II Seminário de Pesquisa em Música da UFSM
Pesquisa, Práxis e Identidade: A Consolidação do Fazer Musical na Pós-Graduação Stricto
13 e 14 de agosto de 2026
Palestrantes convidados: Profa. Dra. Bibiana Bragagnolo (UFMT) e Prof. Dr. Guilherme Sauerbronn (UDESC)
Organização: Prof. Dr. Arthur Rinaldi e Prof. Dr. Glaubert Nüske
Realização: Centro de Artes e Letras da UFSM e Pós-Graduação Especialização em Música (UFSM)
Local: Teatro Caixa Preta – CAL/UFSM
Santa Maria – RS – Brasil
Comitê Científico
Álvaro Borges (UNESPAR)
Amaro Borges (UFSM)
Carlos E. Dias (UFMG)
Felipe Mello (UEMG)
Felipe M. Castellani (UFRGS)
Guilherme Bertissolo (UFBA)
Hellen Gallo (UNESP)
Letícia Dias (UFMS)
Rael Gimenes Toffolo (UNESPAR)
Tadeu Taffarello (UNICAMP)
Ziliane Teixeira (UFAL)
RESUMOS
13 de agosto de 2026 (09h30)
A Reescrita Métrica no Processo Criativo da Performance Musical
Guilherme de Moura Glienke
Diogo Baggio Lima
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
O presente trabalho propõe uma estratégia prática voltada à preparação da performance musical, fundamentada no método de reescrita métrica e rítmica presente em Glienke (2023). O objetivo geral de tal método é tornar conscientes as nuances interpretativas ligadas à métrica e à rítmica de uma obra, especialmente em repertórios que mesclam a tradição clássica ocidental e as tradições populares — na obra de compositores como Astor Piazzolla, Marlos Nobre, François Rabbath e Andrés Martin. Ressalta-se que o propósito desse processo criativo não é “corrigir” a grafia do compositor, mas sim explicitar a interpretação do performer sobre pontos onde há abertura para múltiplos agrupamentos métricos. Teoricamente, o trabalho articula-se em torno da relação entre a aprendizagem formal e informal (Smart; Green, 2017; Green, 2017) e da construção interpretativa nos processos criativos da performance (Hill, 2002; Rink et al., 2017; Rink, 2019). Metodologicamente, a pesquisa analisa a aplicação prática da técnica de reescrita métrica por meio de exemplos apresentados por Glienke (2023) e da obra Ode D’Espagne, de François Rabbath, para contrabaixo solo. Como principais resultados do processo analítico e performático da pesquisa, observa-se que a reescrita métrica auxilia o músico a compreender sua própria interpretação intuitiva da obra. Muito além de justificar racionalmente um direcionamento de frase ou ênfase em notas específicas, tais intenções espontâneas e frequentemente subjetivas podem, através da reescrita métrica, transformar-se em decisões artísticas conscientes. Conclui-se que o método consolida contribuições essencialmente criativas e artísticas do performer no plano empírico da música: a performance.
Palavras-chave: Performance Musical; Contrabaixo; Reescrita Métrica; Processo Criativo-Interpretativo; Aprendizagem Informal.
Referências:
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Saúde Física e Mental do Músico para a Performance: lecionando cuidados regulares para a prática diária
Meryelle Nogueira Maciente
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
O presente trabalho propõe uma reflexão teórico-prática sobre a relação entre saúde do músico e performance musical, enfatizando a importância da inserção sistemática de conteúdos voltados ao autocuidado na formação de estudantes de música. Com base em pesquisa derivada de Mestrado e Doutorado, amparado na prática como docente e pesquisadora, assim como na prática extensionista da performance, parte-se aqui do pressuposto de que fatores físicos, mentais e comportamentais exercem influência direta sobre o desempenho artístico, tornando indispensável o desenvolvimento da consciência corporal (Suetholz, 2015) e da preparação física e psicológica como componentes da prática musical (Pierce, 2010; Bock, 2020). Se discutirá a relevância de se abordar frequentemente em sala de aula, no contexto do ensino instrumental e vocal, temas como percepção e consciência corporal, alinhamento postural, aquecimento e alongamento, prática regular de atividade física, alimentação, hidratação, construção de hábitos saudáveis e gestão da energia física e mental. Além disso, propõe refletir sobre o reconhecimento de sinais e fatores de risco relacionados a lesões musculoesqueléticas, ansiedade, depressão e Ansiedade de Performance Musical (APM), bem como sobre estratégias de prevenção, foco, concentração e preparação emocional para apresentações e audições (Angelotti, 2011). Fundamentado em contribuições da neurociência, da saúde ocupacional e da pedagogia da performance (Bruser, 1999), o estudo defende uma abordagem interdisciplinar que pretende favorecer uma integração corpo-mente, estimulando o desenvolvimento da propriocepção, do autocuidado e da autonomia do estudante. Argumenta-se, com base na bibliografia, que a incorporação desses conhecimentos ao processo formativo pode contribuir para gerar uma prática artística mais consciente, eficiente e prazerosa, reduzindo fatores de risco à saúde (Alcântara, 2011; Bruser, 1999: Conable, 2000; Medici, 2015), promovendo maior qualidade de vida. Dessa forma, busca-se evidenciar a necessidade de consolidar a saúde do músico como dimensão essencial do ensino na formação superior em Música e a preparação para a atuação profissional.
Palavras-chave: performance; ensino musical, saúde do músico.
Referências:
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ALCÂNTARA, Pedro de. The alexander Technique: a skill for life, The Crowood Press: Malborough, 2007.
ALCÂNTARA, Pedro de. Indirect procedures: a musician´s guide to the Alexander Technique, Clarendon Press: Oxford, 1997.
ANGELOTTI, G. (Org.). Terapia Cognitivo-Comportamental para os Transtornos
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BOCK, Vana. Desafios musicais: caminhos trilhados por violoncelistas profissionais na construção de suas performances. Dissertação apresentada ao Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da USP. 2020.
BRUSER, Madeline. The art of practice: a guide to making music from the heart. New York: Three Rivers Press, 1999.
CONABLE, Barbara. What every musician needs to know about the body: the pactical application of Body Mapping to making music. Andover Press, Portland, 2000.
FELDENKRAIS, Moshe. Consciência pelo movimento: exercícios fáceis de fazer, para melhorar a postura, imaginação e percepção de si mesmo. São Paulo: Summus Editorial, 1977.
MEDICI, Marina et al. A saúde do músico em foco: olhares diversos. Vitória: Faculdade de Música do Espírito Santo, 2015.
MENDONÇA, Maria Emília. Ginástica Holística: história e desenvolvimento de um método de cuidados corporais. São Paulo: Summus Editorial, 2000.
OLSON, Mia. Musician´s Yoga: a guide to practice, performance and inspiration. Berklee Press: Boston, 2009.
PIERCE, Alexandra. Deepening performance through movement: the theory and practice of embodied interpretation. Bloomington: Indiana University Press, 2010.
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SAZER, Victor. New directions in cello playing: how to make cello playing easier and play without pain. Off Note: Los Angeles, 1995.
SUETHOLZ, Robert J. Técnicas de Reeducação Corporal e a Prática do Violoncelo. Curitiba: Ed. Prismas, 2015.
Conexões Culturais e Aspectos Estilísticos do Violão Latino-Americano: Diálogos entre as Tradições Clássica, Popular e Folclórica
Jaime Renato Serrano
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
A presente pesquisa propõe investigar as conexões culturais presentes nos aspectos estilísticos do violão latino-americano, considerando as tradições clássica, popular e folclórica como manifestações complementares de um mesmo patrimônio musical. O violão ocupa uma posição singular na construção das identidades musicais da América Latina, constituindo um espaço de convergência entre influências europeias, indígenas e africanas e entre diferentes processos históricos de intercâmbio cultural (Béhague, 1979; Carpentier, 1946). Nesse contexto, a pesquisa fundamenta-se na trajetória e na experiência do pesquisador como intérprete, docente e coordenador de ações acadêmicas e artísticas voltadas à difusão, à formação e ao intercâmbio da música para violão. Como resultados obtidos em etapas anteriores deste projeto, foram desenvolvidos projetos de extensão na UFSM, a exemplo do “Festival de Violões UFSM” e do “Masterclass e Recital com Violonista Vencedor do Concurso José Tomás – Espanha”, promovendo o contato direto com violonistas de diferentes países, repertórios e tradições estilísticas. Essas realizações prévias possibilitaram o intercâmbio de concepções interpretativas, técnicas instrumentais e processos de transmissão de conhecimentos musicais, constituindo a base empírica para investigar a circulação, a transformação e a hibridização das linguagens violonísticas latino-americanas (Béhague, 2000; Brouwer, 2004; Elías Llanos, 2019; Kiefer, 2019; Serrano, 2019, 2022; Tenzer, 2011). Somam-se a esses resultados alcançados em fases anteriores as encomendas e estreias de obras para violão e orquestra dedicadas ao pesquisador, fruto do diálogo contínuo com compositores vinculados a diferentes contextos estéticos e culturais. Essas produções consolidadas constituem um campo relevante para investigar as relações entre criação, performance, circulação de repertórios e construção de novas linguagens musicais (Cook, 1994). A pesquisa buscará analisar repertórios de diferentes países latino-americanos, considerando aspectos técnicos, rítmicos, melódicos, harmônicos e formais, bem como processos de intercâmbio cultural e construção identitária (Taborda, 2011). A partir da articulação entre pesquisa acadêmica, experiência performática e produção artística, pretende-se compreender o violão como espaço de diálogo entre tradição e contemporaneidade, contribuindo para o reconhecimento da diversidade cultural da música latino-americana (Wade, 2001).
