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A luta pela igualdade de gênero na UFSM

Após cinco anos da aprovação da Política de Igualdade de Gênero, desigualdades estruturais persistem no ambiente universitário



A igualdade de gênero no Brasil é garantida pela legislação federal. Ainda assim, 83,5% das mortes violentas de mulheres no país ocorrem em ambientes domésticos ou em relações íntimas afetivas, de acordo com a Entidade das Nações Unidas para a Igualdade de Gênero e o Empoderamento das Mulheres (ONU Mulheres). Mesmo que as leis garantam os mesmos direitos a todos, as desigualdades nas dinâmicas familiares, nas representações políticas e na esfera socioeconômica permeiam o cotidiano brasileiro.

Pesquisas como essa refletem a pobreza das discussões e incentivos públicos para concretizar a igualdade de gênero, não apenas no Brasil, mas também em Santa Maria. A cidade é a terceira do Rio Grande do Sul com maior número de vítimas de feminicídio, segundo a Secretaria de Segurança Pública do estado. Na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o debate sobre acolhimento e enfrentamento dessas violências passou a ganhar força institucional nos últimos anos. 

Apesar das discussões sobre violência de gênero e desigualdade já existirem dentro do ambiente universitário, a UFSM só aprovou oficialmente sua Política de Igualdade de Gênero em 2021. Até então, as iniciativas relacionadas ao tema aconteciam de forma descentralizada, por meio de projetos e grupos de pesquisa isolados. São ações muitas vezes sustentadas pela força de vontade de pessoas interessadas na pauta, que buscam construir espaços de diálogo, acolhimento e enfrentamento mesmo sem uma estrutura institucional consolidada. 

O debate ativo na Universidade começa a se concretizar em 2017, com a oficialização da Comissão de Igualdade de Gênero, que marca um passo importante na tentativa de transformar a Universidade em um espaço mais seguro, inclusivo e acolhedor. O grupo realizava encontros semanais e reunia representantes de diferentes áreas, além de convidados externos que contribuíam para a construção de uma política interna. Segundo a Coordenadora da Comissão de Igualdade de Gênero da UFSM e atual Pró-Reitora de Assuntos Estudantis (PRAE/UFSM), Jaciele Sell, o processo foi lento e cercado por desafios. 

Fotografia colorida de Jaciele Sell em ambiente interno. Ao centro da imagem, ela aparece em pé, enquadrada da cintura para cima, com os braços cruzados à frente do corpo e expressão sorridente. Jaciele tem pele branca, olhos claros e cabelos castanhos curtos, repartidos lateralmente, com ondas na altura do queixo. Ela veste blusa vinho de um ombro só, com detalhe no ombro esquerdo. Usa anéis nas mãos e pulseira no pulso direito. Ao fundo, cortinas brancas desfocadas compõem um ambiente claro e discreto. A iluminação suave destaca o rosto e a vestimenta da entrevistada.

Ela afirma que a criação da Comissão foi consequência do aumento de denúncias de assédio e do sentimento de insegurança vivenciado pelas mulheres no ambiente universitário. Sua construção envolveu a articulação entre diferentes setores, motivados pela necessidade de discutir violência de gênero, desigualdades estruturais e formas de cuidado às vítimas. “Não tinha por onde começar”, relembra Jaciele.

Em aproximadamente cinco anos, a Comissão promoveu audiências públicas, palestras, fóruns institucionais e consultas à comunidade acadêmica. O processo foi marcado por resistências internas e debates sobre conceitos considerados centrais para a política. Questões como a inclusão de pessoas trans, o uso dos termos “igualdade” ou “equidade” e a necessidade de pensar na assistência para mães estudantes passaram a fazer parte das discussões, de acordo com Jaciele.

Coordenadora da Comissão de Igualdade de Gênero da UFSM e atual Pró-Reitora de Assuntos Estudantis (PRAE/UFSM), Jaciele Sell.

A demanda de institucionalizar essas iniciativas ganhou força. Em novembro de 2021, a Universidade aprovou oficialmente sua primeira Política de Igualdade de Gênero, por meio da Resolução nº 064/2021. O documento reconhece a desigualdade como uma questão estrutural que vai além da vida universitária e  estabelece diretrizes que determinam três eixos: promoção da igualdade de gênero; enfrentamento e responsabilização em casos de violência; e assistência às vítimas. 

A resolução marcou a criação da Casa Verônica, espaço multiprofissional pensado para acolher pessoas em situação de violência de gênero e articular ações de apoio na Universidade. O Comitê de Igualdade de Gênero (CIG), vinculado à Casa, atua em parceria com serviços públicos de saúde e não executa diretamente políticas ou atendimentos, mas atua como um órgão de formulação e articulação. “O Comitê pensa iniciativas e propõe caminhos a partir da Política Institucional”, explica o assistente social e integrante do CIG, Ricardo Felippe. 

