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Relatos – Educar e Cuidar



A seguinte contribuição faz parte da iniciativa Educar e Cuidar [clique e saiba mais]
e é de inteira responsabilidade do autor do texto. Contribua você também!

19.06.2020

Porque tudo isso…?

A iniciativa dos relatos (auto)biográficos em tempos de Pandemia por Coronavírus nasce durante as reuniões do Grupo de Pesquisa GeoIntegra/CNPq/UFSM, realizadas quinzenalmente desde o mês de abril de 2020. A motivação inicial se deu pela necessidade das/dos colaboradores/as compartilharem suas experiências de vida no instante em que, inesperadamente, fomos forçados ao distanciamento social, ao isolamento familiar e a intensas mudanças no estilo de vida. O ir e vir, prerrogativa dos cidadãos, deixou de ser rotina e passou a ser por necessidade de saúde, trabalho e alimentação. Por estes e por tantos outros motivos, o tempo se mostrou lento, os espaços pouco acessíveis e o movimento (mesmo que restrito aos nossos lugares de vida) tornou-se algo tão necessário para nos manter vivos. 

A linguagem oral e de expressão ficou comprometida pelo uso de máscaras, que nos descaracteriza, nos torna irreconhecíveis muitas vezes. Estreitamos laços com os mais próximos, mudamos hábitos, conversamos mais com o vizinho (mesmo que pela janela), sobrecarregamos os aplicativos de comunicação, usamos mais o e-mail e, por consequência, nos desafiamos mais a escrever e menos a falar. Oscilamos entre poucas ou muitas horas de sono. Nos tornamos mais ansiosos, inquietos. Comemos mais bobagens. Assistimos mais televisão, porém, com sorte, aprendemos a selecionar o que queremos e quando queremos apertar o botão do controle remoto. Os pets se tornaram nossos amuletos, nossos mais féis companheiros. Já eram, só descobrimos que afeto e companheirismo dependem de convívio. A escola, a universidade se transportaram para nossas casas (na sala, no sofá, no quartinho da bagunça). Simpatizamos com a ideia de nos arrumarmos (sair do pijama e, quem sabe, usar um batom) para ficarmos em casa. 

Fomos, dia a dia, bombardeados por notícias tristes, desalentadoras. Tivemos que cuidar mais de nós mesmos para cuidarmos dos outros. Reaprendemos o valor da vida e o quanto a nossa casa é “o melhor lugar do mundo”. Ainda estamos em processo de aprendizagem e, tomara, que possamos permanecer nesse lugar de aprendentes, por mais tempo. Tempo. Palavra dura, hoje completamente incompreensível, que “descoube” do nosso vocabulário. 

A intensão portanto, é dar voz…ou melhor palavras aos nossos sentimentos, ao momento, a este tempo. Faremos isso virtualmente de mãos dadas pois a simbologia dessa ação se dará na publicação dos relatos aos pares, como colegas de grupo e de trabalho que se abraçam, se cumprimentam quando se encontram…e a consequência, um belo sorriso em que “mostrar os dentes” é o que temos de mais valioso. Todas as sextas teremos dois novos relatos, até que cada colaborador/a tenha podido, de fato, realizar sua experiência de estar junto, compartilhando mais que palavras, mas sim, os sentidos que tudo isso tem produzido em cada um/a.

Graziela Franceschet Farias 
Professora do Departamento de Metodologia do Ensino/UFSM




Relato de uma experiência de ressignificações

Rosicleia Machado Virago – Professora da Rede Municipal de Educação de Santa Maria

 

Trabalho em uma escola do campo, Escola Municipal de Ensino Fundamental Major Tancredo Penna de Moraes, no Distrito de Palma, na cidade de Santa Maria. Esse espaço rico em possibilidades e desafios tem me acolhido desde o dia 18 de julho de 2019.

Dia 16 de março de 2020, uma segunda-feira. Cheguei à escola, escutei os pássaros, observei as árvores, enchi os meus pulmões de ar puro, caminhei calmamente até chegar à sala dos professores. Mas nesse dia, algo seria diferente, algo ia desestabilizar a minha simples rotina de virginiana. 