Palavras-chave: Violão latino-americano; Conexões culturais; Aspectos estilísticos; Identidade musical; Etnomusicologia; Performance musical.
Referências:
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ELÍAS LLANOS, Fernando. Félix Casaverde, guitarra negra: identidad y relaciones de poder en la música de la costa del Perú. Lima: Universidad Peruana de Ciencias Aplicadas (UPC), 2019.
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Quintal de Clorofila: O Mistério dos Quintais
Gérson Werlang
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Resumo: Esta comunicação faz parte de um work in progress que se propõe a tentar compreender a história do duo Quintal de Clorofila, em atividade aproximadamente entre os anos 1978-1988. Formado em Santa Maria, no centro geográfico do estado do Rio Grande do Sul pelos irmãos Negendre e Dimitri Arbo, o duo produziu seu trabalho autoral a partir de diversas influências que se fundiram num resultado peculiar. A partir de influências díspares como a música dos vikings, influências celtas, indígenas e ciganas, a música nativista, a MPB e o rock progressivo dos anos setenta, o grupo produziu uma plêiade de composições originais, combinadas a uma poesia que refletia muito de sua sonoridade. Este estudo procura refazer um pouco do percurso histórico do duo, que ainda é repleto de lacunas, e também analisar sua obra a partir de dois prismas amalgamados, o musical e o poético-literário, utilizando materiais inéditos (gravações, textos, entrevistas) coletados ao longo dos anos, num processo lento e muitas vezes casual. Sua produção independente, que gerou a produção de um LP na primeira metade da década de 1980, se alinhava a algo que hoje é bastante estudado, que é a descentralização da produção artística. No entanto, para a época em que o duo esteve ativo, esse tipo de produção não contava com apoios institucionais, atuando de forma quase utópica dentro do espírito da contracultura remanescente das décadas precedentes. As diversas possibilidades de estudo da história e da obra do duo deixam em aberto também a base analítica a ser utilizada, sejam os estudos da contracultura, a partir de Theodore Roszak (1972) e Goffman e Joy (2007), até a sociologia da produção cultural, a partir do conceito de Mundos da Arte, de Howard Becker (1982).
Palavras-Chave: Quintal de Clorofila; Rock Progressivo; Música Popular Brasileira; Contracultura; Mundos da Cultura.
Referências:
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BECKER, Howard. Outsiders: estudos de sociologia do desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
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GOFFMAN, Ken; JOY, Dan. Contracultura através dos tempos. Rio de Janeiro: Ediouro, 2007.
NAHOUM, Leonardo. Enciclopédia do rock progressivo. 2. ed. Rio de Janeiro: Rock Symphony, 2005.
QUINTAL DE CLOROFILA. O mistério dos quintais. Santa Maria: Bobby Som, 1983.
ROSZAK, Theodore. A contracultura. Petrópolis: Vozes, 1972.
SAGGIORATO, Alexandre. Barra rock: os sons da contracultura brasileira das décadas de 1960 e 1970. Passo Fundo: Méritos, 2021.
STUMP, Paul. The music’s all that matters: a history of progressive rock. 2. ed. Chelmsford, Essex: Harbour, 2010.
Análise de Cena Auditiva: Segregação e Integração de Fluxos Sonoros em Albert Bregman
Felipe Medeiros
Nayana Di Giuseppe Germano
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
As representações, a partir de nossos dados sensoriais do cotidiano, passam por uma gama de processos de organização. Tais processos configuram o que o autor Bregman nomeia de análise de cena (Bregman, 1994). Bregman introduz o conceito de segregação de fluxos auditivos como o principal processo da percepção auditiva, no qual informações de fontes distintas se organizam de forma separadas (Bregman, 1994). O som da voz da mãe é percebido pelo bebê de forma simultânea aos ruídos do berço ou da rua, no entanto, separados em fluxos como fontes sonoras distintas. Com base em determinados padrões do processamento cognitivo, a percepção auditiva envolve a segregação de fluxos auditivos e a integração de padrões que mantêm cada fluxo com seu relativo eixo e centralidade. Os principais padrões conceitualmente aplicados derivam da teoria da Gestalt (agrupamento – proximidade e semelhança). Com base em experimentos destinados à percepção visual a partir da Gestalt, Bregman encontrou semelhanças com experimentos aplicados à percepção auditiva, resultando em aproximações e analogias, com destaque à distinções da percepção visual entre figura-fundo; analogia com processos dos fluxos sonoros e processos cognitivos de agrupamento, tendo proximidade e similaridade (altura e tempo) como parâmetros envolvidos nos padrões de processamento (Bregman, 1994). Bregman constatou que, para contextos musicais, o ouvinte experiente também utiliza uma diversidade de esquemas e conhecimentos musicais previamente adquiridos (Bregman, 1994). Há de se destacar estudos que analisaram indivíduos com pouco ou nenhum contato com a música ocidental, evidenciando diferentes contextualizações entre consonância e dissonância (Mcdermott, 2016; Mcpherson, 2020; 2025). Com base nas questões apresentadas, fica evidente o questionamento sobre familiaridade e conhecimento prévio do indivíduo perante respostas perceptivas. Com essa questão em mente, este trabalho tem por objetivo revisar a bibliografia que explora a análise de cena para além da perspectiva ocidental contribuindo, desta forma, com a literatura sobre o tema.
Palavras-chave:
Referências:
BREGMAN, A. S. Auditory Scene Analysis: The Perceptual Organization of Sound. Cambridge: MIT Press, 1994.
McDERMOTT, J. H. et al. Indifference to dissonance in native Amazonians reveals cultural variation in music perception. Nature, v. 535, n. 7613, p. 547-550, 2016.
McPHERSON, M, J. et al. Perceptual fusion of musical notes by native Amazonians suggests universal representations of musical intervals. Nature Communications, v. 11, n. 1, p. 2786, 2020.
McPHERSON, M, J. et al. Preferences for consonance are evident in Indigenous Amazonians with higher, but not lower, levels of global integration. Cognition, v. 267, p. 106333, 2025.
Dois processos de transcriação do Quarteto nº 7 de Dmitri Shostakovich
Lúcius Mota
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
O presente trabalho apresenta os resultados de dois processos de transcriação do Quarteto de Cordas nº 7, op.108, de Dmitri Shostakovich (Shostakovich, 2001), o primeiro para oboé e piano e o segundo, para oboé e trio de cordas, desenvolvido no âmbito do projeto Processos de Transcrição-Transcriação como criação artística. A principal proposta deste projeto é a aproximação da prática da transcrição com o conceito transcriação proposto por Haroldo de Campos (Campos; Paz, 1994; Campos, 2020). Para Haroldo de Campos a tradução não é mera transferência de um idioma para outro, mas envolve necessariamente liberdade e invenção. Foram analisadas diversas obras do compositor antes de se optar pelo Quarteto nº 7. A escolha se deu devido à duração, cerca de 13 minutos, o que é compatível com a duração habitual das obras de câmara para oboé, e à textura, menos densa do que a de outros quartetos do ciclo. Outro fator foi a tessitura do primeiro violino, relativamente próxima à do oboé. Concluída a versão para oboé e piano, foram realizadas leituras da obra, o que levou a ajustes nas partes de ambos os instrumentos. Após a conclusão da versão para oboé e piano, considerou-se a possibilidade de realizar uma segunda versão para oboé e cordas, já finalizada, mas ainda não testada. Durante todo esse trabalho, iniciado em 2022, observei que as decisões tomadas não obedecem a critérios puramente mecânicos, mas permitem um amplo leque de escolhas criativas, razão pela qual outro transcritor provavelmente chegaria a resultados diferentes (Bota, 2008; Monteiro, 2022). Durante a apresentação serão discutidos exemplos das duas transcriações, utilizando-se um aplicativo de notação musical, com projeção por meio de notebook e aparelho de televisão.
Palavras-chave: Shostakovich; transcriação; oboé; quarteto para oboé; oboé e piano.
Referências:
BOTA, João Victor. A transcrição musical como processo criativo. Campinas, SP: [s.n.], 2008.
CAMPOS, Haroldo de; PAZ, Octavio. Transblanco. 2. ed. São Paulo: Siciliano, 1994.
CAMPOS, Haroldo de. Transcriação. TAPIA, Marcelo (org.); NÓBREGA, Thelma Médici (org.). São Paulo: Perspectiva, 2020.
