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As vacinas de RNA contra Covid-19 podem alterar o DNA?



Questionamentos a respeito das imunizações unem teoria da conspiração e falácia da autoridade

Nas últimas semanas de 2020 viralizaram nas redes sociais trechos de uma entrevista da médica estadunidense Christiane Northrup em que ela diz que vacinas de RNA, como a da Pfizer, contra a Covid-19 alteram o DNA humano. Segundo checagem do Aos Fatos, o vídeo circulou primeiramente em redes de língua inglesa entre outubro e novembro e chegou ao Brasil com seu conteúdo legendado em dezembro, principalmente no WhatsApp. Dentre as diversas informações enganosas, também é dito na gravação que a imunização faz parte de um plano de dominação mundial da Fundação Bill e Melinda Gates com o uso de dados biométricos. 

Christiane Northrup é obstetra e ginecologista. Estudou na Faculdade de Medicina de Darmouth e no Centro Médico Tufts da Nova Inglaterra, como ela mesma afirma no vídeo. Para além do currículo, é possível dizer que a única informação verdadeira no vídeo é a de que as vacinas RNA nunca foram utilizadas em humanos. Trata-se de uma nova tecnologia só aplicada em animais, até a recente aprovação de sua eficácia.

Essa é a primeira vacina de RNA que estamos experimentando, mas seus estudos não são tão recentes. “Desde os anos 2000, quando eu estudava no doutorado, já via e lia sobre estudos de vacinas com RNA, sempre experimentais”, conta o biólogo Daniel Graichen,  diretor do Laboratório de Genética Evolutiva da UFSM no campus Palmeira das Missões. 

Para Daniel, a Covid-19 teria infectado intensamente as populações de países ricos, que por sua vez investiram maciçamente em pesquisa para desenvolver essas vacinas no seu estágio final em 2020. E quando tem muito dinheiro investido, a velocidade do conhecimento científico é rápida. Ele ainda ressalta: “não é porque os governos são bonzinhos que fizeram isso, nós temos outras viroses que acometem populações pobres no mundo há muito tempo e nós não temos vacina para essas doenças ainda”.

A nova vacina RNA

No vídeo, a médica diz “isso (a vacina) mudará fundamentalmente o DNA das pessoas”, algo que Daniel afirma ser desconexo da realidade, pois a vacina não é de DNA, mas sim de RNA. “O RNA é uma molécula extremamente instável, tanto que é um desafio para os pesquisadores estudarem RNA, a simples presença dele com água já o degrada”, conta o professor. Para a vacina funcionar, foi necessário encontrar maneiras de estabilizar parcialmente o RNA.

Na metodologia das novas vacinas, o RNA é encapsulado numa microesfera de lipídio e é injetada no nosso músculo. Quando entra na célula, é despejado dentro do citoplasma sem chegar ao núcleo. Sendo assim, ele chega até a membrana externa e não até a membrana nuclear, onde está o DNA. A célula reconhece o RNA mensageiro e rapidamente uma proteína é sintetizada, Em seguida, ele é degenerado. 

A partir do momento em que esse RNA é traduzido em proteína, tornam-se pequenas partículas as quais não chegam no núcleo. “Não vamos ter a partir da vacina um DNA exógeno em nosso corpo, ele vai ser uma molécula de RNA passageira que logo será degradada”, explica Daniel. O tempo até a degradação é de alguns minutos, não chega a uma hora.

A necessidade dessa estabilidade é o que ocasiona a principal diferença logística dessa vacina em relação às outras ao redor do mundo. O armazenamento da vacina da Pfizer precisa de uma temperatura de -75 graus Celsius, do contrário a instabilidade do RNA torna ela insegura. Já vacinas como a Coronavac, produzida no Instituto Butantan, que usam um vírus morto pelo calor, podem ser armazenadas de 2ºC a 8ºC.

A dominação mundial

Em outro momento do vídeo, a médica obstetra traz a seguinte afirmação: “o que eu gosto menos nisso, ainda menos do que o habitual, relativamente aos metais tóxicos contidos nas vacinas, que literalmente transformam nossos corpos numa antena, com 5G”. O raciocínio segue com a citação de termos das ciências biológicas, como “chimera” e “luciferase”, e a união de diversas informações que concluem a existência de um plano mundial da Fundação Bill e Melinda Gates para unir dados biométricos à criptomoedas. Para Daniel Greichen, “deu pra ver que ela não tinha noção dos conceitos mais básicos”.

