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Rota 66: um livro para jornalistas



Por: Natalie Pereira Soares

Os livros-reportagens costumam se concentrar em narrar histórias de maneira mais aprofundada, por meio de uma escrita detalhada, densa e envolvente. Em alguns casos, também são utilizadas inspirações no gênero literário, além do jornalístico, como é o caso do famoso A Sangue Frio, de Truman Capote. Esse gênero possibilita sair do imediatismo das notícias diárias. Uma reportagem “normal” é transformada em um livro, um lugar em que o autor pode contar todos os meandros do processo. Para os amantes do tema em questão, um livro-reportagem é uma grande viagem de conhecimento.  

De acordo com Schwaab (2021): “a  reportagem  é  um  fazer  de  interface,  não  está  pelos  limites,  mas  surge na  porosidade  das  fronteiras  do  jornalismo,  da  literatura  e  das  ciências  sociais, quando então logra ser relato jornalístico não condicionado sobre um tema” (p. 14). O livro-reportagem “trata de acontecimentos ou de fenômenos reais e utiliza, para sua produção, procedimentos metodológicos inerentes ao campo do jornalismo, sem, contudo, descartar certas nuances literárias” (Rocha; Xavier, 2013, p. 144).

A obra vencedora do Prêmio Jabuti em 1993, “Rota 66: A História da Polícia que Mata” (1992), é escrita pelo jornalista gaúcho Caco Barcellos. A distância temporal não impede que o leitor se envolva com o caso principal exposto na obra que aconteceu há ainda mais tempo de seu lançamento: 1975. Como nascida após os anos 2000, ao conhecer o nome da obra “Rota 66”, só me foi remetida a rodovia norte-americana mais famosa do mundo. Porém, aqui o tema é brasileiro e expõe a apuração do assassinato de três jovens pelas Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (ROTA), da Polícia Militar do Estado de São Paulo. 

Neste texto, vamos explorar como Caco Barcellos utilizou de seu tato jornalístico para denunciar, a partir desse crime, a violência policial latente na cidade de São Paulo.

O crime de Rota 66

Na madrugada de 23 de abril de 1975, Francisco Nogueira Noronha, 17 anos, José Augusto Diniz Junqueira, 19 anos, e Carlos Ignácio Rodrigues Medeiros, 22 anos, estavam circulando em seu Fusca azul pelas ruas de São Paulo, quando começaram a furtar o toca-fitas de um carro Puma. Nesse momento, a ROTA os avistou e suspeitou da ação dos jovens, iniciando uma perseguição que culminou na execução deles. Vale dizer que o furto que os três estavam cometendo era uma “brincadeira” com um amigo. Os matadores, – como chama Caco – o sargento José, o cabo Roberto e os soldados Antônio, Claudio e Francisco, foram julgados e inocentados por um tribunal militar anos depois.

Entenda a abordagem de Caco

Embora o livro comece explorando o caso da Rota 66 e dos três jovens do fusca azul, a violência policial entre os anos 1970 e 1992 é o principal tema da obra.

“Capítulo 1: A Perseguição
A Veraneio cinza nunca esteve tão perto. A 200, 300 metros, 15 segundos. A sirene parece o ruído de um monstro enfurecido. Os faróis piscam sem parar. O farolete portátil de 5 mil watts lança luzes no retrovisor de todos os carros à frente. Os motoristas, assustados, abrem caminho com dificuldade por causa do trânsito movimentado nesta madrugada de quarta-feira, no Jardim América” (p. 11)

Caco dedica a primeira parte do livro para descrever o que aconteceu na madrugada de 23 de abril de 1975 e intercala os capítulos do caso Rota 66 com sua vida, inicialmente em Porto Alegre, até se tornar repórter e investigar casos de violência policial.

“Desde 1967, os homens da Polícia Civil desapareceram das ruas do nosso bairro. Tiveram suas ações limitadas a investigações de crimes e formação de inquéritos. A tarefa do patrulhamento se tornou exclusiva dos policiais militares. Na prática, o novo esquema só começou a funcionar no começo dos anos 70. Os suspeitos, antes perseguidos de forma injusta, agora muitas vezes eram mortos sem chance ou direito de defesa. Não só no meu bairro pobre mas também na periferia de todas as grandes cidades do país. Porém, depois de 73, eu já não sofria como antes. Tornei-me testemunha dos sofrimentos dos outros. Já era repórter” (p. 24)

Como jornalista, observar esse início demonstra como as vivências de berço podem influenciar na nossa profissão, da escolha das pautas às fontes ouvidas. Muitos dedicam suas carreiras à luta que os motivou a se tornarem jornalistas. Barcellos passou por situações semelhantes às relatadas ao longo do livro, escapando da Radiopatrulha na periferia da capital gaúcha. 

