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[GRITOS DO SILÊNCIO] Calamidade pública no Rio Grande do Sul: um retrato da nova realidade socioambiental



A foto mostra uma rua da cidade de Roca Sales com postes caídos e casas destruídas.
Reprodução de G1: cidade de Roca Sales depois da passagem do ciclone - Foto: Lauro Alves/Agência RBS

De junho a setembro deste ano, o Rio Grande do Sul enfrentou nove ciclones extratropicais. O mais nocivo deles se manifestou na madrugada do dia 4 de setembro, quando moradores de cerca de 90 municípios foram surpreendidos por uma enchente. O episódio foi causado pelo aumento rápido e imparável do nível do Rio Taquari, o que se deu após chuvas intensas no vale. De acordo com a Defesa Civil Estadual, o sinistro afetou mais de 150 mil pessoas e levou a 43 mortes. 

Danos humanos, sociais e econômicos como esses já haviam sido vistos há seis décadas no estado. Em setembro de 1959 ocorreu o desastre climático mais fatal do Rio Grande do Sul, também decorrente de chuvas extremas que elevaram o nível do Rio Pardo. O episódio ocorreu nas cidades de Candelária, Passa Sete e Sobradinho, no Centro gaúcho, e resultou na morte de 94 pessoas. 

Fatores geomorfológicos e climáticos tornam o estado favorável ao que se chama de efeito orográfico, fenômeno surgido do encontro entre uma massa de ar e um “obstáculo” no relevo. O professor em climatologia geográfica Cássio Wollmann explica que as fortes chuvas são naturais. “Sempre tende a chover mais no norte do Rio Grande do Sul e relativamente menos nas áreas mais planas. Em um evento extremo como esse, de maior quantidade de chuva, vai chover mais onde já é esperado”, conclui. 

No dia 7 de setembro, logo após a passagem do ciclone, a Gaúcha ZH publicou uma reportagem sobre a possibilidade de recorrência de supertempestades em solo gaúcho. Sob o risco crescente de novas catástrofes, é urgente que medidas de prevenção sejam tomadas. No entanto, dados do Adapta Brasil indicam que quase metade dos municípios do RS tem baixo potencial de adaptação frente a desastres desse nível.

Possíveis medidas

A baixa capacidade adaptativa das cidades, somada à falta de planejamento e investimento do Governo Estadual, intensifica o perigo de prejuízos na qualidade de vida da população. Segundo matéria da Agência Pública, o estado deixou de implementar planos para administrar emergências e prevenir estragos advindos de catástrofes naturais. A negligência se estende à desconsideração da gestão atual para com os alertas emitidos pela MetSul Meteorologia na semana precedente à enchente. 

A previsão era de que chuvas intensas, acima de 300 milímetros, trariam volume expressivo e impactos iminentes, mas não houve esforços para promover uma redução de danos. Para Wollmann, o padrão histórico do estado apresenta uma previsibilidade alta de acontecimento do gênero e, por isso, os órgãos responsáveis devem administrar de forma mais coerente a ocupação territorial do estado. 

O professor elucida a questão com a enchente ocorrida em 1941, quase meio metro maior que essa última, na capital gaúcha. “As cidades eram menores, sem o contingente populacional de hoje. O uso do solo pela agricultura, pela indústria e pela expansão da cidade era menor. Em 1941, o ocorrido não causou tantos transtornos quanto o atual. É urgente uma organização territorial para que se entenda quais áreas são passíveis de sofrer com enchentes e deslizamentos. Temos que ocupar os lugares com base no que a natureza promove de eventos regulares ou extremos”, ressalta.

Sobre moradia em áreas de risco no Brasil, em 2020, o portal R7 compartilhou uma reportagem com dados que apontavam ao menos 4 milhões de pessoas nessa situação. Em novembro de 2022, o MapBiomas Brasil divulgou um levantamento de dados que aponta que, de 1985 a 2021, o número de ocupações em ambiente irregular totalizou 106 mil hectares. As pessoas que ocupam esses lugares possuem algo em comum: são diretamente afetadas pela desigualdade socioeconômica.

Wollmann reforça que todos estão vulneráveis, em maior ou menor grau, a sofrer os efeitos das mudanças climáticas, mas que comunidades pobres são as mais afetadas. “Quando essas populações são jogadas em encostas de morro, regiões costeiras e beiras de rio, se favorece, intrinsecamente, o risco. A falta de recursos faz com que, muitas vezes, as construções sejam mais frágeis e as pessoas não tenham como se proteger. Então, deve existir um planejamento para tentar mitigar e reduzir essa desigualdade com políticas de Estado em todas as esferas do nosso país”, enfatiza o professor

Crise climática e ponto de ebulição global: o que é o novo normal?

Em julho deste ano, o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou em uma coletiva de imprensa que a Terra chegou ao seu ponto de ebulição. O uso abusivo de energia fóssil, carvão e de outros elementos responsáveis pelo efeito estufa aumentou o clima normal médio do planeta. No mês seguinte, o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus, financiado pela União Europeia, anunciou que a temperatura da atmosfera global está 1,5ºC acima dos níveis pré-industriais. 

As consequências, que já podem ser notadas no cotidiano da humanidade, têm reflexos na segurança alimentar, no desenvolvimento socioeconômico e na saúde de todas as pessoas. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) iniciou em 2018 um relatório sobre a temática do aquecimento global. O resultado das análises traz a previsão de um colapso climático antes do ano de 2040. 

Com foco em reverter a situação e promover a sustentabilidade, a ONU lançou, em 2015, a Agenda 2030. O plano possui 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e propõe ações afirmativas, inclusão socioeconômica e conscientização ambiental para resolver entraves econômicos, ambientais e sociais. De acordo com Wollmann, a ideia deve ser acompanhada de desenvolvimento teórico e intelectual: “Sem uma educação mundial que contemple formas de gerir esses problemas todos relacionados às mudanças climáticas e às relações interpessoais, não vamos avançar muito nisso”. 

O meteorologista Murilo Lopes explica que extremos climáticos não significam o surgimento de novos fenômenos, mas sim a mudança de intensidade e frequência daquilo que naturalmente já acontece. Para ele, é fundamental que a sociedade, como um todo, entenda a crise climática e suas nuances para barrar o negacionismo quanto aos modos de consumo e de vida cada vez mais autodestrutivos.

 Em relação ao superaquecimento do planeta, Lopes evidencia que o problema não é só o calor. “Extremos de frio e de chuva podem ser potencializados no planeta mais quente. O impacto social da intensidade e da concentração desses eventos em regiões específicas é inerente. Então, isso é algo que temos que difundir muito bem, porque gera muitas dúvidas e faz com que o cenário de mudança climática seja erroneamente questionado”, salienta o especialista.

De acordo com o meteorologista, o que se pode esperar é que mais pessoas sejam expostas aos impactos das mudanças climáticas e que, por esse motivo, é urgente que haja um investimento prévio para investigar e prevenir catástrofes futuras. “O evento climático vai acontecer de maneira natural, mas o desastre só acontece quando o ser humano está ali”, completa.

Texto: Kemyllin Dutra

Repórter do Gritos do Silêncio, estudante de Jornalismo pela UFSM. Contato: kemyllin.dutra@acad.ufsm.br

Foto: Lauro Alves/Agência RBS

Revisão: Júlia Petenon, repórter do Gritos do Silêncio e estudante de jornalismo pela UFSM. Contato: petenon.julia@acad.ufsm.br

Publicação: Elisa Bedin, repórter do Gritos do Silêncio e estudante de jornalismo pela UFSM. Contato: elisa.bedin@acad.ufsm.br

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