O Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) é uma pesquisa nacional periódica que revela a dimensão do analfabetismo funcional no Brasil. De acordo com a edição mais recente (2024), quase 30% dos brasileiros entre 15 e 64 anos vivem em condição de analfabetismo funcional. Embora saibam ler e escrever, essas pessoas enfrentam dificuldades para interpretar textos, fazer cálculos e usar ferramentas digitais no dia a dia.
O Café com Letras surge justamente para enfrentar essa realidade. O projeto busca ampliar o acesso à alfabetização e fortalecer a autonomia de pessoas que, por diferentes razões, tiveram seu percurso escolar interrompido. Vinculado ao Observatório de Direitos Humanos (ODH) da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o projeto leva ações educativas a grupos em situação de vulnerabilidade social.

Interior da Associação – FOTO: EMMANUELLY CHRISTINA PERANSONI ZINI
A proposta teve início no final de novembro de 2024, quando a coordenadora da Associação dos Selecionadores de Materiais Recicláveis (Asmar), Margareth Vidal, contata o Observatório de Direitos Humanos (ODH) para pedir auxílio, após perceber a dificuldade que seus colegas enfrentavam ao tentar ler uma mensagem ou não conseguir anotar informações durante o trabalho. A intenção era conseguir ajuda principalmente no processo de alfabetização dos recicladores.
Ao buscar apoio na PRE da UFSM, Margareth encontra a professora do Departamento de Pedagogia e coordenadora do Observatório de Direitos Humanos, Jane Schumacher, que acolhe a ideia e inicia as atividades do projeto dentro da Asmar. Além da alfabetização, o projeto busca fortalecer a autoestima dos trabalhadores que tiveram a leitura e a escrita interrompidas, estimulando a confiança e a autonomia por meio da aprendizagem.
Há quase duas décadas dedicada à reciclagem, uma das participantes do projeto, conhecida como Tita, conta que teve pouco contato com a escola durante a infância, não passou da educação infantil e aprendeu somente a escrever seu nome. Ela relembra as dificuldades de acesso à educação na época: “Lá fora não tinha escola. Tinha que caminhar quase o dia inteiro para chegar num colégio. Tive que desistir”.

Tita com a mão na massa – FOTO: EMMANUELLY CHRISTINA PERANSONI ZINI
Desde o início do projeto, para participar dos encontros realizados no centro de reciclagem, Tita concilia a longa rotina de trabalho na Asmar com o deslocamento diário entre Camobi e Asmar. Segundo ela, o aprendizado já trouxe mudanças. “Agora eu tô sabendo bem mais coisa. Tô sabendo lidar com meus cartões de crédito, coisa que eu não sabia”, destaca.
Outra participante do projeto é Adriana, que desde pequena coletava materiais recicláveis nas ruas da cidade ao lado de sua mãe. Ela já trabalha há quatro anos na Asmar e conta que, antes das aulas, não conseguia ler nem escrever o próprio nome. “Não sabia nada. Agora eu sei escrever meu nome, meus dados, até o CPF”. Além da alfabetização, Adriana relata que as aulas também ajudaram a desenvolver outras habilidades, como o uso do celular.
Mãe de um menino de 11 anos, a recicladora divide a rotina entre o trabalho e os cuidados com o filho. Apesar do cansaço ao chegar em casa, ela afirma que deseja continuar aprendendo e pensa em retomar os estudos futuramente.

Hora de escrever – FOTO: EMMANUELLY CHRISTINA PERANSONI ZINI
A integrante do projeto Joseane Rodrigues trabalha com a reciclagem há quatro anos. Antes disso, passou por diferentes ocupações para sustentar a família, como a venda de doces e de lingeries e a produção de trufas. Recentemente, também concluiu cursos profissionalizantes de maquiagem e barbearia.

