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À espera de um lar

Projeto Zelo mostra a realidade do abandono no Campus e a importância da conscientização



Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Medicina Veterinária do Coletivo (IMVC) estima que há 30,2 milhões de cães e gatos abandonados no Brasil, número expressivo quando comparado ao total de 121,3 milhões de animais de estimação no país. De acordo com os dados disponibilizados pelo relatório em 2024, um dos possíveis motivos para o abandono animal é a mudança de residência.

O Projeto Zelo teve início em 2014, vinculado ao Gabinete do Vice-Reitor e, em 2018, foi conectado à Pró-Reitoria de Extensão (PRE) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Conforme a professora do Colégio Politécnico e coordenadora do projeto, Fabiana Stecca, o objetivo do programa é a educação e a conscientização sobre abandono e maus-tratos de animais, mas a demanda constante de cães e gatos abandonados na Universidade faz com que grande parte do trabalho seja atender a esses chamados. “Nós passamos o tempo todo apagando incêndios. Imagina, você tem 80 e poucas possibilidades de um animal ficar doente”, desabafa. 

Cão que vive no Campus Sede da UFSM

Entre 2024 e 2025, o Zelo registrou 91 adoções. Esse índice sinaliza crescimento no número de animais acolhidos por famílias e maior alcance das iniciativas desenvolvidas. Entretanto, o cenário ainda exige atenção, uma vez que mais de 80 animais seguem sem lar. Eles têm variadas idades, tamanhos e raças. Fabiana ressalta: “Todos vão precisar, em algum momento, ter um lar, e muitos não vão conseguir”.  

Casas de animais no brechó do Projeto Zelo

Os animais abrigados vivem em diversos pontos do campus sede. Este era o caso de Silveira, cão que viveu na UFSM por cerca de 12 anos. Nesse tempo, ele colecionou carinho e muitos petiscos oferecidos pelos estudantes. Com a grande quantidade de alimentos não indicados, o cão entrou em um quadro de sobrepeso, que agravou outros problemas de saúde.

Após isso, Silveira iniciou um acompanhamento nutricional com o Núcleo de Ensino e Pesquisa em Animais de Companhia (Nepac), que registrou o tratamento do cãozinho em seus perfis nas redes sociais. Devido ao sobrepeso, seus problemas de saúde estavam se agravando, como a artrose.

Além destes, ele ainda possui problemas de pele, segundo Fabiana: “surgiram diversos nódulos […] Alguns precisaram passar por biópsia, que acusou hemangiossarcoma”.  A doença trata-se de um câncer maligno agressivo, originado nos vasos sanguíneos. No caso de Silveira, Fabiana relata que foi realizada criocirurgia para remover os nódulos existentes. O  procedimento médico e dermatológico é realizado de forma minimamente invasiva, utilizando o frio extremo e o nitrogênio líquido, para congelar e destruir tecidos doentes. 

Em 2025, uma internauta fez um tweet sobre o físico do animal. O post viralizou e gerou diversas reportagens e parcerias com grandes empresas. “A fama do Silveira foi muito positiva no sentido da imagem, mas o abandono sempre foi constante e continua assim”, comenta Fabiana.

Devido ao quadro de saúde, Silveira já não poderia viver nas ruas. Durante o tratamento com veterinário, conseguiu um lar, o que contribuiu para seus cuidados e recuperação. Para os outros animais cuidados pelo projeto, o acolhimento do cão por um tutor  significa maior possibilidade de adoção.

Cachorrinha chamada Sabrina saindo de sua casa no Campus Sede da UFSM

O caso trouxe maior visibilidade para o Zelo também entre os estudantes da instituição. “Os alunos do Politécnico não sabem o que é aqui (sala do projeto). Nós estamos dentro da instituição, eles passam por aqui todo dia e não têm conhecimento disso”, relata a bolsista do projeto e estudante do terceiro semestre de Geografia na UFSM, Lais Rodrigues. 

Depois de serem resgatados pelo projeto, os animais passam por triagem nos hospitais veterinários e ficam disponíveis para adoção. É o caso do Simba, gato socorrido em setembro de 2024. O animal, encontrado amarrado em uma plantação do Campus, foi resgatado pelo Zelo. Os cuidados veterinários encontraram uma displasia de válvula mitral, cardiopatia congênita rara, e FeLV positivo, vírus que causa a leucemia felina.

Em abril de 2025, Simba encontrou um lar com Maria Eduarda Bueno, estudante de Design na Universidade Franciscana. A tutora conta que se apaixonou pelo bichano: “Chegou um ponto que eu disse: eu vou trazer o Simba para casa e o que tiver que ser, vai ser”, relembra. Maria já resgatou outros gatos e, atualmente, cuida de dez felinos, dois deles com FeLV positivo. Ela compartilha a dificuldade de esses animais serem adotados: “As pessoas querem gatinhos novos, elas querem animais saudáveis”.

Maria Eduarda segurando seu gato Simba, o qual foi socorrido e adotado através do Projeto Zelo

Como a iniciativa se sustenta

O Projeto Zelo não recebe auxílio de órgãos públicos por não ter um CNPJ, o que impede a participação do projeto em editais para conseguir verbas públicas. Dessa forma, o projeto se sustenta a partir de doações da comunidade. Grande parte da renda vem das vendas do brechó Grife Zelo, com peças que custam, em média, R$10,00.

Alguns itens disponíveis para compra no brechó do Zelo

Outra forma de arrecadação se dá por meio de parcerias privadas. “São algumas clínicas, locais de hospedagem que montam um pacote para nós, algumas clínicas que nos dão desconto”, relata a coordenadora.

Além dessas parcerias, há a Corrida da Causa Animal, em que parte do valor das inscrições é destinado ao Zelo. A segunda edição ocorreu em maio de 2026 e contou com cerca de 600 inscritos, entre as modalidades de 5 km em corrida e 2 km em caminhada com os pets. A iniciativa foi criada junto ao Núcleo de Implementação da Excelência Esportiva e Manutenção da Saúde (Nieems) e à Pró-Reitoria de Extensão (PRE). 

O Zelo recebe doações para os animais, como rações, petiscos ou cobertores. Também aceita roupas, sapatos e acessórios em bom estado para revenda no brechó. A iniciativa recebe contribuições em valores via pix pela chave fabiana@ufsm.br

Cão caramelo que vive no Campus Sede da UFSM cuidado pelo Zelo

Reportagem: Emmanuelly Zini, Luisa Santos e Sabrina Fagundes

Fotos: Emmanuelly Zini e Sabrina Fagundes

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