Em 1966, o professor, violinista e compositor Frederico Richter deu os primeiros passos para a criação do que hoje é a Orquestra Sinfônica de Santa Maria. Natural de Porto Alegre, ao assumir o cargo de docente no Centro de Artes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), notou uma escassez de alunos e músicos que dominassem instrumentos de orquestra na cidade.
Para mudar esse cenário, Frederico contou com o apoio de colegas da UFSM – inclusive do próprio fundador da instituição, José Mariano da Rocha Filho – e de colegas de Porto Alegre. Juntos, formaram um conjunto de câmara composto essencialmente por cordas. Determinado a constituir uma orquestra sinfônica completa, o professor criou o projeto de extensão “Orquestra Possível” em 1981, em que músicos de qualquer instrumento podiam participar.
Esse movimento culminou na criação da Associação Cultural Orquestra Sinfônica de Santa Maria em 1988, que consolidou a especialização da orquestra e possibilitou a arrecadação de verbas para a compra de instrumentos. Quem assumiu a direção do grupo nesse ano foi o maestro, trompetista e também professor Ênio Guerra. Segundo ele, a Associação viabilizou a arrecadação de verbas junto a órgãos de fomento e incentivo à cultura. Foi a partir daí que os músicos tiveram alguma remuneração nas horas de trabalho e apresentações, que passaram a acontecer em todo o Rio Grande do Sul.
Hoje, aos 60 anos, a Orquestra conta com uma equipe de músicos e de produção completa, além de uma sala de ensaios exclusiva no Centro de Convenções da UFSM. Como almejado por seu fundador, ela segue como uma espécie de “orquestra escola”, um laboratório em que alunos e músicos da cidade aprendem na prática e no palco. Nas apresentações, o grupo lota as plateias ao explorar diferentes estilos, do clássico ao popular.
Exemplo dessa mistura de gêneros musicais e possibilidade de experimentação é o concerto comemorativo realizado em maio deste ano. O programa reuniu referências de diferentes períodos e linguagens musicais, como o berimbau, os ritmos brasileiros, a música clássica e o jazz.
Desde dezembro de 2025, quem ocupa a posição de maestro e diretor artístico é o professor Cláudio Antonio Esteves, do Departamento de Música da Universidade. Ele descreve o ambiente criado pela orquestra como um espaço de desenvolvimento, no qual o aluno tem tempo para se adaptar ou, em suas palavras, “maturar” uma peça e apresentá-la com potencial máximo.
Cláudio ainda destaca que a vontade de encarar músicas desafiantes e animadoras é o que realmente move os alunos. Na visão do maestro, esse desafio é o que transforma o esforço técnico em prazer artístico e permite que o estudante cresça como profissional. Além da prática, o palco funciona como um laboratório no qual se aprende a lidar com a pressão de um concerto.
Os músicos são estudantes que integram o grupo ao cursarem disciplinas obrigatórias da graduação, além daqueles que escolhem permanecer depois. O acadêmico de Música Leandro Barboza fez quatro disciplinas obrigatórias e quatro eletivas na Orquestra. “Estar inserido em um grupo orquestral me faz amadurecer como músico e como futuro profissional”, comenta.
Para ele, a ideia de orquestra escola surge também como uma forma de integrar a comunidade acadêmica com a comunidade externa, inclusive de projetos sociais da cidade e região. Leandro, que toca fagote, destaca que não são apenas estudantes de Música da Universidade envolvidos: há também alunos do Bacharelado em Música e Tecnologia, por exemplo, que cuidam da parte técnica do som em apresentações, além de bolsistas de outras instituições e cidades da região. “Isso faz com que haja uma integralidade entre os diferentes níveis musicais”, comenta.
José Munhoz iniciou o Bacharelado em Música em 2002 e em 2004 ingressou na Orquestra Sinfônica como trompetista. Logo depois mudou para trompa – instrumento no qual concluiu um segundo bacharelado em 2007. Nesses 22 anos, afastou-se dos ensaios e apresentações apenas por um curto período. “Toco até hoje pois me sinto bem interagindo com os demais colegas músicos, percebo que fazer parte do grupo me satisfaz pessoal e profissionalmente”, diz José.
A flautista Gabriela Sara Griebeler e o clarinetista Eder Roberto de Oliveira também têm trajetória marcada pela Orquestra. Como Leandro, eles cursaram os quatro semestres de disciplinas obrigatórias da grade curricular. Nesse período, apresentaram-se em diversos lugares do Rio Grande do Sul e Uruguai e conheceram professores e músicos de várias outras universidades e países. De acordo com a flautista, o ambiente de convivência com profissionais e a segurança passada pela regência foram fundamentais para seu amadurecimento artístico.

A flautista Gabriela Sara Griebeler e o clarinetista Eder Roberto de Oliveira / Foto: Sabrina Fagundes
Gabriela e Eder continuaram como músicos contratados após concluírem a graduação, e todo esse preparo resultou no novo capítulo de suas vidas: ambos foram aprovados na Orquestra Sinfônica da Força Aérea Brasileira, em Brasília. Enquanto ex-integrantes conquistam outros espaços Brasil afora, o que iniciou como uma “orquestra possível” está pronto para tocar os próximos sessenta anos.
Para o atual maestro, é essa capacidade de ensinar, criar e sonhar que sustenta o projeto desde sua origem. “A gente faz uma orquestra assim sonhando grande e realizando o que dá. E vai abrindo até chegar ao que a gente tem hoje”, declara Cláudio.

O IV Concerto da Temporada realizado no Theatro Treze de Maio sob regência de Enio Guerra com participação do solista Luiz Henrique Molz no ano de 2000. / Foto: Arquivo Fotográfico UFSM
Reportagem por: Felipe Santos, Giana Bess e Laura Fedatto