MONTEIRO, Flávio Henrique Monteiro Gomes. Transcriação em música: a transcrição como criação e como crítica. São Paulo, 2022. 98 f.
SHOSTAKOVICH, Dmitri. String Quartet No. 7, Op. 108. 1. ed. DSCH Publishers, 2001. Partitura (63 p.).
Um modelo teórico-metodológico para a autoanálise composicional: características e resultados de aplicação
Darwin Pillar Corrêa
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Este artigo apresenta uma metodologia para a autoanálise composicional. A partir de Donin (2015a, 2015b e 2019), a autoanálise é uma pesquisa em primeira pessoa na qual se investiga um processo criativo com a intenção de comunicar verbalmente suas características, sejam elas referentes à prática ou a sentidos estéticos e ideológicos. Varela & Shear (1999) afirmam que as pesquisas em primeira pessoa requerem dedicação sustentada e enquadramento interativo. Nesse sentido, a Crítica Genética (Chaves, 2022 e 2012; Biasi, 2010; Kinderman, 2009; Grésillon, 2007; Pino & Zular, 2007; Lebrave, 1994) é operacionalizada como ferramenta metodológica. Os documentos de processo são organizados em um hipertexto genético digital para constituir o objeto de pesquisa que contém os traços diretos da composição, aos quais traços indiretos são adicionados pelo compositor no desdobramento das múltiplas campanhas de leitura. Estas são apoiadas em três lentes teóricas distintas, visando à abordagem de diversas características do processo composicional. Grando (2017) desenvolve um modelo para a análise do tempo na atividade de criação literária e aplica seu modelo em uma autoanálise literária com apoio na crítica genética. Zembylas & Niederauer (2018) formalizam o conceito de agência artística – determinado pela situatividade, pela natureza social compartilhada e pelos conhecimentos operacionalizados na prática composicional – a partir de investigações que contaram com a participação de compositores profissionais do contexto da música ocidental contemporânea. Pohjannoro (2016) apresenta uma categorização de ações composicionais fundada no âmbito cognitivo da atividade composicional, incluindo três tipos de ações: intuitivas, reflexivas e metacognitivas. Os resultados de autoanálise aqui apresentados contêm discussões sobre os elementos, os conhecimentos e as ações envolvidas na prática composicional, uma descrição cronológica do processo criativo investigado e reflexões sobre questões estéticas e ideológicas particulares a este compositor, realizadas após 10 anos de dedicação sustentada ao processo de autoanálise composicional.
Palavras-chave: Composição musical; Crítica genética; Autoanálise; Ação composicional.
Referências:
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CHAVES, Celso G. Loureiro. Gêneses Musicais. In: WILLEMART, Philippe (org.). A Escrita Pela Rasura: A Crítica Genética em busca de outros saberes. São Paulo: Perspectiva, 2022, p. 127-134.
CHAVES, Celso G. Loureiro. Processo criativo e composição musical: proposta para uma crítica genética em música. In: Congresso Internacional da Associação de Pesquisadores em Crítica Genética, 10., 2012, Porto Alegre. Anais… Disponível em:
http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/apcg/edicao10/Celso.Chaves.pdf. Acesso em: 22 jul. 2026.
DONIN, Nicolas. Introduction: Auto-analyse et composition musicale: une tradition méconnue, un enjeu actuel. In: DONIN, Nicolas (Ed.). Un siècle d’écrits réflexifs sur la composition musicale: Anthologie d’auto-analyses, de Janácek à nos jours. Genebra: Droz, 2019, p. 13-21.
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DONIN, Nicolas. A autoanálise, uma alternativa à teorização? Trad. Michelle Agnes Magalhães. Opus, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 149-200, 2015b. Edição Especial.
GRANDO, Diego. Spoilers e outras suspeitas sobre tempo e poesia: reflexão e criação. Tese de Doutorado. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2017.
GRÉSILLON, Almuth. Elementos de crítica genética: ler os manuscritos modernos. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2007.
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Genetic criticism and the creative process: essays from music, literature, and theater. Rochester: University of Rochester Press, 2009, p. 1-16.
LEBRAVE, Jean-Louis. Hypertextes – Mémoires – Écriture. Genesis, 5, p. 9-24, 1994.
PINO, Claudia Amigo; ZULAR, Roberto. Escrever sobre Escrever: uma introdução crítica à crítica genética. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007.
POHJANNORO, Ulla. Capitalising on intuition and reflection: Making sense of a composer’s creative process. Musicae Scientiae, v. 20, n. 2, p. 207-234, 2016.
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ZEMBYLAS, Tasos; NIEDERAUER, Martin. Composing processes and artistic agency: tacit knowledge in composing. New York: Routledge, 2018.
Proposta Metodológica de Análise Auditivo-Comparativa: uma Abordagem Experimental para as Escutas Abertas de Lawrence Ferrara
Gustavo Henrique Soares da Silva
Arthur Rinaldi
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
A performance musical é um trabalho artesanal (Cerqueira et al., 2012) onde o intérprete insere significado e expressividade (Reizábal, 2022), buscando sua forma de execução e comunicação musical (Schneider, 2011). A performance demanda diferentes habilidades musicais e interpretativas (Silverman, 2008; Hallam, 1995), sendo a análise musical frequentemente utilizada como meio para embasar as escolhas criativas (Almeida, 2023), assim como a audição de gravações como forma de explorar ou inspirar essas escolhas (Salgado; Póvoas, 2023). Além dos métodos mais estabelecidos discutidos por Cook (1987), há propostas com enfoque na performance, como Rink (2007) e o Método Eclético (ME) de Lawrence Ferrara (1991). O ME visa articular informações sintáticas, sonoras e referenciais dentro da análise musical, permitindo, em escopo, que seja desenvolvida uma conexão plena entre a teoria e a prática musical. Ferrara prevê dois passos denominados ‘Escutas Abertas’ (n. 2 e n. 8) sem especificar uma metodologia precisa. Nosso objetivo concentra-se em apresentar uma proposta metodológica experimental de análise auditivo-comparativa aplicável ao passo n. 2 do ME, a qual permite contrapor diferentes performances de uma mesma obra musical. A metodologia consistiu no mapeamento de parâmetros objetivos da interpretação musical (andamento, agógica, dinâmica e articulação) a partir de: 1) audição do pesquisador; e 2) uso de softwares de análise de áudio musical (Ircam Partiels e Sonic Visualizer). A aplicação desenvolveu-se utilizando cinco diferentes gravações (Williams, 1965; Bream, 1971; Santos, 1971; Ballaré, 2025; Gallén, 2025) do Prelúdio n. 3 para violão de Heitor Villa-Lobos, e seus resultados foram organizados em quadros comparativos, permitindo visualizar as escolhas de cada intérprete. Ao final, observou-se que a proposta apresentada tem como vantagem o direcionamento da escuta musical e a organização e sistematização das informações coletadas, permitindo a realização de comparações mais precisas de diferentes interpretações musicais, podendo, inclusive, ser utilizada de forma isolada do ME.
Palavras-chave: Análise auditiva-comparativa; Método Eclético; Performance Musical; Análise Musical.
Referências:
ALMEIDA, Rebeca Vieira de Queiroz. A Criatividade no Processo de Construção da Performance: Uma Experiência Autoetnográfica. 2023. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Música, UNIRIO, Rio de Janeiro, 2023.
BALLARÉ, Giulia. Heitor Villa-Lobos: Complete Solo Guitar Works. Itália: Da Vinci Classics, 2025. CD/ Digital.
BREAM, Julian. Villa-Lobos: Guitar Concerto W501 & 5 Preludes W419. Inglaterra: Sony Music Entertainment, 1971. CD/Digital.
CERQUEIRA, Daniel Lemos; ZORZAL, Ricieri Carlini; ÁVILA, Guilherme Augusto de. Considerações sobre a aprendizagem da performance musical. Per Musi, n. 26, p. 94–109, dez. 2012.
COOK, Nicholas. A guide to musical analysis. New York: W. W. Norton & Company, 1987.
FERRARA, Lawrence. Philosophy and the Analysis of Music: bridges to musical sound, form, and reference. EUA: Zinn Communications, 1991.
GALLÉN, Ricardo. Preludes and Dances from Brazil. Espanha: Eudora Records, 2025. CD/Digital.
HALLAM, S. Professional Musicians’ Approaches to the Learning and Interpretation of Music. Psychology of Music, v. 23, n. 2, p. 111–128, out. 1995.
REIZÁBAL, Arantza Lorenzo de. A interpretação musical: aproximações da prática especializada. Revista Internacional De Humanidades, [S. l.], v. 6, n. 1, p. 1-15, 2022.
RINK, John. Análise e (ou?) performance. Cognição e Artes Musicais, Curitiba, 2, 1, 25-43, 2007.
SALGADO, Rafael. PÓVOAS, Maria Bernardete Castelan. A preparação para performance musical de quarteto de violões sob o ponto de vista de violonistas profissionais. Per Musi, [S. l.], v. 24, p. 1–19, 2023.
