Ir para o conteúdo UMA Ir para o menu UMA Ir para a busca no site UMA Ir para o rodapé UMA
  • Acessibilidade
  • Sítios da UFSM
  • Área restrita

Aviso de Conectividade Saber Mais

Início do conteúdo

Mulheres Sustentáveis e Transformadoras: Débora Bobsin e o ODS 8



A forma como a sociedade interpreta o trabalho foi se transformando ao longo do tempo. Ele já foi tratado como forma de subsistência na pré-história, com a construção de ferramentas e plantio de alimentos; como moeda no período feudal, quando os camponeses trabalhavam em troca de uma porção de terra, e com a industrialização, ele se tornou peça chave para o relacionamento interpessoal dentro da comunidade.

Dentro desse último conceito, há a visão da sociedade sobre a força do trabalho e seu mecanismo de produção, que através do longo contexto histórico de revoluções industriais e lutas trabalhistas, vai além da relação emprego e salário. De acordo com o sociólogo francês Émile Durkheim, o sistema capitalista é guiado pela solidariedade orgânica, que apresenta diferentes funções (profissões) especializadas, gerando uma interdependência entre todos os seres humanos envolvidos nas distintas tarefas realizadas. 

Seguindo essa linha, a participação formal da população nesse mecanismo indica mais do que poder econômico e sua capacidade de gerar e consumir bens, mas também revela sua relevância para a comunidade e transmite a sensação de dignidade e pertencimento. Quando não há uma relação justa e legal entre empregado e empregador, a desvalorização do ser humano como indivíduo é inevitável. 

Conforme dados de 2018 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de 61% da população empregada do mundo, 2 bilhões de pessoas, está no mercado informal. No Brasil, o índice é de 46%. 

Infelizmente, a informalidade não é a única questão preocupante relacionada ao trabalho. De acordo com o estudo Global Estimates of Modern Forced Labor and Forced Marriage, de 2017, mais de 40 milhões de pessoas foram vítimas da escravidão moderna em 2016, sendo que a maioria eram mulheres e meninas. A escravidão moderna se distingue das formas de trabalho forçado tradicionalmente estudadas, como a aplicada no período escravocrata que vigorou no Brasil que durou três séculos e ecoa suas consequências até hoje. Esse tipo é mais discreto e popular, resumido em situações onde pessoas são forçadas a trabalhar em condições insalubres sob ameaça de retaliação e com pouco ou nenhum salário. 

Diante desses números e problemáticas, diversas leis e ações governamentais agem contra  essas situações, visando o alcance do trabalho decente para todos. Sabendo que só há como ter um desenvolvimento sustentável com todas as pessoas exercendo seu trabalho de forma digna e honesta, a Organização das Nações Unidas (ONU) conta com o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) número 8, que visa o Trabalho Decente e Crescimento Econômico. 

“Até 2030, alcançar o emprego pleno e produtivo e trabalho decente todas as mulheres e homens, inclusive para os jovens e as pessoas com deficiência, e remuneração igual para trabalho de igual valor”

Artigo 5 do ODS 8 

A Universidade Federal de Santa Maria colabora diretamente com esse ODS e com toda a Agenda 2030 nos futuros geoparques vinculados à ela. A UNESCO explica que geoparques são territórios de interesse geológico e geomorfológico que devem possuir uma estratégia de desenvolvimento responsável tanto social quanto ambientalmente. São áreas de valor natural muito grandes e que oferecem uma fonte de renda viável aos moradores da região. 

Atualmente, a UFSM auxilia duas localidades com potencial para se tornarem geoparques:  Caçapava do Sul e Quarta Colônia, cada uma com suas peculiaridades. Com a ajuda do meio acadêmico nesses locais, há o estímulo do desenvolvimento regional e dos eixos propostos pela UNESCO para a final denominação de geoparque ser concedida.

Uma das formas que a Universidade encontrou para atuar em prol disso é através do projeto de extensão “Geoparques: Laboratório de Negócios”, coordenado pela professora do Departamento de Ciências Administrativas da UFSM Débora Bobsin. 

O projeto em questão visa o desenvolvimento econômico da região auxiliando novos empreendedores e fortalecendo os negócios já existentes. A ação trabalha tanto com iniciativas empreendedoras, ou seja, pessoas que só têm as ideias, mas ainda não tiveram a oportunidade de colocá-las em prática, quanto com empreendimentos que ainda não trabalham formalmente, a fim de legalizarem as práticas. “Alguém que quer empreender precisa de uma porta de entrada, um suporte”, explica a professora.

Os caminhos que levaram Bobsin à coordenar essa iniciativa datam desde 2014, quando ela fez um intercâmbio de pesquisa para o seu pós-doutorado no Canadá durante um ano. Apesar de ter a maior parte de sua carreira acadêmica voltada para a tecnologia aplicada na administração, no exterior ela começou a se interessar por inovação social e por tecnologias do terceiro setor. 

No final de 2017, a professora foi convidada para trabalhar na Incubadora Social da UFSM junto à Pró Reitoria de Extensão e lá atuou durante os anos de 2018 e 2019, onde se aproximou ainda mais do empreendedorismo social, que é uma forma alternativa de gerir negócios, que além do lucro, visa também melhorias sociais. Com essas experiências, o “Geoparques: Laboratório de Negócios” nasceu em agosto de 2019. 

São vários os empreendimentos atendidos pelo projeto, dentre eles estão oficinas de confecção de pilchas, fortalecendo a cultura gaúcha,  produção de morango (fruta in natura e doces), salames e queijo. Bobsin chama atenção para duas situações: a primeira é um grupo de empreendedores que visam gerir negócios voltados à cultura negra, e a segunda é a iniciativa embrionária de uma jovem que quer trabalhar com uma horta agroecológica que foi muito beneficiada com a oficina de canvas ministrada pela equipe do projeto.

“Um dos pontos positivos da extensão é que aprendemos a conversar com diferentes públicos”, afirma a professora. “A forma como eu explico para os meus alunos o que é canvas é completamente diferente da forma que eu explico para o empreendedor que está lá na ponta […] Fazer com que as pessoas entendam o que fazemos e desenvolvemos na academia e fazer com que elas apliquem em seus negócios, com suas devidas adaptações”, explica Bobsin. 

Débora Bobsin ainda retoma a importância do fortalecimento das comunidades periféricas para minimizar os problemas sociais. A professora ainda retoma o fato da questão de gênero e raça no meio empresarial: “A questão de gênero aparece em diferentes frentes. Ela aparece no nosso dia a dia, como chegar em uma reunião e ser só você como mulher, e por outro lado, é quando atuamos com as empreendedoras. Precisamos entender os desafios que elas vivenciam”, diz Bobsin.

A professora diz que trabalhar com a extensão é um exercício de empatia e que ela e os outros membros do projeto buscam mudar a realidade daqueles envolvidos, estimulando o empreendedorismo feminino e negro. Nas escolas de Caçapava do Sul, o projeto auxilia os professores nas aulas de empreendedorismo e instiga as alunas a adentrarem no mercado empresarial. 

“A extensão pra mim, eu gosto dela, eu tenho um apreço pelo viés mais prático pelo contato com as pessoas porque a gente tem a sensação de que estamos contribuindo”, ela fala. 
Hoje, Bobsin também faz parte do programa academia do Instituto de Cidadania Empresarial (ICE). Essa organização visa fortalecer a atuação das Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras nas temáticas de Finanças Sociais e Negócios de Impacto, com ênfase nas três dimensões básicas do ensino: pesquisa, docência e extensão.

Publicações Relacionadas

Publicações Recentes