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Como as guerras atrasam o combate às mudanças climáticas



Há uma decisão silenciosa sendo tomada diariamente no jornalismo, e talvez seja uma das mais arriscadas da nossa época: quando a guerra entra em pauta, o clima sai.

As mudanças climáticas não deixam de existir durante conflitos armados. Ao contrário. Elas se agravam. Porém, desaparecem. São ofuscadas por imagens mais urgentes e “comerciais”: explosões, mapas táticos, conflitos geopolíticos. O planeta, que deveria ser o pano de fundo de tudo, acaba se tornando uma nota de rodapé, quando isso acontece.

Essa divisão não é natural. É formada.

Uma das análises mais recentes do Observatório de Jornalismo Ambiental aponta uma falha quase sistemática na cobertura: guerras e desastres climáticos são vistos como eventos separados, embora façam parte do mesmo processo de deterioração global.

É como se o efeito ambiental de um bombardeio não estivesse ligado à crise climática, como se arrasar uma cidade não acabasse também com um ecossistema.

E é nesse ponto que o discurso começa a desmoronar.

As guerras modernas não se limitam apenas a disputas territoriais. Elas são máquinas que consomem muito carbono. Tanques, caças, drones, cadeias industriais inteiras operando para manter o conflito, tudo isso consome energia, água e recursos naturais em uma escala imensa.Estima-se que as atividades militares estejam entre as principais responsáveis pela emissão de gases de efeito estufa no planeta. Em outras palavras, enquanto alguns líderes falam sobre objetivos climáticos, suas guerras fazem exatamente o contrário.

Porém, o problema não se resume ao que a guerra emite, mas ao que ela impede.

Quando um país entra em conflito, as políticas ambientais perdem a prioridade. Planos de adaptação são suspensos, recursos são desviados e instituições entram em colapso. No recente conflito no Oriente Médio, por exemplo, a guerra não apenas agravou a devastação ambiental, mas também impediu totalmente qualquer esforço para enfrentar a crise da água e do clima.

A lógica é simples: não se discute o futuro quando o presente está em chamas.

No entanto, essa lógica tem um custo cumulativo.

A devastação de infraestruturas essenciais, como saneamento, abastecimento de água e agricultura, gera impactos ambientais que podem perdurar por décadas. A guerra já arrasou terras agrícolas, contaminou água e solo e gerou milhões de toneladas de resíduos tóxicos em Gaza.

Reconstruir isso não é apenas caro. É um desastre climático: reconstruir também emite, também consome e também piora a situação.

Trata-se de um ciclo.

A guerra causa destruição, a reconstrução gera emissões, o clima se agrava, surgem novas crises, aumenta a instabilidade e, consequentemente, mais guerras acontecem. E no meio de tudo isso, há um elemento ainda mais maligno: o dinheiro. Em muitos casos, os recursos alocados à indústria bélica são suficientes para financiar políticas globais de combate à crise climática.

Porém, não são.

Porque a guerra agita o mercado. O clima exige mudança. E a transformação não é de interesse para quem se beneficia da continuidade do conflito.

Por fim, a questão mais desconfortável pode não ser “como as guerras impactam o clima”, mas sim por que continuamos a considerar esses dois fenômenos como distintos. A resposta envolve , política e um modelo de desenvolvimento que normaliza a destruição. O jornalismo colabora nesse cenário, mantendo o debate longe das verdadeiras causas.

Nesse meio tempo, o planeta segue sendo bombardeado.

Com e sem transmissão ao vivo.

Por Welitom Wargas | Bolsista PET Educom Clima

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