SANTOS, Turíbio. Guitar Concerto, Sexteto Místico & Guitar Preludes. Brasil: Warner Classics, 1971. CD/Digital.
SCHNEIDER, A. F. Atribuições causais em situações de performance musical pública. 2011. 108 p. Dissertação (Mestrado em Música) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Instituto de Artes – Programa de Pós-Graduação em Música, Porto Alegre, 2011.
SILVERMAN, Marissa. Os processos criativos de um intérprete: implicações para o ensino e a aprendizagem da interpretação musical. Music Education Research, [S. l.], v. 10, n. 2, p. 249-269, 2008.
WILLIAMS, John Christopher. Paganini, Scarlatti, Giuliani & Villa-Lobos: Guitar Music. Europa: Sony Classical Records, 1965. CD/Digital.
13 de agosto de 2026 (15h00)
Perspectivas do uso da Psicometria na Avaliação de Testes Auditivos Musicais
Nayana Di Giuseppe Germano
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Historicamente, o Ouvido Absoluto (OA) ganhou grande interesse por ser considerado uma habilidade musical cobiçada. No entanto, o OA pode ser um obstáculo para a percepção musical, pois tira a atenção das relações de alturas musicais, que formam a base da estrutura musical (Platinga; Trainor, 2005). O objetivo deste trabalho foi testar e avaliar, perante a Psicometria, possíveis indicadores que compõem os modelos teóricos das habilidades latentes do OA e do Ouvido Relativo (OR) a partir de testes auditivos musicais. Para isso, foram realizadas cinco baterias de testes auditivos em 783 estudantes de nível Universitário: alturas isoladas, intervalos melódicos, intervalos harmônicos, tríades e tríades em primeira inversão (Plataforma Brasil – CAAE: 60855816.3.0000.5477). Os dados coletados foram estatisticamente analisados nos programas IBM SPSS e Mplus 8.0 (Muthén; Muthén, 2010). Foram Criados Modelos teóricos e constructos das habilidades latentes e avaliados perante a Análise Fatorial Confirmatória, utilizando a Teoria de Resposta ao Item (TRI), a Análise de Classe Latente, a Regressão e a Correlação (Pasquali, 2013; Urbina, 2007). Como resultado, vimos que a proposta de criação de testes para medir habilidades de percepção musical de alturas não observáveis diretamente, de maneira geral, foi bem-sucedida e possui potencial para validação, uma vez que as cargas fatoriais da maioria dos itens advindos dos resultados da TRI, juntamente com a adequação do model fit information, demonstram boa covariância. Assim como esperado, e de acordo com a bibliografia, os resultados indicam uma melhor solução dimensional para o OR, cuja maior e menor habilidade se apresentam sem uma divisão clara de portadores e não portadores. Para o OA, a solução dimensional também se apresentou como melhor, indo contra a bibliografia que prega a solução categórica (ter ou não ter a habilidade) como a mais adequada.
Palavras-chave: Psicometria; Cognição Musical; Testes Auditivos; Percepção Musical.
Referências:
MUTHÉN, L. K. e MUTHÉN, B. O. MPlus User’s Guide. Chapter 4: Exploratory Factor Analysis, 2010.
PASQUALI, L. Psicometria: Teoria dos testes na Psicologia e na Educação (5a ed.). Petrópolis: Editora Vozes, 2013.
PLANTINGA, J. e TRAINOR, L.J. Memory for melody: Infants use a relative pitch code. Cognition, v. 98(1), 2005, p. 1-11.
URBINA, S. Fundamentos da Testagem Psicológica. Porto Alegre: Editora Artmed, 2007.
Processos Criativos Colaborativos no Rock Instrumental: Narrativa e Análise Musical de 3 Composições do Álbum Paisagens e Delírios do Trio Quarto Ácido
Pedro Paulo Rodrigues
Gérson Luís Werlang
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Este trabalho investiga os processos criativos colaborativos do trio de rock instrumental Quarto Ácido, tomando como objeto de estudo três composições do álbum Paisagens e Delírios (2017): “Manhã Sépia”, “Delírio” e “Serena Inquietude”. O objetivo é compreender como as dinâmicas de criação coletiva, articuladas à trajetória histórica da banda e às práticas de produção musical, contribuíram para a construção de sua identidade estética e sonora. O estudo fundamenta-se nos conceitos de criatividade colaborativa (Bishop, 2018), modo rock de composição (Finnegan, 1989; Cook, 2018), memória (Candau, 2011) e produção musical como processo emergente (Rosa; Manzolli, 2019), articulados ao Método Eclético de Ferrara (Ferrara, 1991) para a análise musical. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, integrando narrativa histórica com viés autoetnográfico (Santos, 2017) e análise musical, tendo como corpus gravações fonográficas, registros audiovisuais, documentos e memórias do pesquisador. Os resultados evidenciam que a criação das obras decorre de processos de negociação coletiva, experimentação sonora e interação contínua entre os integrantes, nos quais elementos inicialmente intuitivos revelam organização estrutural quando submetidos à análise musical. Observa-se, ainda, que as etapas de pré-produção, gravação e pós-produção constituem extensões do processo criativo e que o aparato tecnológico, especialmente os pedais de efeito utilizados na guitarra, participa ativamente da construção da identidade sonora do grupo. Conclui-se que a criatividade musical, nesse contexto, configura-se como um fenômeno situado, colaborativo e emergente, contribuindo para a compreensão dos processos criativos em bandas de rock instrumental e ampliando as discussões sobre criação musical na pesquisa em música.
Palavras-chave: criatividade colaborativa; rock instrumental; autoetnografia; produção musical; análise musical.
Referências:
BISHOP, Laura. Collaborative musical creativity: How ensembles coordinate spontaneity. Frontiers in Psychology, Lausanne, v. 9, art. 1285, 2018.
CANDAU, Joël. Memória e identidade. São Paulo: Contexto, 2011.
COOK, Nicholas. Music as Creative Practice. New York: Oxford University Press, 2018.
FERRARA, Lawrence. Philosophy and the Analysis of Music. New York: Greenwood Press, 1991.
FINNEGAN, Ruth. The Hidden Musicians: Music-Making in an English Town.
Cambridge: Cambridge University Press, 1989.
ROSA, Guilherme Amaral; MANZOLLI, Jônatas. A produção musical como sistema complexo: uma abordagem sobre processos criativos em estúdio. Per Musi, Belo Horizonte, n. 39, 2019.
Banda Sinfônica e Seus Instrumentos: Aspectos da Performance e Repertório
Diego Ramires da Silva Leite
Wilson Mauro Rodrigues Millani
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
As bandas sinfônicas são grupos instrumentais formados por instrumentos de sopro e percussão, que desempenham papel histórico e cultural basilar na formação musical brasileira. O presente trabalho apresenta pesquisa em andamento que investiga o repertório brasileiro original para essas formações, objetivando quantificar e classificar essa produção. A pesquisa, de caráter exploratório e descritivo, utiliza abordagem mista documental e bibliográfica, focando nos séculos XX e XXI. Trabalha-se exclusivamente com peças escritas originalmente para banda sinfônica, excluindo arranjos, transcrições e adaptações, sendo que gêneros como dobrado, marcha e hino foram suprimidos por possuírem vasta literatura e instrumentação muitas vezes distinta da padronizada, demandando pesquisa própria. A metodologia inicia-se com mapeamento em acervos digitais, repositórios universitários, contato com compositores e plataformas como o portal de partituras da FUNARTE e IMSLP. Dados preliminares indicam cerca de 80 peças originais, com potencial para ultrapassar 250 obras. Procederemos à quantificação via análise estatística descritiva, visualizando a produção por décadas. Compreender essa distribuição temporal fundamenta a etapa seguinte: classificação sistemática das obras originais, buscando esclarecer a identidade estética da música para sopros no Brasil, conforme Giardini (2018) e Sotelo (2020). As obras serão categorizadas por dificuldade técnica, considerando complexidade rítmica, tessitura, tonalidades e densidade orquestral, segundo aspectos abordados por Jardim (2019). Por fim, avaliaremos a acessibilidade digital, verificando a presença de grades e partes completas nas plataformas e junto aos compositores. Como resultados, disponibilizaremos um catálogo bibliográfico inédito em plataforma digital, de acordo com Castagna (2023), e um guia de referência ordenado por dificuldade, fundamentado em Barbosa (2015). Conjuntamente, esses resultados fortalecerão a identidade da banda sinfônica brasileira, ampliando a visibilidade de compositores nacionais e estimulando a modernização de acervos.
Palavras-chave: Banda Sinfônica; Música Brasileira; Repertório Original; Catalogação; Performance.
Referências:
BARBOSA, Joel. Educação Musical e Tecnologia: Uma Perspectiva Histórica e Contemporânea. Brasília: FUNARTE, 2015.
CASTAGNA, Paulo. Acervos Musicais: Catalogação e Preservação de Fontes Históricas. São Paulo: Instituto de Artes da Unesp, 2023.
