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Dissertação do EJOR indicada ao Prêmio Compós analisa como métricas e plataformas reconfiguram o trabalho jornalístico



Pesquisa identifica a metrificação como novo constrangimento organizacional e aponta a crescente especialização do trabalho nas redações digitais

A dissertação de mestrado da pesquisadora do EJOR Paola Martins Jung foi indicada ao Prêmio Compós de Dissertações, após seleção interna realizada pelo POSCOM. O trabalho, defendido em 2025 e orientado pela professora Laura Storch, investiga como as plataformas digitais vêm transformando a organização do trabalho jornalístico.

Intitulada “A metrificação e a especialização como novos constrangimentos organizacionais no jornalismo plataformizado de GZH”, a pesquisa analisa como os processos de distribuição de conteúdo reconfiguram rotinas produtivas e decisões editoriais em um contexto de jornalismo cada vez mais orientado pelas plataformas.

O estudo toma como caso a GZH, uma das principais marcas do jornalismo regional brasileiro, com foco na atuação do seu setor de distribuição de conteúdo. A partir dessa experiência, a dissertação mostra como métricas de audiência, estratégias de circulação e exigências técnicas das plataformas passam a atravessar o cotidiano das redações.

Entre os principais achados da pesquisa, destaca-se a identificação da metrificação como um novo constrangimento organizacional, capaz de orientar práticas editoriais e influenciar decisões sobre produção e circulação de notícias. Ao mesmo tempo, o trabalho aponta a crescente especialização do trabalho jornalístico, marcada pela criação de funções voltadas à gestão de audiência, análise de dados e otimização de conteúdos para plataformas digitais.

A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do Grupo de Estudos em Jornalismo (EJOR), do qual Paola faz parte desde o mestrado. Atualmente, a pesquisadora dá continuidade às investigações sobre o tema em seu doutorado no POSCOM, novamente sob orientação da professora Laura Storch.

Na entrevista a seguir, Paola Martins Jung fala sobre a origem da pesquisa, os desafios do trabalho de campo e as contribuições do estudo para compreender as transformações contemporâneas do jornalismo.

EJOR: De onde surgiu a ideia da dissertação?

Paola Jung: A ideia da dissertação surgiu de uma inquietação sobre como técnicas de otimização de conteúdo, especialmente Search Engine Optimization (SEO) e Social Media Optimization (SMO), estavam sendo apropriadas por organizações jornalísticas. A temática da dissertação se transformou quando as primeiras entrevistas foram realizadas, porque ficou evidente que o fenômeno não se limitava ao uso técnico de ferramentas, ele era apenas uma parte do processo. A aplicação de técnicas de otimização envolvia rearranjos organizacionais mais amplos, novos núcleos especializados, redefinição de fluxos internos e uma relação cada vez mais estruturada com plataformas digitais. A partir disso, o foco da pesquisa se desloca para investigar como a metrificação e a distribuição plataformizada tensionam a estrutura organizacional da GZH, para além dos aspectos técnicos.

Ejor: Por que a GZH é um objeto relevante de estudo hoje? O que ela ajuda a revelar sobre o jornalismo brasileiro no contexto de plataformização e uso de métricas?

Paola Jung: A GZH é um objeto relevante de estudo porque é uma organização jornalística consolidada e tradicional no Rio Grande do Sul, que passou por complexos processos de digitalização e reorganização organizacional, registrados ao longo do tempo por outras pesquisas, como as de Greyce Vargas e Janaína Kalsing. Como é uma organização adepta da inovação, está em constante mudança, e é sempre possível retornar a ela para encontrar diferentes resultados. A GZH ajuda a revelar como o processo de distribuição se tornou tão estratégico quanto o processo de produção das notícias. Muitas vezes, a metrificação não aparece apenas como algo posterior à produção das notícias, mas já orienta decisões editoriais pensando na distribuição. Assim, esse estudo evidencia como a plataformização não é apenas um fenômeno externo, mas algo que tem potencial para reconfigurar internamente a organização jornalística.

Ejor: Seu trabalho dialoga com pesquisas anteriores, mas em que medida sua dissertação dá continuidade a esses estudos e o que ela aprofunda ou tensiona em relação a eles?

Paola Jung: O meu trabalho dialoga principalmente com a tese de Janaína Kalsing, que traz o conceito do jornalista metrificado e que também estudou a GZH. Nesse sentido, damos continuidade a esse debate ao assumir esse conceito, de que a metrificação perpassa o trabalho jornalístico. O novo olhar que se dá para isso vem através da escolha de não estudar necessariamente os jornalistas da redação, mas sim os profissionais que estão no entorno da redação, tomando decisões referentes à distribuição das notícias ou até mesmo à criação de produtos digitais nesse mesmo âmbito. O principal tensionamento está em demonstrar que a metrificação não é apenas um mecanismo de controle simbólico ou editorial, mas um constrangimento organizacional que reestrutura fluxos, cargos e processos decisórios.

