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Bruno Latour: por uma visão integrada da ciência, da tecnologia e da natureza na experiência coletiva da contemporaneidade

por Jenifer Cappellari



Bruno Latour | Foto: Joel Saget, AFP.

“As páginas de Economia, Política, Ciências, Livros, Cultura, Religião e Generalidades dividem o layout como se nada acontecesse. O menor vírus da AIDS nos faz passar do sexo ao inconsciente, à África, às culturas de células, ao DNA, a São Francisco; mas os analistas, os pensadores, os jornalistas e todos os que tomam decisões irão cortar a fina rede desenhada pelo vírus em pequenos compartimentos específicos, onde encontraremos apenas ciência, apenas economia, apenas representações sociais, apenas generalidades, apenas piedade, apenas sexo. Aperte o mais inocente dos aerossóis e você será levado à Antártida, e de lá à universidade da Califórnia em Irvine, as linhas de montagem de Lyon, a química dos gases nobres, e daí talvez até à ONU, mas este fio frágil será cortado em tantos segmentos quantas forem as disciplinas puras: não misturemos o conhecimento, o interesse, a justiça, o poder. Não misturemos o céu e a terra, o global e o local, o humano e o inumano” (LATOUR, 1994, em “Jamais fomos modernos”).

Em sua conhecida crítica ao modo de vida moderno e em tantas outras obras, Bruno Latour expressava seu modo de pensar a coletividade como um espaço de associações e imbricamentos, evidenciando a relação entre humanos, não-humanos, ciência, política e meio ambiente. Autor de obras provocativas e frequentemente questionadas, é reconhecido e noticiado agora por inúmeros veículos de mídia como um importante nome do “pensamento ecologista”.

Publicando obras notáveis pelo menos desde os anos 80, o conjunto de seus trabalhos permite identificar três principais enfoques de interesse em momentos que retratam também o avanço de suas pesquisas. Primeiro, em obras como “Vida de Laboratório” (1997) e “Ciência em ação” (2000 [1987]), evidencia o seu interesse na instauração do conhecimento científico, pensando a ciência enquanto processo de elaboração e não como descobrimento. Aqui o autor já apontava o interesse em pensar também a participação de elementos não-humanos como documentos, políticas e utensílios na construção da ciência. Em “Reagregando o social” (2012 [2005]) e “Investigação sobre os modos de existência” (2019 [2011]), o autor dá centralidade para a discussão sobre os elementos não-humanos como agentes e mediadores de comunicação e de práticas estruturantes do modo contemporâneo de experienciar a coletividade. Nas obras publicadas pelo menos a partir de 2015, dedica-se a refletir sobre a existência humana e sociotécnica em relação às dinâmicas políticas, ao ambiente e à natureza, como em “Diante de Gaia” (2020 [2017]) e “Onde aterrar?” (2020 [2017]).

Pela abrangência de seus estudos, Latour é mencionado como sociólogo, antropólogo, filósofo, pensador da ciência, da política e do meio ambiente. Se bem uma única dessas definições não dá conta de descrever o trabalho do autor, talvez a união de todas elas cumpra melhor esse papel. A dinamicidade de seu pensamento se expressa claramente pelo posicionamento defendido em suas obras. Para ele a crise climática, tensões nos modelos econômicos e os frequentes conflitos geopolíticos do nosso tempo não são fenômenos isolados, mas estão, sim, relacionados. Da mesma forma, entrelaçam-se com questões consideradas por ele necessárias para pensar a humanidade, a tecnologia e as práticas sociotécnicas.

É notável ainda em suas reflexões a oposição ao antropocentrismo da sociologia clássica e a proposição pela simetria nas associações entre elementos e atores nas redes em que ele observa. Nisso se reflete a teoria Ator-Rede, uma das grandes contribuições do autor para a sociologia contemporânea. Se por um lado essa perspectiva desperta frequentes questionamentos, por outro inspira trabalhos de importantes autores da comunicação no contexto brasileiro. André Lemos, na UFBA, Carlos D’Andrea, na UFMG, Fernanda Bruno, na UFRJ e Rodrigo Firmino, na PUC-PR, são alguns dos autores contemporâneos que inspiram-se ou inspiraram-se, de alguma forma, no seu trabalho.

Aqui no EJor, a minha pesquisa de mestrado também deve muito ao pensamento de Bruno Latour. Ele, diretamente, por meio de suas obras, e indiretamente, através dos autores que mencionei acima, me ajuda a pensar sobre a mediação e a agência dos elementos sociotécnicos como processo de comunicação e associação simétrica na investigação que me proponho a desenvolver. Certamente falarei mais sobre ela por aqui nas próximas semanas.

Bruno Latour faleceu no último dia 09 de outubro, em Paris, e deixou um legado de inúmeras obras em uma escrita que dialoga com o leitor e o provoca. Assim como já influenciou inúmeros autores além dos que mencionei, suas obras seguirão inspirando pesquisas disruptivas, inovadoras e questionadoras do papel social da comunicação, sob um viés que deve perceber necessária a compreensão de que ciência, política e sociedade não podem estar separadas.

Referências
LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos. Editora 34, 1994.
WOOLGAR, Steve; LATOUR, Bruno. A vida de laboratório. Rio de Janeiro, Relume-Dumará, 1997.
LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora.Unesp, 2000.
LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede. Edufba,2012.
LATOUR, Bruno. Investigação sobre os modos de existência: uma antropologia dos modernos. Editora Vozes, 2019.
LATOUR, Bruno. Diante de Gaia: oito conferências sobre a natureza no Antropoceno. UbuEditora, 2020.
LATOUR, Bruno. Onde aterrar?: como se orientar politicamente no antropoceno. Bazar do Tempo, 2020.

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