Ejor auxilia no mapeamento da cobertura jornalística no Rio Grande do Sul na 7ª edição do Atlas da Notícia.
O Grupo de Estudos em Jornalismo (Ejor) participou da 7ª edição do Atlas da Notícia, lançado em 2025. Integrantes do grupo e estudantes de Jornalismo da UFSM contribuíram no mapeamento de veículos de comunicação em cidades do Rio Grande do Sul. Desde 2017, o Atlas da Notícia se tornou a principal fonte de dados sobre a presença (ou ausência) de veículos jornalísticos no Brasil. A cada nova edição, o projeto amplia seu alcance e revela mudanças no cenário da comunicação local.
A iniciativa tem como objetivo mapear veículos e produtores de notícias em todo o país. Entre os meses de abril, maio e junho, estudantes de Jornalismo, mestrandas e doutorandas em Comunicação da UFSM, coordenados pela professora Laura Strelow Storch, dedicaram-se à pesquisa. Integraram a equipe Ana Luiza Dutra, Camila Londero, Daniele Lopes Vieira, Laura Coelho, Mariane Machado, Paola Jung e Pedro Souza.
A equipe do Ejor priorizou mapear as cidades da região central do estado e que são próximas ao campus sede da UFSM. Durante esta etapa, os estudantes fizeram um levantamento dos veículos locais, através de pesquisas, ligação aos órgãos executivos das cidades e contato com os veículos para coletar informações específicas, a fim de levantar dados sobre cada realidade local.
A professora Laura Strelow Storch, coordenadora do Ejor, destaca a importância da participação do grupo na 7ª edição do Atlas da Notícia. “A participação do Ejor no Atlas da Notícia reforça nosso compromisso em contribuir para a construção de um retrato mais preciso do jornalismo brasileiro”, afirmou.
Atlas da Notícia: onde falta jornalismo, cresce a desigualdade no acesso à informação
O Atlas da Notícia foi criado em 2017 pelos jornalistas Angela Pimenta e Sérgio Spagnuolo, o projeto foi inspirado no America’s Growing News Desert, da revista Columbia Journalism Review. Desde então, tornou-se fonte para pesquisas, reportagens e estudos sobre a ausência de veículos jornalísticos em diferentes regiões do Brasil.
Ele é parte de uma iniciativa do Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor) do Observatório da Imprensa, em parceria com a agência de dados Volt Data Lab. Além disso, o Atlas tem o cuidado de estar sempre atento às novas tendências do jornalismo. Um dos diferenciais desta edição foi a inclusão de uma nova categoria no mapeamento: perfis jornalísticos no Instagram, reconhecendo a importância das plataformas como produtoras e difusoras de notícias locais.
Inicialmente os voluntários do Ejor passaram por uma capacitação com o professor de Jornalismo da PUC-RS, Marcelo Fontoura. Durante essa etapa, foram apresentadas as diretrizes do projeto, os critérios para identificação dos veículos e a relevância da pesquisa para o fortalecimento da comunicação local e para o acesso à informação da população. O treinamento garantiu que todos os participantes estivessem alinhados quanto à metodologia e aos objetivos do Atlas. Na sua metodologia o Atlas possui diferentes classificações para compreender o cenário das notícias locais no país. As cidades brasileiras são classificadas em categorias: Desertos, Quase-desertos, Não-desertos e Com Veículos (municípios que possuem ao menos um veículo jornalístico).
O conceito de “deserto de notícias” surgiu a partir dos estudos de Penny Abernathy, que analisou o desaparecimento progressivo de jornais locais em diversas cidades norte-americanas, muito em função da crise do jornalismo impresso e do avanço do digital. Inicialmente, o termo designava comunidades sem nenhum jornal local. Posteriormente, a autora ampliou a definição para abranger também contextos em que, ainda que existam meios de comunicação, há uma perda significativa de acesso a informações relevantes para a cidadania e para o fortalecimento da democracia. Trata-se, de uma condição estrutural que compromete a qualidade da esfera pública, intensifica desigualdades sociais e fragiliza os vínculos entre comunidades e processos decisórios
No contexto brasileiro, o Atlas da Notícia cumpre um papel central ao mapear essa realidade Mais do que identificar onde estão concentrados ou ausentes os veículos jornalísticos, o projeto evidencia os efeitos dessa assimetria informacional. Revelando a carência de jornalismo local como um fator que limita o acompanhamento crítico da vida pública e deixa de garantir o direito à informação. O Atlas contribui para tensionar a discussão sobre a fragilidade do ecossistema midiático brasileiro e sobre os riscos que tal cenário impõe à democracia.