Ejor: Um dos principais achados aponta a metrificação como um constrangimento organizacional. Como as métricas passam a orientar decisões editoriais no cotidiano da redação?

Paola Jung: As métricas deixam de ser instrumentos de avaliação posterior da circulação das notícias e passam a se tornar também um indicador para definição de enquadramentos e para a criação de novas pautas. Assim, a metrificação atua como um constrangimento organizacional porque condiciona práticas, no sentido de reorganizar prioridades pensando na distribuição. O fato de uma pauta ter potencial ou não para gerar boas métricas é relevante para a tomada de decisões editoriais, bem como para decisões comerciais relacionadas à venda de anúncios, produtos digitais e espaços de divulgação.

Ejor: A pesquisa também mostra uma especialização crescente do trabalho jornalístico. Quais são os impactos dessa especialização para a autonomia e a identidade profissional dos jornalistas?

Paola Jung: O principal impacto que pode ser observado é que a especialização reduz a independência editorial, já que a escolha das pautas e dos enquadramentos passa a levar em consideração os critérios da metrificação. A especialização não é apenas um aprimoramento técnico, mas uma resposta organizacional às exigências da distribuição plataformizada. A criação de núcleos como o de Trends, que busca especificamente encontrar pautas que estejam em alta na rede, demonstra que a circulação de conteúdo deixa de ser uma etapa posterior à produção e passa a integrar o próprio processo decisório da redação. Isso significa que a pauta já nasce atravessada por dados de audiência, desempenho prévio e projeções de engajamento. Assim, ainda que o jornalista mantenha formalmente sua autonomia profissional, no sentido clássico discutido por Breed, Tuchman e Soloski, essa autonomia passa a ser mediada por indicadores de performance. O news judgment não desaparece, mas passa a dialogar constantemente com dashboards de engajamento e índices de audiência. A decisão sobre o que é relevante deixa de ser exclusivamente fundamentada em critérios jornalísticos tradicionais e passa a ser tensionada por métricas de visibilidade, retenção e conversão.

Ejor: Quais foram os principais desafios metodológicos e empíricos da pesquisa? Houve limites de acesso, tempo ou mudanças na organização que impactaram o trabalho?

Paola Jung: Sim, acredito que um dos principais desafios da dissertação foi o tempo, visto que o mestrado possui um período relativamente curto para o desenvolvimento de uma pesquisa aprofundada. Do ponto de vista metodológico, a escolha pela entrevista em profundidade como método de coleta de dados foi ao mesmo tempo uma potência e uma limitação. Em função do tempo, o tamanho da amostra foi menor, com entrevistas concentradas nos núcleos de distribuição, audiência, produto e trends, sem necessariamente adentrar na redação. A utilização da entrevista permitiu acessar a perspectiva dos profissionais sobre seus próprios processos de trabalho, porém os dados ficam restritos às suas perspectivas pessoais. Ainda, outra limitação está no fato de o estudo focar apenas em uma organização jornalística. Uma mudança que impactou o trabalho foi que, durante a realização da última entrevista, em janeiro de 2025, fui informada de que toda a estrutura da GZH havia sido reformulada, e que a forma como os núcleos trabalhavam anteriormente já havia mudado completamente. Como não havia mais tempo para retrabalhar todos os dados com a nova estrutura, optou-se por apenas comentar nas considerações finais como os processos de produção e distribuição já haviam mudado nesse período de realização da pesquisa. Isso também demonstra o quanto a GZH está em constante processo de inovação.

Ejor: A partir dos resultados, que contribuições sua dissertação oferece para o campo dos estudos em jornalismo e que caminhos de pesquisa você considera mais essenciais para aprofundar esse debate?

Paola Jung: A dissertação contribui para os estudos de jornalismo ao pensar a teoria organizacional em relação com o contexto da plataformização. Ao demonstrar que a metrificação e a especialização operam como novos constrangimentos organizacionais, o trabalho evidencia que as transformações do jornalismo não se restringem às práticas produtivas, mas reconfiguram a própria estrutura interna das organizações. Nesse sentido, a distribuição deixa de ser uma etapa posterior à produção e passa a ocupar um lugar estratégico no processo editorial e nas estratégias de negócio da organização. Para aprofundar esse debate, será relevante desenvolver melhor essa ideia de especialização do trabalho não apenas como uma especialização técnica, mas também a partir de um entendimento sociológico da especialização profissional, considerando que as configurações do trabalho possuem um caráter histórico e profissional.

Entrevista realizada em março de 2026. 

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