A notícia do distanciamento social devido à Pandemia do Coronavírus mudou o rumo dos meus próximos dias…Fui para a sala de aula com um aperto no peito, pois é esse um dos lugares que me sinto viva, em que as crianças com seus abraços me fazem sentir…

Não podia mais abraçar e nem ser abraçada. Precisávamos manter distância. Teríamos somente mais um dia para organizar algumas coisas, comunicar as famílias e fecharmos a escola… Manhã difícil essa!

Dia 17 de março de 2020, terça-feira. Momento para acolher à distância (achei que nem sabia fazer isso), olhar nos olhos dos meus pequenos e dizer que era apenas um momento difícil e que logo tudo voltaria ao “normal”.

Com a intenção de manter o vínculo, sugeri a escrita de um diário pessoal e visual, onde contariam um pouco das suas vivências e experiências durante o isolamento social. A proposta foi muito bem aceita e logo foram surgindo diversas sugestões de “escrita”.

Acreditava eu que seria por pouco tempo. Acho que os pequeninos também…Mas o tempo passou! Hoje são 16 de junho de 2020, terça-feira, já se passaram três meses desde aquele 16 de março…

Voltei na escola algumas vezes. Encontrei salas vazias e silenciosas, pátio sem gritos, risos e correria, sala dos professores quase vazia, mas tenho certeza que encontrei vida pulsando, vidas que acreditam que podem mudar o mundo, mesmo que seja à distância, mesmo que seja em um novo ritmo.

As ações remotas me levaram a conhecer um pouquinho do contexto de cada criança, de cada família. Sim, agora não tenho mais apenas dezenove alunos, tenho dezenove famílias. Veja a riqueza desse momento. Entrar no transporte escolar, entregar as ações remotas, algumas cestas básicas, sentir o carinho de uma comunidade escolar (mantendo os protocolos de distanciamento), deram um novo sentido ao meu fazer pedagógico, ao meu ser docente, ao meu SER HUMANO.

Ahhh, os diários continuam sendo escritos, pois eles serão os portadores de muitas memórias. Quanta coisa já aconteceu. Outras deixaram de acontecer. Muitas ainda virão. E eu estou aqui, transbordando de saudade, mas também de esperança.

 

Efeitos da quarentena

Ana Sarah da Silva Roque 
Acadêmica Curso de Pedagogia Diurno e Bolsista FIPE/GeoIntegra

Recordo-me claramente do dia 16 de março de 2020, quando me encontrava em Santa Maria já consciente da chegada do Coronavírus ao Brasil. Naquela manhã, ao olhar meu celular, vi várias notificações e uma grande comoção nos grupos do WhatsApp da turma.  Leio as mensagens e me deparo com uma grande surpresa.  Acesso o link da notícia onde se encontra o pronunciamento do Reitor da UFSM, comunicando o cancelamento das atividades presenciais. Lembro-me que na sexta-feira anterior ao dia 16 de março, algumas universidades Brasileiras começaram a cancelar as aulas presenciais, estava preparada para o início do semestre e tinha organizado meu apartamento, várias coisas começaram a passar pela minha cabeça neste momento… Como vou voltar para casa? Essa pandemia é mesmo tão preocupante? Haverá retorno às aulas posteriormente? 

O medo e a insegurança começaram a tomar conta de mim e realmente não sabia o que fazer senão esperar. No dia seguinte, retorno a minha cidade, Braga – RS. Foi frustrante saber que este semestre seria remoto e sem perspectivas de retorno. Atualmente estou em casa com minha família, já se passaram três meses de isolamento social, tempo este para pensar, refletir e estudar. O Brasil, segundo fontes do Ministério da Saúde, chegou a 45.585 mil mortes pela COVID -19. Nunca imaginava que teríamos um surto epidêmico nestas proporções, o mundo parou, a rotina das pessoas mudou, as escolas e universidades estão tendo aulas remotas e o trabalho passou a se tornar home office. Isso quer dizer que o ano de 2020 é um ano “fantasma”. Nossa rotina está pautada no isolamento social e no cuidado com quem amamos. 

