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Negacionismo e a interdição de discursos jornalísticos sobre ciência na pandemia

por Claudine Friedrich



Durante a pandemia de Covid-19, em meio a um quadro de incertezas, negacionismo e informações desencontradas sobre a doença, a ciência e o jornalismo tiveram sua relevância social posta em evidência. O período aterrorizante de contágio, medo e isolamento que, apesar de comumente não despertar boas lembranças, tornou-se campo fértil para debates e estudos no âmbito acadêmico, por toda sua particularidade. Na área da Comunicação, no Brasil, são muitas as pesquisas que relacionam o período com a explosão da desinformação, atravessada por controvérsias científicas, fake news, posicionamentos anticiência e perseguição a pesquisadores, que gerou um cenário constituído por disputas discursivas em torno dos sentidos sobre a realidade social pandêmica.

Em meus primeiros meses como aluna de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Comunicação (POSCOM), da Universidade Federal de Santa Maria, leituras e diálogos sobre a atuação do jornalismo brasileiro na pandemia despertaram-me o interesse de estudar os desafios enfrentados pelos profissionais – jornalistas e cientistas – para tratar das descobertas científicas que precisaram ser divulgadas na mídia em tempo recorde. A fim de aprofundar conhecimentos e contribuir com análises empíricas, desenvolvi uma pesquisa examinando discursos sobre ciência que circularam no Café da Manhã – um dos podcasts jornalísticos mais ouvidos do país, produzido pela Folha de S. Paulo e o Spotify. 

Fonte: Spotify

Para observar o panorama, escolhi como corpus episódios veiculados em janeiro de 2021, que tinham como assunto principal as vacinas contra o coronavírus. Levei em consideração que o combate ao vírus traçou, na pandemia, uma segunda batalha: entre as grandes corporações farmacêuticas – pelo fato de a competição pela produção de vacinas ter sido fortemente permeada por interesses mercadológicos (CHAVES, 2021). O contexto brasileiro exigiu também que fosse problematizada a histórica escassez de incentivo à ciência, marcada pelo anticientificismo associado à falta de financiamento (TEIXEIRA, KLEIN E NISHIDA, 2021), além de ataques contra jornalistas e divulgadores científicos que se opunham às declarações do presidente Jair Bolsonaro.

Por meio da aplicação teórico-metodológica da Análise de Discurso Francesa, pude identificar que, no podcast Café da Manhã, durante o período estudado, os dizeres sobre ciência apresentaram o Governo Federal como omisso e negligente, apontando-o como responsável pela desarticulação interna, desfinanciamento das ciências e falta de apoio do mercado externo para o enfrentamento da pandemia. Os episódios que trataram dos avanços científicos para conter a transmissão do coronavírus relacionaram a produção e distribuição das vacinas à lógica comercial, demonstrando ser a ciência, em nível mundial, extremamente dependente do setor econômico. E, o que se sobressaiu na análise foram os discursos que incentivaram a adesão dos ouvintes à vacinação – apesar de apontarem a existência de incertezas sobre as vacinas que estavam recebendo aprovação emergencial -, justificando que os benefícios superavam possíveis riscos da imunização coletiva naquele momento. 

Percebi, com base nesses núcleos de sentido extraídos dos discursos, que a dinâmica científica da pandemia não foi abarcada em sua totalidade nos episódios analisados. Isso se mostra evidente à medida que, mesmo ciente das controvérsias no que concerne às vacinas contra a Covid-19, o discurso jornalístico do podcast ofuscou a complexidade do tema, fazendo predominar dizeres padronizados que intercederam pela credibilidade da ciência. Ficou perceptível que, em meio à realidade conflituosa de descrédito à ciência e ao jornalismo, foram interditados discursos representativos sobre a polêmica “corrida pela vacina”. Com isso, pude avaliar que o contexto sociopolítico marcado por posições extremistas afastou do jornalismo a viabilidade de evocar fontes mais plurais sobre a pandemia, já que foi evitado o aparecimento público de dizeres que, de alguma forma, tivessem potencial para alimentar posições negacionistas. 

Problematizei isso no trabalho por entender que não são alcançadas, dessa forma, algumas das finalidades do jornalismo, que compreendem explicar os fatos de forma aprofundada, apresentar as problemáticas para que sejam discutidas na sociedade e mostrar como o mundo funciona em toda sua complexidade, diversidade e pluralidade (REGINATO, 2019).  Neste caso em específico, é válido pensar: sociedades que não têm conhecimento sobre possíveis riscos e incertezas das vacinas aplicadas em seus corpos são, de fato, sociedades bem informadas? Por outro lado, questiono também se, nos tempos atuais, seria válido apresentar vozes que poderiam, de uma forma ou de outra, dar força ao negacionismo e à perseguição a pesquisadores. E, mais: como definir fontes legítimas para falar sobre assuntos polêmicos como esses? São questões de grande profundidade, para as quais não tenho respostas (e desconheço quem as tenha). 

Submeti este estudo ao 20º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, que será promovido de 9 a 11 de novembro pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). Com alegria, recebi o aceite da comissão avaliadora e viajarei do Rio Grande do Sul até Fortaleza-Ceará para apresentar o trabalho no evento. Imagino que as contribuições da banca e dos demais congressistas consigam ajudar-me a refletir sobre as inquietações aqui expostas, a fim de que estudos posteriores sobre jornalismo e ciência possam ser realizados com maior completude teórica. 

Referências Bibliográficas

CHAVES, Bráulio Silva. A pandemia de COVID-19 entre a saúde pública e a tecnociência. CTS em foco: Boletim ESOCITE.BR, 2021.

REGINATO, Gisele Dotto. As finalidades do jornalismo. 01. ed. Florianópolis – SC: Editora Insular, 2019.  

TEIXEIRA, M. O.; KLEIN, V. P.; NISHIDA, L. Pandemia, negacionismo e o desfinanciamento das tecnociências no Brasil contemporâneo: considerações preliminares. CTS em Foco: Boletim ESOCITE.BR, 2021.

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