GIARDINI, Monica. Banda Sinfônica Brasileira: História e Perspectivas. São Paulo: Editora da USP, 2018.
JARDIM, Marcelo. Arranjo e Composição para Banda Sinfônica. Rio de Janeiro: Editora Musical Brasileira, 2019.
SOTELO, Dario. Repertório Brasileiro para Sopros: Análise e Perspectivas. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2020.
Cadê o touro preto? Relato de um processo composicional a n-1
Paulo Rios Filho
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
O presente trabalho apresenta a análise composicional da obra de minha autoria Cadê o touro preto que eu derrubei ao chão? (2026), discutindo os achados analíticos na direção de pensar a tensão criativa entre a subtração de um mesmo material de referência e a proliferação de forças sonoras e de outras paisagens melódicas. Inspirada na canção Cadê o touro preto?, criada pelo Sr. Geraldo Mercês, líder do grupo cultural Reisado de Cabaceiras, grupo com quase cem anos de história, do município de Conceição Coité, região semiárida da Bahia, a composição analisada tem um processo criativo baseado em uma série de procedimentos de subtração a partir de um excerto com 15 segundos de duração da gravação da canção de referência. Tais procedimentos podem ser listados como: 1) análise de parciais do espectro sonoro da gravação; 2) filtragem e interpretação simbólica dessa análise; 3) proliferação de materiais a partir da filtragem, em paralelo à 4) peneira criativa da interpretação gerada, além de 5) citação direta e paráfrase da transcrição da melodia da canção original. Esse processo criativo é então ligado de forma especulativa à filosofia de Gilles Deleuze e Félix Guattari (1997, pp. 17-49), quando ao descrever o conceito de rizoma eles nos falam da escrita a n-1 como técnica de articulação entre o uno e o múltiplo, e à ideia deleuziana de subtração e amputação na criação artística (Deleuze, 2010; 2005, p. 61). Com isso, pretendo construir uma compreensão analítica da música e de seu processo criativo que, expandindo o horizonte de conhecimento acerca de sua produção, possa contribuir para a configuração da pesquisa em composição musical baseada na autoanálise composicional (Donin, 2015; 2019).
Palavras-chave: composição musical; pesquisa artística; autoanálise; subtração.
Referências:
CADÊ O TOURO PRETO?. Intérprete: Reisado de Cabaceiras. In: NOITE DE ABERTURA – Reisado de Cabaceiras e Mayu – FEMUSISAL 2026. YouTube, 02/02/2026. 3m16seg. Disponível em: https://www.youtube.com/live/pWWrKBnH4HI?si=LJHAAYybsbDakM2w&t=196 DELEUZE, Gilles. Francis Bacon: logic of sensation. Continuum, 2005.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 1, São Paulo, Editora 34, 1997.
DELEUZE, Gilles. Sobre o teatro. Rio de Janeiro, Zahar, 2010.
DONIN, Nicolas. A autoanálise, uma alternativa à teorização? Tradução de Michelle Agnes Magalhães. OPUS, [s. l.], v. 21, n. 2, p. 149-200, set. 2015.
DONIN, Nicolas (ed.). Un siècle d’écrits réflexifs sur la composition musicale: anthologie d’auto-analyses, de Janáček à nos jours. Genève: Droz; Haute école de musique de Genève, 2019.
A Abordagem Técnico-Interpretativa do Concertino para Viola e Piano de Perez Dworecki: Estratégias para o Ensino e a Performance
Fábio Saggin
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
O Concertino de Perez Dworecki (1980) ocupa um espaço consolidado no repertório violístico brasileiro, sendo apresentado em recitais, festivais e universidades, além de figurar como peça de concurso nacional. Originalmente composto para violino — única obra do compositor —, foi adaptado para viola pelo autor deste trabalho por meio da transposição integral de uma quinta abaixo, preservando a escrita musical e o nível de exigência técnica originais. Dworecki realizou diversas adaptações ao longo de sua trajetória, contexto que reforça a pertinência desta versão. Apesar de sua ampla circulação, ainda faltam estudos que sistematizem sua abordagem técnico-interpretativa fundamentada na literatura especializada. Este trabalho constitui um desdobramento de pesquisa de doutorado dedicada ao desenvolvimento da viola no Brasil a partir da influência de Perez Dworecki, ampliando a investigação por meio da análise técnico-interpretativa do Concertino. O objetivo é sistematizar princípios técnico-interpretativos que subsidiem a preparação, a performance e o ensino da obra. Como pressupostos teóricos, adotam-se os princípios técnico-pedagógicos de Carl Flesch (2000), Ivan Galamian (1999), Simon Fischer (1997, 2004, 2013), Karen Tuttle (Teploff, 2020), Mariana Salles (2017) e Molly Gebrian (2024), articulando a tradição pedagógica dos instrumentos de arco com estudos sobre aprendizagem e prática instrumental. A metodologia consiste na análise da partitura, relacionando aspectos técnicos e musicais aos referenciais adotados para a proposição de estratégias de estudo. Os resultados parciais demonstram que a identificação dos desafios técnico-interpretativos e a sistematização de resoluções fundamentadas favorecem uma preparação mais eficiente e decisões interpretativas mais conscientes. Além de subsidiar a performance, essas estratégias vêm sendo empregadas na prática docente do autor, evidenciando o potencial da obra como ferramenta pedagógica. A assimilação desses princípios permite que as competências desenvolvidas sejam transferidas para a interpretação de outras obras do repertório violístico.
Palavras-chave: Perez Dworecki; viola; performance musical; pedagogia da viola; análise técnico-interpretativa.
Referências:
DWORECKI, P. Concertino. Violino e piano. São Paulo: Ricordi, 1980. 1 partitura.
DWORECKI, P. Concertino. Viola e piano. Transcrição e edição de Fábio Saggin. [S. l.]: Publicações ABRAV, 2021. 1 partitura.
FISCHER, Simon. Basics. London: Peters Edition, 1997.
FISCHER, Simon. Practice: 250 Step-by-Step Practice Methods for the Violin. London: Edition Peters, 2004.
FISCHER, Simon. Violin Lessons: A Manual for Teaching and Self-Teaching the Violin. London: Edition Peters, 2013.
FLESCH, Carl. The art of violin playing. Tradução de Eric Rosenblith. New York: Carl Fischer, 2000.
GALAMIAN, Ivan. Principles of Violin Playing and Teaching. 2nd ed. Ann Arbor: Shar Products Company, 1999.
GEBRIAN, Molly. Learn Faster, Perform Better: a musician’s guide to the neuroscience of practicing. Oxford University Press, 2024.
MIZAEL, Hellen Dias. A Influência Do Violista Perez Dworecki Na Formação Do Repertório Nacional de Viola. 2009. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Música) – Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2009.
SAGGIN, Fábio. The Influence of Perez Dworecki on the Development of the Brazilian Viola Repertoire: a recording project. 2021. Tese (Doutorado em Artes) – School of Music, University of Wisconsin-Madison, Madison.
SALLES, Mariana I. Arcadas e Golpes de Arco. 3a. Edição – Brasília: Thesaurus, 2017.
TEPLOFF, Alex (org.). The Karen Tuttle Legacy: A Resource and Guide for Viola Students, Teachers, and Performers. New York: Carl Fischer, 2020.
Sinestesia Cor-Som: Definição e Testes Avaliativos
Aline Barboza Machado
Nayana Di Giuseppe Germano
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
A sinestesia é uma condição neurológica caracterizada pela mistura entre dois ou mais aspectos sensoriais sem relação entre si. Esta condição afeta em média 0,05% a 1% da população (Asher et al., 2009, p. 279). O amplo termo genérico nomeado sinestesia pode envolver diferentes subgrupos da habilidade (Meier, 2022, p. 1), cada um com seus sintomas únicos. As possíveis causas da existência da sinestesia vêm sendo estudadas há décadas. Day (2025, p. 8), afirma que existem aproximadamente 75 modalidades de sinestesia e Grossenbacher e Lovelace (2001, p. 37), dividem a manifestação da sinestesia em três tipos: desenvolvida, adquirida ou induzida. Apesar do complexo espectro da sinestesia, algumas características são intrínsecas em todas as formas de manifestação, como a consistência de resposta, que é considerada a característica de maior relevância na literatura e na elaboração de diagnósticos (Bragança et al., 2015, p. 17; Asher et al., 2006, p. 137). A sinestesia cor-som, foco deste estudo, é considerada o subgrupo de maior prevalência entre os sinestetas e pode ser brevemente definida pela associação involuntária entre o som e cores, grafemas entre outras possibilidades (Simner 2007). Devido à diversidade de características, avaliar a sinestesia por meio de testes tem sido uma tarefa bastante desafiadora. Deste modo, após uma ampla revisão bibliográfica sobre tipos de sinestesia (Machado; Germano, 2026), o objetivo deste trabalho foi estudar quatro importantes testes da literatura, com ênfase na sinestesia cor-som. Os experimentos foram comparados quanto às metodologias, semelhanças, diferenças e possíveis limitações. Como resultado, observou-se uma sistematização na elaboração de estímulos baseada na consistência de resposta. No entanto, a maioria dos testes ainda carece de validação e não abrange adequadamente a pluralidade de experiências sinestésicas. Os resultados poderão ser utilizados em trabalhos futuros e contribuir para o desenvolvimento de testes ajustados e passíveis de validação.