Na minha opinião, este momento serve para aprendermos e pensarmos sobre como o planeta Terra está sobrecarregado, seja pela poluição, seja pelo desmatamento. Tudo isso é o ciclo da vida que interfere no nosso ciclo. Neste ciclo da vida, onde o ser humano sempre extrai em demasia quantidade de bens naturais, a natureza começa a nos dar sinais de que não está bem. 

A quarentena também serve para pensarmos sobre a sociedade capitalista pautada no consumo, haja visto que devido à pandemia, profissionais da saúde recomendam e alertam as pessoas a ficar em casa e sair somente quando for necessário e comprar apenas o essencial. E assim, percebemos que aos poucos, pelo menos agora, não há um consumo desenfreado de produtos e, consequentemente, não temos tanta poluição. Outra questão que também deve ser evidenciada é o trabalho “home office”. As pessoas que trabalham precisam adaptar-se a essa nova rotina e, nesse sentido, trabalhar em casa se torna um novo desafio. 

E não menos importante, o que mais me volto a pensar é sobre os caminhos da Educação em período de isolamento social. Presenciamos as dificuldades das escolas públicas para levar acesso aos conteúdos a alunos que não possuem internet, uma problemática que até então não era discutida e agora se tornou o centro das atenções. Ouvi vários relatos de professoras que não conseguem ministrar aulas por meio das tecnologias devido a disparidade social. É frustrante pensar que a maioria desses estudantes não estão conseguindo estudar e aprender.

Graças a Universidade conseguimos promover o diálogo para enfrentar essas problemáticas e penso, como futura Pedagoga, que devemos estar preparados para situações como essa em que nos encontramos. Qual postura vamos adotar para levar o ensino aos nossos alunos? Enfim, essas são algumas coisas que venho pensando e refletindo durante a quarentena e gostaria de relatar para finalizar a minha ação que desenvolvi durante esses meses para mostrar que de alguma forma podemos ajudar e levar à esperança as pessoas.

No início do mês de abril comecei a planejar algumas ações para a minha cidade, esbocei no papel e compartilhei esta ideia com a minha família, e logo aceitaram a ideia de cara. Então, pensando justamente em ajudar as pessoas de minha comunidade eu criei uma campanha do agasalho, produzi materiais para divulgação e coloquei em prática a campanha que gerou muitos atos de solidariedade. A campanha foi realizada durante o mês de abril até o início de maio e, para a minha surpresa, as doações renderam mais de quatro caixas de roupas.

Ao encerrar a campanha, comecei a pensar nas possibilidades de como entregar essas roupas já que não poderia sair de casa, então surgiu a ideia de fazer um brechó iniciando assim, a segunda etapa da campanha intitulada “Brechó beneficente da Ana”. 

Novamente fiz a confecção de materiais informativos para divulgação, procurei um local adequado e adotei as medidas necessárias de distanciamento social, uso de máscara e higienização das mãos. O brechó ocorreu no dia 30 de maio de 2020 e foi organizado no Mercado Roque Rede Fort, na cidade de Braga. A empresa decidiu colaborar com a minha iniciativa cedendo um espaço amplo para que eu pudesse colocar as peças de roupas. O brechó foi um sucesso. 

Com a ampla divulgação conseguimos dar visibilidade a campanha e as pessoas informavam umas as outras da existência de um brechó sem custo nenhum no mercado da cidade. Meu coração explodia de alegria ao ver as pessoas entrando e escolhendo peças de roupas, ao final do dia me deparo com a bancada vazia, consegui doar todas as peças e fazer a felicidade das pessoas neste inverno.

Para finalizar, gostaria de deixar claro que essa campanha por mim desenvolvida foi feita com todos os cuidados e medidas de higiene necessárias, respeitando o distanciamento. Em meio a um período como este, por menor que seja o gesto proposto, trouxemos um pouco de alento e felicidade para aqueles que necessitam, especialmente pelas demonstrações de solidariedade e amor, nos fazendo acreditar que ainda existe esperança por um mundo melhor.


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