Esse aspecto relaciona-se com o que afirma Schwaab (2021) sobre a narrativa jornalística ser um projeto humano, ela está  “no  complexo  universo de  relações  entre  os  mundos  do  autor,  do  texto  e  do  leitor,  exigindo  um  princípio dialógico que permeie entendimentos sobre o jornalismo, os encontros e rupturas  que  sua  escritura  pode  instalar,  bem  como  ampliar  o  olhar  sobre  os modos de inscrição dos sujeitos no seu tempo” (p. 15). Schwaab segue a linha de pensamento discutindo a individualidade da pessoa e o fazer reportagem, mas nos coloca no lugar do Outro no momento em que escolhemos abordar um tema e escrever sobre ele.

O caso Rota 66 é a principal linha que guia o leitor na história, mas encerrada sua explanação, o livro se dedica em contar outros acontecimentos que, invariavelmente, terão o modus operandi do primeiro.

Uma crítica recorrente em outros casos policiais, geralmente com desfecho de execução, é o alto custo de dinheiro público nas operações da ROTA. No caso do fusca azul, essa preocupação também se faz presente:

“Agora mais de cem policiais militares, pelas ruas e no comando, estão envolvidos na repressão ao suposto furto de um toca-fitas. Antes da primeira rajada de metralhadora, o gasto público desta operação era no mínimo de 10 mil dólares […] Agora, a cada novo disparo de metralhadora, o gasto equivale ao prejuízo do furto de noventa toca-fitas. Parece inacreditável, mas é isto mesmo: para salvar um toca-fitas, os homens da Rota estão gastando, por minuto, o equivalente ao preço de mais de noventa toca-fitas” (p. 45)

A moeda no Brasil na data de lançamento do livro, 1993, era o Cruzeiro Real (CR$). As oscilações da moeda brasileira parecem ser um dos motivos para o autor descrever os custos das operações em dólar, uma escolha jornalística a ser observada.

Além de situações como as que expõem a ineficiência das operações, a brutalidade presente nelas também está presente. É um livro muito sensível, pois relata o processo reconstituído por testemunhas e relatos posteriores de jovens que sofreram violência policial. Há entrevistas com as famílias, em que sentimos os resquícios de sua dor, resultado do tato jornalístico característico do repórter. O livro detalha as execuções, conta quantos tiros alguns jovens foram mortos – o que demonstra a impossibilidade de ser um tiroteio, visto que era muito raro policiais militares serem baleados – e é uma ida e vinda do Instituto Médico Legal (IML). 

A entrevista de testemunho que o autor realiza, de acordo com Charaudeau (2006) pode ser ora relato de acontecimento, considerado interessante o suficiente para ser incluído no jornalismo, ora uma breve opinião. Portanto, o entrevistado é testemunha por ter observado o acontecimento ou ser vítima e, espera-se que ele testemunhe “sem julgamento de valor e se possível com emoção” (p. 216). “A entrevista de testemunho é um gênero que se presume confirmar a existência de fatos e despertar a emoção, trazendo uma prova de autenticidade pelo ‘visto-ouvido-declarado’” (Charaudeau, 2006, p. 216).

“… Tem mano que te aponta uma pistola e fala sério
Explode sua cara por um toca-fita velho
Click, plau, plau, plau e acabou
Sem dó e sem dor, foda-se sua cor”
Capítulo 4, Versículo 3 – Racionais MC’s

Um passeio nos números

Assim como os números em dólares e os prejuízos financeiros são destacados, as mortes por execução também recebem a devida exposição:

“Pela regra da proporção de quatro por um, significa que o número de feridos deve ter sido de 16 mil e o de mortos perto de 4 mil, bem menos portanto dos que os policiais militares já mataram em São Paulo. Nem as invasões estrangeiras dominadoras mataram tantos brasileiros. Os PMs mataram mais que os invasores ingleses, franceses e holandeses juntos, que fizeram 23 mil baixas, cerca de 5 mil mortos, 18 mil feridos. Sem ter um inimigo declarado […]” (p. 130)

O livro traz números a todo momento, o que demonstra a clareza da metodologia da sua pesquisa. No exemplo acima, há uma assemelhação desses números a outros combates no Brasil, o que acentua a gravidade da violência cometida pelos policiais. O leitor recebe números e percentuais contextualizados, entende como os dados foram alcançados e trabalhados por Caco e os pesquisadores que o auxiliaram. Assim, temos um passo a passo que não é exposto de uma vez só ao leitor, mas com a evolução da história. 