Palavras-chave: sinestesia; sinestesia cor-som; testes de sinestesia; sinestesia cor-grafema; validação de teste.
Referências:
ASHER, Julian E.; AITKEN, Michael R. F.; FAROOQI, Nasr; KURMANI, Sameer; BARON-COHEN, Simon. Diagnosing and phenotyping visual synaesthesia: a preliminary evaluation of the revised Test of Genuineness (TOG-R). Cortex, v. 42, n. 2, p. 137–146, 2006. 10.1016/s0010-9452(08)70337-x
ASHER, Julian E.; LAMB, Janine A.; BROCKLEBANK, Denise; CAZIER, Jean-Baptiste; MAESTRINI, Elena; ADDIS, Laura; SEN, Mallika; BARON-COHEN, Simon; MONACO, Anthony P. A whole-genome scan and fine-mapping linkage study of auditory-visual synesthesia reveals evidence of linkage to chromosomes 2q24, 5q33, 6p12, and 12p12. American Journal of Human Genetics, v. 84, n. 2, p. 279–285, 2009. https://doi.org/10.1016/j.ajhg.2009.01.012
BRAGANÇA, G. F. F.; FONSECA, J. G. M.; CARAMELLI, P. Synesthesia and music perception. Dementia & Neuropsychologia, v. 9, n. 1, p. 16–23, 2015. DOI: https://doi.org/10.1590/S1980-57642015DN91000004
DAY, S. A. Synesthesia and synesthetes. 2. ed. [S.l.]: Independently published, 2025.
GROSSENBACHER, P. G.; LOVELACE, C. T. Mechanisms of synesthesia: Cognitive and physiological constraints. Trends in Cognitive Sciences, v. 5, n. 1, p. 36–41, 2001. DOI: https://doi.org/10.1016/S1364-6613(00)01571-0
MACHADO, A.; GERMANO, N. Sinestesia para Cores: uma janela para o Diálogo Sensorial. Percepta – Revista De Cognição Musical, v. 13, 2026. https://doi.org/10.34018/2318-891X.e025002
MEIER, Beat. Synesthesia. In: Oxford Research Encyclopedia of Psychology. Oxford: Oxford University Press, 2022. DOI: https://doi.org/10.1016/B978-0-12-819641-0.00134-1
SIMNER, J. Beyond perception: Synaesthesia as a psycholinguistic phenomenon. Trends in Cognitive Sciences, v. 11, n. 1, p. 23–29, 2007. DOI: https://doi.org/10.1016/j.tics.2006.10.010
14 de agosto de 2026 (10 h00)
Banda Sinfônica da UFSM: fomentando espaços na formação acadêmica
Clayton Miranda
Guilherme Garbosa
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
As bandas de música são um celeiro na formação de instrumentistas de sopro e percussão e desempenham um papel importante no processo de ensino e aprendizagem de seus instrumentistas, Garbosa (2019). Neste sentido, este trabalho objetivou conhecer algumas das ações que a Banda Sinfônica da UFSM vem desenvolvendo no âmbito da universidade, em especial a realização do I Simpósio de Banda de Música da UFSM. O Simpósio teve palestras, oficina de regência, mesa redonda, master classes de instrumentos e concertos, abarcando um grande número de participantes de diversas bandas do estado do Rio Grande do Sul, entre elas bandas militares, bandas civis e bandas escolares. Os concertos envolveram um grande público e apresentaram um repertório diversificado de estilos e compositores, mostrando o potencial e a pluralidade das obras para Banda Sinfônica. Como resultado podemos destacar: o envolvimento dos participantes; o crescimento técnico e musical dos alunos; referências internacionais de programas de bandas de música no cenário universitário; a parceria com a Brigham Young University (EUA); apreciação e execução de um novo repertório; conhecimento de novas metodologias de ensaio da Banda; gravação dos concertos; abordagem técnica e musical na regência para trabalhar com Bandas de Música; apreciação do repertório para banda e seus nivelamentos; a partir da mesa redonda elaboração de estratégias para futura implementação de programa de Banda na universidade.
Palavras-chave. Banda de música; Educação musical; formação acadêmica.
Referências:
AMORIM, Herson. Bandas de Música: espaços de formação profissional. São Paulo: Editora Scortecci, 2014.
GARBOSA, Guilherme Sampaio. Abordagens Pedagógicas de Warm up para Clarineta: análise de materiais didáticos. Tese para Professor Titular. Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2019. Disponível em Manancial Repositório Digital da UFSM.
LIMA, Marcos Aurélio de. A Banda de Estudantil em um Toque além da Música. Tese de
Doutorado. UNICAMP, Campinas, 2005. Disponível em Manancial Repositório Digital da UNICAMP.
SILVA, Lélio Eduardo Alves da. A Banda de Música Escolar como Instrumento de Educação Musical: discutindo questões pedagógicas” In: SILVA, Lélio Eduardo Alves da (Org.). Manual do Mestre de Banda de Música. Rio de Janeiro: Faperj, 2018.
Um Estudo sobre a produção discográfica de professores do Departamento de Música da UFSM
Marcos Kröning Corrêa
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Este trabalho investiga a produção discográfica de professores do Departamento de Música da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), através dos discos gravados e lançados no formato vinil (LP ou compacto|) e CD, enquanto atuantes na UFSM. Discos anteriores ao ingresso na UFSM e lançados após a saída de professores não são contabilizados nesta pesquisa, bem como por alunos e/ou egressos. Enfatiza-se nesta investigação o resgate e caracterização do fazer musical de professores do curso de música em diferentes períodos da história da UFSM, através dos discos gravados, onde investigamos, inicialmente, quais os professores e grupos musicais gravaram discos, quais as formações instrumentais e ou vocais, quando e onde foram gravados, seus produtores, intérpretes e compositores e ano de lançamento. Este estudo discográfico dialoga com Cook (2009), Philip (2004), Ray (2005) e Rink (2002) como referenciais teóricos. Nas etapas metodológicas, buscamos os discos através de bibliotecas, lojas e através de contatos por e-mail e whatsapp com professores, produtores e demais envolvidos, acessando assim todos os discos originais, textos e fichas técnicas dos encartes. Na investigação realizada, ao longo de diferentes etapas, foram encontrados 22 discos gravados e lançados por professores, compreendendo o período de 1973 a 2025, com a subsequente catalogação das fichas técnicas de gravação e produção, onde foi possível estabelecer diferentes categorias do que foi encontrado: Música Coral (1), Orquestra (1), Grupos de Câmara (2), Obras de Frederico Richter (1), Rock e Regional (3), Intérpretes solistas (6) e performers compositores (8). Nos resultados preliminares, a diversidade de performes, instrumentos, estilos e formações são avaliados. Em etapas posteriores, serão verificadas quais obras foram gravadas e quais foram gravadas pela primeira vez (estreias). A incidência de obras brasileiras, especialmente do RS também será verificada. E, por fim, quais destes discos ainda estão disponíveis para fins de distribuição e comercialização.
Palavras-chave: estudo discográfico; professores do curso de música/UFSM; performance.
Referências:
COOK, N, Clarke, E., Leech-Wilkinson, D., & Rink, J. The Cambridge to Recorded Music. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.
FREITAS, L; CORRÊA, M. K. O Fazer Musical de professores do Curso de Música da UFSM – um Estudo Discográfico. 32ª Jornada Acadêmica Integrada – JAI/UFSM, 2018.
PHILIP, R. Performing Music in the Age of Recording. New Haven: Yale University Press, 2004.
RAY, Sonia (Org.). Performance Musical e suas Interfaces. Goiânia: Editora Vieira, 2005.
RINK, J. Musical Performance: A guide to understanding. Cambridge: Cambridge |University Press, 2002.
