Uma música começa a tocar. Alguns olham para o teto, outros para a folha em branco. Em poucos minutos, aquilo que era apenas uma proposta de escrita vira lembrança, sentimento, personagem ou desabafo. Na Oficina de Escrita Criativa do Setor de Atenção Integral ao Estudante (SATIE), cada texto surge da mesma inspiração, mas nunca de maneira idêntica. A quarta edição da Escrita Criativa iniciou no primeiro semestre de 2026 com a proposta de contribuir para a garantia do acesso aos direitos da cultura e lazer. A oficina conta com um bolsista de graduação, que atua como professor e coordena as atividades desenvolvidas pelas duas turmas de participantes.
A Lei Nacional nº 14.914, de 3 de julho de 2024 tem como objetivo ajudar estudantes de instituições federais de ensino a conseguirem entrar, permanecer e concluir seus cursos, principalmente aqueles em situação de vulnerabilidade social. Segundo uma das assistentes sociais da SATIE, Andreia Zanoello, as oficinas eram pensadas antes da existência de tal legislação. “A responsabilidade da reitoria não se dá somente em questões materiais, também há a necessidade de promover ações voltadas à socialização entre estudantes”. – contou Andreia.
As oficinas são disponibilizadas semestralmente e contam com diversas modalidades, como por exemplo: corrida, padel, vôlei, pilates, alongamento e costura criativa. O estudante de Letras, Guilherme Michels, é o responsável pela oficina “Escrita Criativa”, a qual assumiu no início do mês de Abril. A oficina ocorre todas às terças e sextas, das 10h às 11h, na SATIE, localizada próxima à Casa do Estudante Universitário (CEU). A localização da oficina é proposital, pois, como mencionado por Andreia, as ações tentam impactar de uma forma maior os estudantes com mais vulnerabilidade social.
Guilherme conta que o gosto pela escrita e a vontade de fazer com que mais pessoas gostassem desse lazer foi o que motivou sua inscrição no edital para ministrar os encontros. “Às vezes você pode escrever por hobby, porque pode ser muito terapêutico para algumas pessoas”, comenta Guilherme.
Participam da oficina estudantes de diferentes áreas, o que gera diversas interpretações acerca da temática dos textos. Por cerca de uma hora, o professor mostra uma fonte de inspiração, como uma música, para os alunos escreverem o que sentem a partir daquilo. Depois de finalizados, os textos são lidos em voz alta. Guilherme observou que, no momento da leitura, há trocas significativas entre os participantes: “A gente pode escrever sobre as mesmas coisas, mesmas palavras, a mesma imagem, o mesmo conceito, mas sempre vamos ter uma interpretação diferente”, explica.

Guilherme explicando a dinâmica para os alunos.
Quando escrever também vira pausa
No ambiente acadêmico, encontrar tempo para o lazer se torna cada vez mais difícil e, a partir disso, iniciativas como a oficina de Escrita Criativa são de extrema importância. Uma pesquisa realizada em 2019 por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e do Instituto Federal Farroupilha, com 423 estudantes universitários, identificou que a frequência que os participantes mencionaram dificuldades na gestão do tempo relacionada às tarefas acadêmicas foi de 16,1%.
O aluno da oficina e graduando do curso de Engenharia de Telecomunicações, Leonardo Nielsen, explicou que, quando criança, escrevia com certa frequência, porém os estudos substituíram o tempo de seu hobby. “Na faculdade a gente acaba não tendo muito tempo para as coisas. Por isso, eu queria ter um espaço dedicado, pelo menos uma hora na semana, para poder escrever alguma coisa”, declara.
O peso que cabe no papel
A psicóloga Dariane Félix esclarece que a escrita ajuda no processo de cura psicológica e depende da capacidade de “elaboração” de cada pessoa – que é a aptidão de transformar uma experiência pessoal em algo de possível compreensão. A partir dessa ideia, quando uma pessoa consegue elaborar, é indicado que ela escreva.
Outro participante da oficina e mestrando em Ciências da Computação é Davi Tonon. Para ele, a escrita ajuda a entender e organizar pensamentos, sentimentos e emoções. Nesse sentido, Dariane traz uma visão terapêutica, que evidencia o quanto a oficina coopera na formação dos jovens. “Quando fazemos o movimento de escrever, conseguimos organizar melhor os nossos pensamentos. Conseguimos até mesmo visualizá-los e entendê-los melhor”, enfatiza.

Davi lendo o que havia escrito durante a oficina
A escrita terapêutica surge para expressar algo íntimo entre psicólogo e paciente. Já a escrita literária, o foco da oficina, leva em consideração o público que vai atingir. Apesar dessa distinção, os participantes da Escrita Criativa apontam que as dinâmicas ofertadas trazem possibilidades de autoconhecimento. A participante e graduanda em Medicina Veterinária, Ilana Petry, diz que: “A escrita me permite dividir o peso da minha carga com o papel”.
Mais do que escrever, sentir
Segundo a crítica de cinema, Pauline Kael, foi dito por um analista que, quando seus pacientes não falam de seus complexos ou problemas, eles trazem situações de personagens de filmes como parte da novela da própria vida. Dariane indica a leitura a seus pacientes com o objetivo de fazê-los focar em uma atividade que desacelera o corpo, trabalhar a empatia, se identificar e refletir sobre a própria vida. “Acredito que a escrita e a leitura dão sentido para a vida, o que seria da gente sem as histórias que nos trazem inspiração para viver a vida real?” – questiona.
A Oficina de Escrita Criativa é um período de tempo que permite aos seus participantes a fala e a escuta ativa de seus textos autorais, sem julgamentos ou pressão. Lá, os estudantes entendem que nem sempre a escrita tem que ser perfeita ou que é necessário ser um grande autor para poder escrever. No final do dia, você só precisa sentir. “Eu gosto muito desse tempo que passo aqui pois ele ajuda a lembrar que a gente também existe fora da faculdade”, afirmou Ilana.
Reportagem: Emmanuelly Zini, Luisa Santos e Sabrina Fagundes
Fotos: Sabrina Fagundes
Ilustração capa: Willian Silveira