Para a professora Laura Storch, o Atlas da Notícia é um instrumento essencial para compreender a geografia do jornalismo local no Brasil.
“Os levantamentos do Atlas são os mais completos no contexto brasileiro, e oferecem subsídios indispensáveis para os estudos em jornalismo, permitindo análises sobre distribuição, sustentabilidade e evolução do setor. Além disso, ao revelar lacunas no acesso à informação, como os ‘desertos de notícias’, o Atlas pode orientar a definição de políticas públicas e incentivos que fortaleçam o jornalismo local, essencial para a democracia”, destaca.
O mapa do jornalismo gaúcho em 2025
Um dos focos da participação do Ejor foi o mapeamento de municípios da Região Central do estado. Entretanto, a equipe ampliou sua análise para diferentes localidades, evidenciando não apenas a presença, mas, sobretudo, a ausência de veículos jornalísticos – elemento central para compreender as desigualdades informacionais no território gaúcho.
Nos estados da Região Sul, o relatório da 7ª edição do Atlas revelou um cenário preocupante: 457 municípios vivem em desertos de notícias, ou seja, não contam com nenhum veículo jornalístico ativo. Esse número representa 8,20% da população regional – cerca de 2,1 milhões de pessoas privadas de informação produzida no contexto local. Além disso, os chamados quase-desertos, que possuem apenas um veículo em funcionamento, somam 222 municípios, afetando aproximadamente 1,2 milhão de habitantes.
No caso específico do Rio Grande do Sul, os dados confirmam a dimensão da desigualdade. O levantamento identificou 180 municípios configurados como desertos de notícias, o que significa que 680.088 gaúchos vivem sem acesso a jornalismo local. Já os quase-desertos abrangem 160 municípios, onde vivem 1.213.724 pessoas, correspondendo a 7,58% da população do estado.
Por outro lado, o Atlas também apontou 157 municípios gaúchos classificados como não desertos de notícia, ou seja, com três ou mais veículos ativos. Neles vivem cerca de 8,9 milhões de pessoas, 57,2% da população estadual. Revelando uma forte concentração de veículos em cidades de médio e grande porte, enquanto as localidades menores permanecem desassistidas.
No total, o Rio Grande do Sul registra 1.448 veículos jornalísticos ativos, distribuídos em 347 impressos, 452 online, 588 rádios e 61 televisões. Também foram identificados 134 veículos alternativos, como blogs, iniciativas individuais e projetos restritos às redes sociais.
Por que mapear os desertos de notícia importa
Mapear os desertos de notícia é fundamental porque releva onde a população não tem acesso a informações de cunho jornalístico. Os números mostram mais que estatísticas: evidenciam um quadro estrutural de desigualdade no acesso à informação no Rio Grande do Sul. Enquanto os grandes centros urbanos contam com maior diversidade de meios e formatos, os pequenos municípios permanecem vulneráveis ao avanço dos desertos de notícia.
Isso significa que milhares de pessoas vivem sem o jornalismo local e passam a depender de conteúdos circulados em redes sociais ou canais informais, muitas vezes pouco confiáveis. Tornando a população vulnerável à desinformação.
Essa concentração da produção jornalística em pólos urbanos acentua as desigualdades regionais e compromete o direito fundamental à informação. Em comunidades menores, a ausência de cobertura jornalística local enfraquece o acompanhamento crítico da vida pública e limita a participação cidadã. Nesse sentido, o Atlas evidencia uma crise no jornalismo e seus impactos diretos na democracia.
Texto por: Mariane Machado e Ana Luiza Dutra