Pensieroso para fagote solo: processo composicional e interpretativo
Glaubert G. F. Nüske
Arthur Rinaldi
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Este estudo apresenta o duplo processo de composição e de construção da performance de Pensieroso, descrevendo o percurso metodológico do compositor e do intérprete do recebimento da encomenda até o registro fonográfico final. Partindo de uma perspectiva estabelecida pelo campo da Pesquisa Artística (PA), a investigação fundamenta-se na tentativa de teorizar a prática no interior dela mesma, de modo a materializar o saber imbricado no fazer artístico (Fortin; Gosselin, 2014). Na PA, o artista se posiciona de maneira crítica e reflexiva (Coessens, 2014; Bragagnolo; Sanchez, 2022), buscando compreender o processo complexo de ações e reflexões sobre essas ações que dão forma ao processo criativo, seja do compositor ou do performer. Pensieroso é uma obra para fagote solo composta por Arthur Rinaldi (1980) em 2019, sob encomenda para gravação de álbum homônimo (Nüske, 2023), e teve sua estreia em setembro de 2020, no recital de encerramento do 35º FIIUFSM[1]. O processo composicional teve como suporte a ideia de reescritura (Berio, 2006; Ferraz, 2008), envolvendo o uso de materiais derivados de uma obra musical preexistente e a articulação de diferentes níveis de representação dessa obra (Heile, 2001). Já o processo interpretativo combinou mapeamento sistemático dos elementos musicais à prática de gravação reflexiva baseada em registros de campo (Lopez-Cano; San-Cristóbal, 2014), buscando identificar elementos estruturais. Como resultado, a estreia da obra e a subsequente gravação em estúdio – realizada em colaboração direta com o compositor e disponível nas plataformas de streaming – consolidaram as escolhas técnico-interpretativas e expressivas da peça, evidenciando a performance como um ato crítico e experimental (Assis, 2018). Adicionalmente, o mapeamento do processo criativo conjunto nos permitiu identificar que composição e performance fazem parte do mesmo lugar de criação (Rios Filho, 2015), local onde diferentes trajetórias se entrecruzam, produzindo registros materiais distintos – mas interconectados – do processo criativo, como rascunhos, partitura editorada, gravações reflexivas, performances ao vivo e registro fonográfico.
Palavras-chave: Fagote solo; Pesquisa Artística; Performance Musical.
Referências:
ASSIS, Paulo de. Logic of Experimentation: Rethinking Music Performance in and through Artistic Research. Orpheus Institute Series. 260p. 2018.
BRAGAGNOLO, Bibiana; SANCHEZ, Leonardo Pellegrim. Pesquisa artística no Brasil: mapas, caminhos e trajetos. Orfeu, v. 7, n. 2, p. e0102–e0102, 14 dez. 2022. https://doi.org/10.5965/2525530407022022e0102.
COESSENS, Kathleen. A arte da pesquisa em artes – traçando práxis e reflexão. ARJ – Art Research Journal: Revista de Pesquisa em Artes, v. 1, n. 2, p. 1–20, 2014. https://doi.org/10.36025/arj.v1i2.5423.
FERRAZ, Silvio. A fórmula da reescritura. Seminário Música Ciência Tecnologia, v. 1, n. 3, p. 47–58, 2008.
FORTIN, Sylvie; GOSSELIN, Pierre. Considerações metodológicas para a pesquisa em arte no meio acadêmico. ARJ – Art Research Journal: Revista de Pesquisa em Artes, v. 1, n. 1, p. 1–17, 4 maio 2014. https://doi.org/10.36025/arj.v1i1.5256.
HEILE, Björn. “Transcending Quotation”: Cross-Cultural Musical Representation in Mauricio Kagel’s “Die Stücke der Windrose für Salonorchester”. Music Analysis, v. 23, n. 1, p. 57–85, 2004.
LÓPEZ-CANO, Rubén; SAN-CRISTÓBAL, Úrsula. Investigación artística en música: Problemas, métodos, experiencias y modelos. Barcelona: ESMUC, 2014.
NÜSKE, Glaubert. Pensieroso. Registro fonográfico. CD. Tratore. 2023.
RIOS FILHO, Paulo. Um compor-emaranhado: composição, teoria e análise ao longo de linhas. 2015. 302 f. Tese (Doutorado em Música) – Escola de Música, Universidade Federal da Bahia (UFBA), Salvador, 2015. Disponível em: https://repositorio.ufba.br/handle/ri/26344. Acesso em: 3 jan. 2023.
[1] Festival Internacional de Inverno da UFSM.
Processos identitários resilientes: desdobrando a construção de uma segurança performática a partir da escrita de diários
Ana Lúcia Louro
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Considerando a continuidade de linha de pesquisa desenvolvido ao longo da carreira acadêmica, inaugurada na tese de doutorado (Louro, 2004) e centrada no conceito “identidades profissionais” plasmado por Dubar (2009), é desenvolvida uma nova análise do estudo de pós-doutorado (Louro, 2025). O objetivo geral daquela pesquisa foi “investigar a pertinência dos diários estético-musicais como componentes do processo formativo para a pesquisa (auto)biográfica em Música.” e um dos objetivos específicos: “Desvelar as possibilidades que a experiência formativa EcoEstética pode trazer para a escrita dos diários”. Tomando o objetivo específico na análise compreensiva-interpretativa (Souza, 2014) ficam destacadas as unidades de análise temática. Considerando a unidade de análise temática “narrativa de processos identitários associados a performance” nos dados de Hortência, uma das alunas de pós-graduação da disciplina. Tal disciplina intitulada “Perspectivas (auto)biográficas nos estudos da formação docente em Música” foi ministrada em conjunto com a supervisora de doutorado Teresa Mateiro, tendo 5 alunos. A partir do relato oral feito pela aluna quando da apresentação de música significativa para a sua vida, no qual destaca a seu desconforto na infância em cantar o hino não oficial da cidade de Camboriú, composto por seu pai, relatado nos diários da pesquisadora como parte da mediação biográfica (Passeggi, 2023), são analisados os 10 diários escritos por ela na disciplina. Na análise dos diários aparece um desdobramento da timidez na infância para a plena segurança como cantora e regente coral no momento relatado nos diários, 2025. Na análise de dados é destacado um processo identitário resiliente, no que se refere a condução de apresentações musicais como regente coral, partindo do relato de inseguranças na infância para a atual performance junto a diversos grupos corais. Os dados analisados de Hortência se configuram como exemplo da análise mais ampla, dos processos identitários resilientes, feita na pesquisa.
Palavras-chave: Música; (auto)biografia; diários; processos identitários; regência coral.
Referências:
DUBAR, C. A crise das identidades a interpretação de uma mutação. São Paulo: Edusp, 2009.
LOURO, Ana Lúcia de Marques e. Ser docente universitário-professor de música: dialogando sobre identidades profissionais com os professores de instrumento. 2004. Tese (Doutorado em Música) – Programa de Pós-Graduação em Música, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004.
LOURO, Ana Lucia. Processo identitário resiliente: Pesquisa Formação com professores de Música como uma árvore frondosa. Relatório de pós-doutorado – Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC), Florianópolis, 2025.
PASSEGGI, Maria da Conceição. Transformations of figures of the self and the other in biographical mediation. Linhas Críticas, [S. l.], v. 29, p. 1-15, 2023. Disponível em: https://periodicos.unb.br/index.php/linhascriticas/article/view/48135. Acesso em: 8 jan. 2025.
SOUZA, Elizeu Clementino de. Diálogos cruzados sobre pesquisa (auto)biográfica: análise compreensiva-interpretativa e política de sentido. Educação, Santa Maria, v. 39, n. 1, p. 39-50, jan./abr., 2014.
Projetos Sonoros para Ambientes Interativos: Fundamentos Conceituais e Tecnológicos
Guilherme Almeida de Barros
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Contrastando com a música concebida para uma escuta linear e temporalmente delimitada, instalações sonoras e ambientes interativos demandam projetos nos quais o comportamento do som responda continuamente às ações dos interatores, às características do espaço e às relações estabelecidas com outros sistemas audiovisuais. Nesse contexto, o som deixa de constituir apenas uma sequência previamente organizada de eventos para assumir um comportamento dinâmico, responsivo e, frequentemente, generativo. O objetivo desta apresentação é discutir fundamentos conceituais e tecnológicos envolvidos na concepção de ambientes sonoros interativos, abordando aspectos relacionados à arte sonora, às instalações sonoras e ao projeto sonoro para sistemas responsivos. Como pressupostos teóricos, parte-se das contribuições de Brandon LaBelle (2006) sobre espacialidade e da instalação sonora, de Alan Licht (2009) sobre as definições e limites da arte sonora, e de Nick Collins et al. (2013) no que se refere às relações entre música eletrônica, arte sonora e tecnologias interativas. A comunicação pretende adotar abordagem informativa e demonstrativa, articulando uma breve apresentação de conceitos e estratégias empregadas na concepção de sistemas sonoros interativos. Serão discutidos critérios para a escolha de ferramentas, materiais sonoros e soluções de interação, incluindo a integração entre software e hardware, protocolos de comunicação entre sistemas sonoros e visuais, seleção de sensores, estratégias de mapeamento entre dados captados e parâmetros musicais e técnicas para geração sonora em tempo real. Como parte da discussão, serão apresentados exemplos sonoros e alguns protótipos desenvolvidos na obra audiovisual interativa Corpus d’Água, em desenvolvimento pelo autor no grupo de pesquisa LabInter, buscando evidenciar como diferentes estratégias de interação influenciam a experiência estética e sonora do público. Pretende-se discutir critérios para o desenvolvimento de ambientes sonoros interativos, enfatizando a integração entre decisões artísticas e técnicas e privilegiando o uso de ferramentas gratuitas, abertas e de baixo custo, ampliando as possibilidades de pesquisa, experimentação e criação em música, arte e tecnologia.