Com o uso de fontes documentais na pesquisa que gerou o livro-reportagem, trazemos o trabalho de Gehrke (2018): O uso de fontes documentais no jornalismo guiado por dados. A autora pesquisa diversos autores para poder conceituar essas fontes, chegando a conclusão que fontes documentais podem ser de três tipos: arquivo documental, estatística ou reprodução. Barcellos usa essas ferramentas cruzando dados das vítimas e servindo-se de boletins de ocorrência e normas policiais, como caracterizados por Gehrke: estudos, notas, memorandos, cartilhas, legislação, planos, projetos, programas, rankings, publicações oficiais, resoluções, publicações editoriais e materiais digitalizados (arquivo documental, p. 107); publicações que levam conteúdo numérico, estatística descritiva, séries históricas, indicadores, taxas, relatórios, cartas de conjuntura e análises (estatística, p. 108); e ainda explora matérias de rádio e jornal sobre os crimes, ativando a fonte do tipo reprodução (p. 108).

Outro fator recorrente é que muitas vítimas de execução não têm antecedentes criminais: “Exatamente quinze jovens mortos eram primários, ou seja, nunca praticaram nenhum crime” (p. 152). Sem consultar os documentos e com a entrada no IML como indigentes, torna-se evidente que os policiais não checaram os antecedentes criminais, embora afirmem nos inquéritos que eram “criminosos conhecidos”. O trabalho de Caco Barcellos chegou a uma infeliz conclusão: de 3.846 mortes registradas entre 1970 e 1992, 65% dos mortos pela ROTA eram inocentes. No livro, há também o levantamento de dados por segmentações sociais, por pesquisa própria e por meio de dados da Fundação Seade. Por exemplo, 51% das vítimas em que foi possível identificar a cor de pele, eram negras e pardas. Numa São Paulo em que negros e pardos eram 22% da população. Em relação à renda, a maioria quase absoluta é de pessoas de baixa renda. A pesquisa descobriu a profissão de 3.812 vítimas, os operários e ajudantes de obras da construção civil somaram 20% das vítimas – ou 877 civis. Por fim, 735 mortos residiam nos extremos das zonas leste e sul, local em que se concentrava a população de baixa renda de São Paulo.

Essa característica da escrita de Caco Barcellos se aproxima do Jornalismo de Precisão, o qual envolve uso de dados, fontes confiáveis e metodologias específicas com objetivo de garantir informações precisas. Esse tipo de jornalismo é comumente usado em reportagens investigativas, com foco nos detalhes e no contexto envolvido.

Lições de Caco

Faça-se justiça aos bons policiais: embora o livro faça críticas às operações policiais, Caco expõe que os matadores são minoria dentro da Polícia. A prioridade da maioria é a prisão do suspeito para levá-lo a julgamento da Justiça. 

Este livro é uma excelente oportunidade para se aprofundar no jornalismo investigativo, compreendendo o método de pesquisa que deu origem ao livro-reportagem e a série. Mais do que isso, é uma chance de refletir sobre o impacto do jornalismo, uma ferramenta vasta e corajosa, capaz de adentrar o universo das famílias perpetuamente atingidas, cujos direitos deveriam ser defendidos por aqueles que feriram suas famílias. A obra livro ensina sobre jornalismo investigativo, jornalismo de dados, narrativa, fontes e rigor metodológico. Ela narra o preconceito – sobretudo através do racismo – descarado. Raros foram os que sobreviveram a essas investidas, pois como disse Racionais MC’s “… Enfim, o filme acabou pra você, a bala não é de festim, aqui não tem dublê” (1997).

Rota 66: A História da Polícia que Mata” está disponível na Biblioteca Central da UFSM. A série dramática você encontra na Globoplay.

Referências

BARCELLOS, Caco. Rota 66: a história da polícia que mata. São Paulo: Geração Editorial, 1992.
CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. 1. ed. São Paulo: Contexto, 2006. 285 p.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública: 2024. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2024. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/items/f62c4196-561d-452d-a2a8-9d33d1163af0. Acesso em: 17 fev. 2025.
GEHRKE, Marília. O uso de fontes documentais no jornalismo guiado por dados. Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, 2018. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/172614. Acesso em: 25 fev. 2025.
ROCHA, Paula Melani; XAVIER, Cintia. O livro-reportagem e suas especificidades no campo jornalístico. RuMoRes, v. 7, n. 14, p. 138-157, 2013.
SCHWAAB, R. Reportagem e reconhecimento: a alteridade como projeto. Estudos de Jornalismo e Mídia, v. 18, p. 9-21, 2021.

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