Sobre a suposta presença de metais tóxicos na vacina, Daniel conta que muito tempo atrás, no século XX, as primeiras vacinas contra varíola até tinham alguns metais para gerar resposta imunológica. Mas em nenhuma das vacinas que são usadas no Brasil atualmente, por exemplo, se usa metal pesado como adjuvante.

Quando nos é injetado um antígeno, alguma proteína do vírus, ele vai ser reconhecido pela nossa estrutura física e surgirá uma resposta para isso. Em alguns casos são colocados junto alguns elementos na intenção de atrair a atenção para uma resposta imunológica mais forte. Podem ser usados salmonina, agarose ou qualquer outra substância que seja estranha mas que chame atenção do corpo.

O mais próximo de um metal que pode ser encontrado em algumas vacinas é o hidróxido de alumínio. “Todo mundo toma hidróxido de alumínio: que é quando tem azia e toma um golão de hidróxido de alumínio, é um antiácido muito mais puro e muito pequeno”, explica o professor. No processo de vacinação, logo em seguida o hidróxido de alumínio é neutralizado e exterminado via sistema excretor. Também são usadas proteínas como a do ovo, por isso algumas vacinas são proibidas para quem tem alergia.

A falácia da autoridade: “o médico falou”

No início do vídeo, a entrevistadora Polly Tommey, britânica conhecida pela produção de documentários antivacinação, pede para que Christiane se apresente e em seguida conclama sua experiência para comentar o temor sobre a vacina. A obstetra prontamente responde enumerando feitos de sua carreira:

“Eu sou a autora de três livros mais vendidos do New York Times incluindo: Women’s Bodies Women’s Wisdom, The Wisdom of Menopause e Goddesses Never Age. Eu participei de 8 especiais da televisão pública de grande sucesso, eu estive no Programa da Oprah Winfrey 10 vezes e em todos os inúmeros programas da TV como Dr. Oz e Rachel Ray e notícias noturnas na NBC, entre outros.”

Sobre isso, Daniel comentou ter visto com estranheza o momento onde ela começou a enumerar a carreira de maneira intensiva e chamou o ato de falácia da autoridade. Para o professor, uma das piores falácias é a falácia da autoridade na ciência, afinal “não é porque alguém é importante, que alguém já publicou muito, que essa pessoa não possa falar besteira”, avalia.

A falácia ou apelo à autoridade, do latim Argumentum ad Verecundiamm, diz respeito à atitude de recorrer a uma certa autoridade para indicar verdade sobre o tema em debate, mesmo que não exista legitimidade. É possível encontrar essa estratégia cotidianamente em campanhas publicitárias,  nas quais são usadas personalidades famosas como autoridades mesmo que não tenham nenhuma especialização na área a qual o produto se refere. Por exemplo, atores e atrizes indicando remédios e cursos de idiomas sem que sejam médicos ou professores de línguas.

No caso da médica obstetra e ginecologista Christiane Northrup, seus livros sobre saúde da mulher não usam de metodologia científica e participações em programas de TV não a legitimam como especialista na área de genética e biologia molecular. Diferentemente de Daniel Graichen, que é professor com formação em Ciências Biológicas Bacharelado pela UFSM, fez mestrado em Genética e Biologia Molecular e doutorado em Genética e Biologia Molecular, ambos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, além de ter pós-doutorado em Ciências Biológicas na UFSM.

Para prevenir esse tipo de falácia é importante sempre ter em mente que, mesmo no caso de uma autoridade legítima, a verificação do argumento é sua relação com a verdade. Quando se tratam de novas descobertas extraordinárias, como uma suposta vacina que altera o DNA humano, é necessário apresentar evidências também extraordinárias. “Eu não posso chegar aqui e inventar pra você uma história sem mostrar as evidências muito fortes que aquela minha história está sendo corroborada”, comenta Daniel.

Veredito final: Mito!

Não há possibilidade alguma de uma vacina alterar o DNA de quem a recebeu e nem das próximas gerações.

Expediente

Repórter: Lucas Felipe Silva, acadêmico de Jornalismo e estagiário

Ilustradora: Amanda Pinho, acadêmica de Produção Editorial e bolsista

Mídia Social: Nathalia Pitol, acadêmica de Relações Públicas e bolsista

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Maurício Dias, jornalista


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