Palavras-chave: arte sonora; instalações sonoras; música interativa; projeto sonoro; computação física.
Referências:
COLLINS, Nick; SCHEDEL, Margaret; WILSON, Scott. Electronic Music. Cambridge: Cambridge University Press, 2013.
LABELLE, Brandon. Background Noise: Perspectives on Sound Art. New York: Continuum, 2006.
LICHT, Alan. Sound Art: Origins, Development and Ambiguities. Organised Sound, v. 14, n. 1, p. 3–10, 2009.
O híbrido compositor-pesquisador e o problema da autoanálise na pesquisa artística em composição musical
Paulo Rios Filho
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
Este trabalho discute o ofício do compositor-pesquisador enquanto agente híbrido, tornando essa dupla caracterização como central para a conformação da composição musical enquanto área de pesquisa. Nesse contexto, a análise aparece como mediadora da paisagem da pesquisa composicional, de modo que o ofício desse híbrido passa pelo entrecruzamento de um fazer-composicional e um fazer-analítico. Ao se ver diante da necessidade de formalização textual desse fazer-analítico, o compositor-pesquisador pode assumir diferentes atitudes: projetar-se composicionalmente sobre a música de terceiros; analisar a própria música como se fosse de um terceiro; descrever, com sinceridade por vezes redundante, os passos da própria criação; ou combinar essas atitudes em movimentos de transferência entre análise e composição. O problema que se coloca é imaginar uma atitude capaz de envolver compor e analisar como atributos fundamentais de uma mesma prática de pesquisa. A partir das discussões sobre autoantropologia e escrita etnográfica (Strathern, 2014; Clifford; Marcus, 2016), propõe-se que o problema da autoanálise musical não resida no mero fato de o compositor analisar a própria obra, mas no modo como coloca em relação formas heterogêneas de conhecimento, estando seu valor acadêmico, portanto, não na representação transparente do processo criativo, mas na fricção, no embate e no diálogo entre as formas de mobilização de um conhecimento analítico e as formas como a música mobiliza outros conhecimentos nela mesma e ao longo de seu processo. O acompanhamento minucioso do processo, de seus documentos e anotações, torna-se, assim, decisivo, mas insuficiente. É preciso encarar aquilo que Chaves chama de “vácuos na racionalização composicional”: regiões do processo que permanecem inescrutáveis até para o próprio compositor (Chaves, 2021, pp. 132-133). Essa quinta atitude consistiria, assim, em tentar construir, no texto, uma outridade constitutiva do compositor-pesquisador, fazendo do entrecruzamento entre análise, composição e processo o próprio objeto da pesquisa em composição.
Palavras-chave: composição, autoanálise, autoantropologia, pesquisa artística
Referências:
CHAVES, Celso Giannetti Loureiro. Museu das coisas inúteis – percurso de um percurso composicional. In: RAJOBAC, Raimundo; BOMBASSARO, Luiz Carlos (org.). Música, linguagens e sensibilidades: ensaios. Porto Alegre: Editora Fundação Fênix, 2021. p. 129-143. DOI: 10.36592/9786587424996-08.
CHAVES, Celso Giannetti Loureiro. Processo criativo e composição musical: proposta para uma crítica genética em música. In: Congresso Internacional da Associação de Pesquisadores em Crítica Genética, 10., 2010, Porto Alegre. Materialidade e virtualidade nos processos de criação: anais […]. Porto Alegre: PUCRS, 2012. p. 237-245.
CLIFFORD, James; MARCUS, George E. (org.). A escrita da cultura: poética e política da etnografia. Tradução de Maria Claudia Coelho. Rio de Janeiro: EdUERJ; Papéis Selvagens Edições, 2016.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil platôs: capitalismo e esquizofrenia, vol. 1-5, São Paulo, Editora 34, 1997.
DONIN, Nicolas. A autoanálise, uma alternativa à teorização? Tradução de Michelle Agnes Magalhães. OPUS, [s. l.], v. 21, n. 2, p. 149-200, set. 2015.
DONIN, Nicolas (ed.). Un siècle d’écrits réflexifs sur la composition musicale: anthologie d’auto-analyses, de Janáček à nos jours. Genève: Droz; Haute école de musique de Genève, 2019.
STRATHERN, Marilyn. O efeito etnográfico e outros ensaios. Tradução de Iracema Dulley, Jamille Pinheiro e Luísa Valentini. São Paulo: Cosac Naify, 2014.
Regulação da capacidade de atenção como fator de aprimoramento do desempenho em leitura musical enquanto habilidade piano-colaborativa
Taiur Agnoletto Fontana
Universidade Federal de Santa Maria – UFSM
A presente investigação buscou elucidar caminhos para o aprimoramento do desempenho em leitura musical considerando a regulação da capacidade de atenção por meio de automatismos desde a perspectiva da área de piano-colaborativo (Adler, 1965; Paiva, 2008; Friesen, 2018). Diante de uma partitura musical para piano constituída de várias informações a serem assimiladas, exigindo uma pronta resposta no instrumento aos estímulos visuais, qual seria a forma de alocá-las sem extravasar os limites atencionais? O automatismo enquanto recurso cognitivo-motor que possibilita o desempenho de tarefas envolvendo baixo esforço de atenção, conforme os pressupostos teóricos constantes em Logan (1998), Magill (2012) e Bogo (2016), liberando os recursos atencionais para deter-se no conteúdo expressivo bem como demais aspectos inerentes à performance musical. A metodologia de caráter teórico-exploratório e interdisciplinar, buscou unir ao domínio musical fundamentos da psicologia cognitiva e do controle motor, ambos componentes da habilidade pautada. O objetivo foi identificar de que modo se alcança maior eficácia no processamento de informações presentes em uma partitura durante o ato de leitura musical, definindo conceitualmente atenção e automatismo (Verneaux, 1969; Dalgalarrondo, 2008; Vanzella e Janzen, 2021) e suas implicações em tarefas de leitura. Discussão: constatou-se que sua otimização depende da consolidação de hábitos diretivos como a administração de várias linhas melódicas pelo deslocamento do foco atencional, alternância do foco entre diferentes pentagramas de uma grade, ou a sustentação do foco de atenção em uma mesma linha melódica durante um longo tempo, dentre outras possíveis operações demandadas por um exemplar de leitura musical. Os processos intramentais de automatização por aglutinamento de informações são incorporados ao aparato motor, tal como um espelho das operações cognitivas intramentais, que converte as pequenas unidades em um todo coeso no tocante ao emprego de alavancas físico-motoras de maiores proporções (antebraço) que assumem a atividade de alavancas menores (dedos).
Palavras-chave: leitura musical; piano colaborativo; capacidade de atenção; automatismo; aprimoramento da performance.
Referências:
ADLER, K. The art of accompanying and coaching. Minneapolis: The University of Minnesota Press, 1965.
BOGO, D. Aplicação de conceitos da psicologia cognitiva na construção de automatismos na leitura musical. Revista Música Hodie, Goiânia, v.16, n.1, p. 124-133, 2016.
DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e Semiologia dos transtornos mentais. Porto Alegre: Artmed, 2008.
FRIESEN, R. Panorama das competências do pianista de coro no Brasil. Dissertação (Mestrado em Música) – Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, 2018.
GUSMÃO, P. Ditado melódico e a cognição: revisitando o modelo de Karpinski. In: GERMANO, Nayana Di Giuseppe; RINALDI, Arthur. Música, Mente e Cognição: a pesquisa em cognição musical no Brasil. Curitiba: Associação Brasileira de Cognição e Artes Musicais, p. 188-234, 2021.
KOCHEVITSKY, G. The Art of Piano Playing. Miami: Summy Bichard Inc., 1897.
KAHNEMAN, D. Attention and effort. New Jersey: Prentice Hall, 1973.
LAMAS, A. El hombre y su conducta. Buenos Aires: Instituto de Estudios Filosóficos Santo Tomás de Aquino, 2013.
LOGAN, G. What is learned during automatization? II. Obligatory encoding spatial location. Journal of Experimental Psychology: Human Perception and Performance, 24, p. 1720-36, 1998.
MAGILL, R.A.; ANDERSON, D. I. Motor learning and control. 11 ed. New York: McGrawHill Education, 2017.
PAIVA, S. O pianista correpetidor na atividade coral: preparação, ensaio e performance. Dissertação (Mestrado em Música) – Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2008.
SCHMIDT, R.; LEE, T. Aprendizagem e Performance Motora. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016.
SLOBODA, J. A. A mente musical: A psicologia definitiva da música. Londrina: Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2008.
Vanzella, P.; Janzen, T. Memória musical: do que mesmo estamos falando? In: GERMANO, Nayana Di Giuseppe; RINALDI, Arthur. Música, mente e cognição: a pesquisa em cognição musical no Brasil. Curitiba: Associação Brasileira de Cognição e Artes Musicais, p. 111-144, 2021.
VERNEAUX, R. Filosofia do homem. São Paulo: Duas Cidades, 1969.