Jo durante o trabalho – FOTO: EMMANUELLY CHRISTINA PERANSONI ZINI
Desde que iniciou o projeto, ela sempre participou das atividades. Encontrou nas aulas um espaço para revisitar conteúdos que nunca compreendeu totalmente, como porcentagem e uso dos porquês.
Acolhimento que alfabetiza

Ao longo de 15 anos de atuação como docente e de uma década de vínculo com o ODH, a professora Jane Schumacher construiu sua trajetória unindo educação e extensão universitária. Formada em Pedagogia e coordenadora do Café com Letras, ela sempre esteve envolvida em projetos voltados a grupos em situação de vulnerabilidade.
Jane Schumacher, professora e coordenadora do Café com Letras durante a entrevista. – FOTO: Maria Lúcia Homrich Gotuzzo
Desde o primeiro encontro, realizado em dezembro de 2024, Jane passou a acompanhar de perto a rotina dos trabalhadores e incentivou atividades de leitura, escrita e interpretação de textos durante o horário de lanche da associação.
A TXT. conversou com a professora Jane Schumacher para entender melhor sua relação com o projeto.
.TXT: Como começou o projeto?
Jane: Após a Margareth buscar ajuda, eu e o coordenador da época do ODH fomos visitar a Asmar em dezembro. Como a Universidade já estava sem alunos naquele período, eu disse para ele: “Nós vamos ter que começar, eu não vou deixar esse pessoal sem atividade nenhuma”. E, assim, no dia 18 de dezembro de 2024, iniciamos as atividades do projeto.
Tivemos um recesso em janeiro, mas eles ficaram com cadernos de caligrafia para continuar praticando. Inclusive, eu mesma precisei me organizar para aprender metodologias voltadas para alfabetização de adultos. Começamos com um grupo de oito pessoas e seguimos atuando desde então.
Nesse processo, fizemos uma testagem de lectoescrita (habilidade de ler e escrever de forma integrada) para entender em que nível cada participante estava. Descobrimos que três pessoas não reconheciam letras e apenas reproduziam a assinatura do nome. As demais já eram alfabetizadas, mas apresentavam dificuldades na escrita e na construção de frases. Começamos a trabalhar com atividades simples, sempre contextualizadas com a realidade deles dentro da reciclagem.
.TXT: Como foi o primeiro encontro com os trabalhadores?
Jane: No primeiro encontro eu percebi que existia um interesse que estava meio adormecido. Eles não se sentiam motivados e também havia certa resistência, porque chegava uma pessoa da Universidade, alguém estranho para eles, propondo um trabalho de alfabetização. Muitos não acreditavam que aquilo realmente teria continuidade.
Foi importante justamente o fato de termos começado em dezembro, mesmo sem alunos da Instituição envolvidos. Eu senti que aquelas mulheres e homens precisavam de um projeto ali, precisavam ser ouvidos e acolhidos. No começo, muitos não participavam e tinham receio, mas aos poucos eles foram percebendo que o projeto continuaria e que aquele espaço era realmente para eles.
.TXT: Qual é o maior desafio na alfabetização de adultos?
Jane: Eu acredito que o maior desafio seja a falta de confiança. Muitas vezes, eles não conseguem vislumbrar outras possibilidades além do trabalho que realizam hoje e acabam acreditando que não merecem ir além. A alfabetização também passa por isso: fazer com que eles percebam que são capazes de sonhar e ocupar outros espaços.
.TXT: O que mais te marca no projeto?
Jane: É enxergar a potência dessas mulheres e homens que não tiveram as mesmas oportunidades ou não conseguiram concluir os estudos. São pessoas com um conhecimento de vida incrível, mas que muitas vezes foram excluídas pelo sistema. A reciclagem é o que sustenta muitas dessas famílias, mas existe uma capacidade enorme ali que, por muito tempo, não foi reconhecida.
.TXT: Defina o Café com Letras em uma frase ou um sentimento:
Jane: Para mim, é uma ação na reciclagem de resistência. Resistência porque existem muitas mulheres e muitos homens que ganham a sua vida e sustentam tantas outras que fazem parte da rotina.

O alfabeto do café com letras – FOTO: EMMANUELLY CHRISTINA PERANSONI ZINI
Texto: Laura Waechter Severo e Maria Lúcia Homrich Gotuzzo