A Casa Verônica surge como um dos principais braços da Política de Igualdade de Gênero na UFSM e promove atividades educativas, palestras e ações de letramento. Iniciativas que, segundo Ricardo, geram tensão entre setores e buscam incentivar mobilizações. O objetivo, de acordo com ele, é desnaturalizar aspectos estruturais, iniciar discussões e trazer à tona pautas sensíveis. 

O nome do espaço foi escolhido pela comunidade universitária por meio de votação e carrega um significado político e simbólico. O título homenageia Verônica de Oliveira, mulher trans e ativista LGBTQIAP+ de Santa Maria. Verônica, conhecida por acolher pessoas em situação de vulnerabilidade em sua casa, foi vítima de transfeminicídio em 2019. Ao adotar seu nome, a Casa busca manter viva a memória de sua trajetória e reconhecer a relevância histórica de sua atuação na cidade. 

Mais de quatro anos após a aprovação da Política de Igualdade de Gênero, o Comitê da Casa Verônica promove uma Consulta Pública, em abril de 2026, sobre a proposta de alteração do documento da Política. A intenção foi ampliar o diálogo e qualificar as estratégias institucionais de prevenção e enfrentamento às desigualdades. 

A ativista e pesquisadora em Teatro e violência de gênero, licenciada pela UFSM, Sofia Lopes Dotto, se fez presente durante a Consulta. A egressa declarou, em seu perfil público do Instagram, que o encontro não promoveu o acolhimento ou um espaço de escuta da comunidade acadêmica, mas sim uma oportunidade da instituição contestar e rebater as contribuições do público. 

Durante a Consulta, foi determinado que as solicitações da comunidade seriam formalizadas via e-mail. Sofia Dotto afirma que o seu documento com as reivindicações e as sugestões para aprimorar a Política foi enviado ao Comitê de Igualdade de Gênero, mas a resposta do CIG, segundo ela, foi recebida em junho de 2026, dois meses após o encontro, sem um retorno concreto sobre as propostas. “A Consulta Pública foi um retrato do descaso da UFSM”, declarou.

O caso de Sofia Dotto

Fotografia retangular horizontal colorida de Sofia Lopes Dotto em cena artística. Ao centro da imagem, ela aparece enquadrada dos ombros para cima. Sofia está com o rosto voltado para a direita, boca aberta e mão direita posicionada ao lado da boca. A expressão é intensa e enérgica. Ela usa maquiagem elaborada, com batom vermelho, delineador claro ao redor dos olhos e elementos decorativos que se estendem pela testa. Os cabelos estão penteados para trás, com aparência úmida. Ela veste roupa vermelha em tom semelhante ao da maquiagem. Ao fundo, uma área escura e desfocada ocupa a imagem. Fotografia retangular horizontal colorida de Sofia Lopes Dotto em cena artística. Ao centro da imagem, ela aparece enquadrada dos ombros para cima. Sofia está com o rosto voltado para a direita, boca aberta e mão direita posicionada ao lado da boca. A expressão é intensa e enérgica. Ela usa maquiagem elaborada, com batom vermelho, delineador claro ao redor dos olhos e elementos decorativos que se estendem pela testa. Os cabelos estão penteados para trás, com aparência úmida. Ela veste roupa vermelha em tom semelhante ao da maquiagem. Ao fundo, uma área escura e desfocada ocupa a imagem.

Ativista e pesquisadora em Teatro e violência de gênero, licenciada pela UFSM, Sofia Lopez Dotto.

Sofia e outras colegas da turma de Teatro de 2021 foram vítimas de violência de gênero, por um ex-docente e um ex-discente da Universidade, ao longo de três dos quatro anos da graduação. Ambos os agressores eram reincidentes em crimes sexuais contra estudantes. Essas mulheres foram submetidas a comentários impróprios sobre seus corpos, toques inadequados e insinuações sexuais sob pretexto de aulas práticas do currículo do curso. 

A ativista desenvolveu Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), o qual afeta diretamente suas memórias e seus aprendizados da licenciatura, marcada pela violência. Em 2025, Sofia escolhe relatar sua experiência por meio do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), intitulado  “Teatro E (Auto)Biografias Femininas: Uma Trilha Para A Discussão De Violência De Gênero Em Ambiente Acadêmico”. Este promove cinco oficinas para oito mulheres diversas com vínculo com a UFSM, selecionadas com objetivo de transformar o teatro em uma linguagem disparadora para as narrativas de violência de gênero.

Sofia ainda relata as dificuldades enfrentadas ao decidir formalizar acusações à uma autoridade da instituição e os desafios sofridos ao longo de um ano, no qual perdurou o Processo Administrativo. Ela afirma que as histórias de assédio em espaços acadêmicos se tornam boatos de corredor, pois não é do interesse da Universidade defender seus discentes. As denúncias e a luta dessas mulheres resultaram na demissão e no desligamento dos agressores, em 2024, por prática de assédio moral e sexual contra estudantes. “A Política não têm efetividade nenhuma. Se as vítimas antes de mim tivessem sido ouvidas, eu não teria sido violentada”, ressalta. 

Texto: Eduarda Zonta e Pollyana Bronzatto

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