Criado em 2016 pelo ex-delegado da Polícia Federal (PF) e secretário de Segurança Pública de Santa Maria, Getúlio de Vargas, o Projeto Inspira completou dez anos de história em 2026. Segundo o secretário, em um primeiro momento, o projeto foi idealizado com o objetivo de dar uma recompensa às mulheres em privação de liberdade com melhor comportamento dentro do presídio.
No primeiro encontro, realizado em oito de abril de 2016, havia em torno de 15 mães e 25 crianças. Com o passar do tempo, por logística e segurança, foi estabelecida uma média de dez mães e 15 crianças. Os recursos financeiros usados para a concretização do Inspira são captados nos editais para projetos sociais da Vara de Execuções Criminais (VEC).
A professora Graziela Escandiel, coordenadora do curso de Pedagogia da UFSM na época, entrou no projeto para suprir a necessidade de montagem e planejamento de oficinas e atividades para o dia do encontro. Em 2018, o Inspira passou a ser uma das primeiras iniciativas do Observatório de Direitos Humanos (ODH) no eixo de extensão prisional.
Pela Polícia Federal, a papiloscopista Rosa Maria Veiga coordenou o Inspira de 2019 a 2025. Para ela, a parceria entre Polícia Federal, Polícia Penal e Universidade torna o projeto mais fácil. “Uma instituição está interligada à outra. É a corrente que forma o Inspira. Se um elo romper, acaba o projeto”, declara. A partir de 2025, o responsável do Inspira pela PF é o agente federal José Getúlio Pompeo. Em 2026, os próximos encontros estão previstos para novembro e dezembro.
Repórteres: Nicolle Seixas e Rinália Figueiredo
Contato: nicolle.seixas@acad.ufsm.br | rinalia.figueiredo@acad.ufsm.br