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Arco entrevista paleontólogo Rodrigo Temp



A descoberta de um dos fósseis de dinossauro mais antigos do mundo tem chamado bastante atenção para a região central do Rio Grande do Sul. Em estudo recente, realizado por pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e da Universidade de São Paulo (USP), é possível conhecermos uma nova espécie de dinossauro predador, o Gnathovorax cabreirai. Originário do período Triássico, há 233 milhões de anos, ele é um dos mais antigos já encontrados no mundo.

O fóssil, descoberto na região da Quarta Colônia Italiana de São João do Polêsine, destaca-se por ser o mais bem preservado do tipo já encontrado no país. Devido à completude do material, o esqueleto revela que o animal tinha dentes pontiagudos e munidos de serrilhas, assim como garras longas nos dedos das mãos, que possibilitavam a captura das presas.

O estudo do biólogo Cristian Pereira Pacheco, doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal da UFSM, teve orientação do professor Sérgio Dias da Silva, da UFSM, coorientação do professor Max Cardoso Langer, da USP, e contribuição técnica dos paleontólogos Rodrigo Temp Müller, Leonardo Kerber e Flávio Pretto, do Centro de Apoio à Pesquisa Paleontológica da Quarta Colônia, o CAPPA/UFSM.

A Revista Arco conversou com Rodrigo Temp Müller, pesquisador que realiza trabalhos de campo na região e desenvolve estudos com os fósseis encontrados aqui, pertinho de nós, especialmente dinossauros e grupos relacionados. 

Ilustração do Gnathovorax cabreirai feita por Márcio L. Castro

Arco – Nos últimos dias tem se falado muito sobre a descoberta, feita na região, dos fósseis de um dos dinossauros mais antigos do mundo. Por que essa descoberta desse conjunto de fósseis é tão especial? 

Rodrigo Temp – Ele é o mais completo fóssil de um dinossauro do grupo dos herrerassaurideos. No mundo, nunca havia sido coletado um único espécime tão completo desse grupo. Além disso, ele é interessante porque os membros desse grupo (Herrerasauridae) foram animais de topo de cadeia alimentar, de modo que ele ocupava um papel de destaque nos ecossistemas terrestres do Período Triássico (cerca de 233 milhões de anos atrás). O grau de completude do espécime nos permitiu levantar muitos dados, até então desconhecidos ou pouco explorados. Por exemplo, conseguimos reconstruir, com uso de tomografias, parte do cérebro desse animal, o que revela várias informações sobre o comportamento dele, como, por exemplo, que ele foi um caçador ativo. Outra questão interessante sobre o estudo está relacionada às análises que realizamos com utilização da anatomia dos dentes de diversos dinossauros. Nossa análise demonstrou que a presença de dinossauros terópodes (o grupo que inclui grandes carnívoros famosos, como o tyranosaurus rex) no momento seguinte à existência do Gnathovorax provavelmente foi o fator responsável pela extinção dos herrerasaurídeos e alguns outros dinossauros carnívoros. Além disso, outro ponto interessante é referente à última descoberta que havia sido realizada desse tipo de dinossauro no Brasil. Em 1936, foi coletado em Santa Maria, pelo paleontólogo Llewellyn Ivor Price, um esqueleto que foi enviado para Harvad, nos Estados Unidos. Este esqueleto foi estudado por Colbert e nomeado em 1970 como Staurikosaurus pricei. Porém o Staurikosaurus não é tão bem preservado e completo como o novo esqueleto, que, ao invés de ir para outro país, ficará no Brasil, no CAPPA/UFSM, em São João do Polêsine.

Arco – Quais são as características do Gnathovorax que habitou a região há milhões e milhões de anos?

Rodrigo Temp – De forma geral, ele é um dinossauro bípede, de cerca de 3 metros de comprimento, com dentes pontiagudos e garras afiadas, além de um crânio relativamente grande (isso de forma bem geral). As características mais específicas, que servem para dar suporte à espécie são de difícil compreensão para quem não é bem familiarizado com o tema, como, por exemplo, a presença de uma perfuração no processo obturador do ísquio.

Crânio do dinossauro encontrado em São João do Polêsine (Foto: Rodrigo Temp/Divulgação/Cappa/UFSM)

Arco – Como foi o processo de busca e de descoberta dos fósseis? 

Rodrigo Temp – O esqueleto fóssil foi coletado em 2014, por um trabalho de campo realizado por uma equipe de três instituições: Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Quem encontrou o material foi o paleontólogo Sérgio Furtado Cabreira que, na época, era da Ulbra. Estava ao lado de uma lavoura próxima à área urbana de São João do Polêsine, em um sítio fossilífero já conhecido. Após escavar o esqueleto, ele foi levado dentro de um bloco de rocha até o laboratório de preparação do CAPPA/UFSM, onde passou pelo processo de preparação mecânica, que consiste na remoção do fóssil da rocha. É um processo lento e delicado. Depois de exposto, o esqueleto foi submetido a comparações anatômicas com outros animais relacionados para que se pudesse entender a que grupo ele pertence e se era ou não uma espécie nova. Finalmente, todas as informações anatômicas foram incorporadas em uma matriz de dados morfológicos, que foi processada em programas computacionais que geram árvores evolutivas, as quais nos dizem o grau de parentesco do animal.

 

Arco – De que forma essa descoberta nos ajuda a entender um pouco mais sobre os animais que já viveram na Terra?

Rodrigo Temp – Quando tentamos entender o passado da vida na Terra lidamos com algo muito fragmentado, faltam várias peças. Cada fóssil que descobrimos nos ajuda a completar esse “quebra-cabeça” do passado. Desse ponto, o novo fóssil nos ajuda a preencher uma boa parte da lacuna que tínhamos a respeito de como eram os animais de topo de cadeia do Triássico e de como pode ter sido a ascensão dos dinossauros durante esse período. É um fóssil muito importante que servirá de base para muitos outros estudos a partir de agora.

 

Arco – Outros fósseis já foram encontrados na região central do Rio Grande do Sul. Qual é a importância desta mais nova descoberta?

Rodrigo Temp – Ele soma-se à fauna que a gente já tem de dinossauros da região e ressalta o nosso patrimônio fossilífero. Além de que o esqueleto estará disponível para visita na mostra paleontológica do CAPPA/UFSM, o que poderá atrair ainda mais turistas para a nossa região.

Espécime foi encontrado na microrregião da Quarta Colônia, no Centro do Rio Grande do Sul

Arco – O CAPPA foi fundamental para os estudos sobre o Gnathovorax. Então, o que é e qual é a importância do centro?

Rodrigo Temp – O CAPPA/UFSM é um centro voltado exclusivamente ao estudo e conservação dos fósseis do Território da Quarta Colônia. Nele são desenvolvidas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Há uma mostra paleontológica que recebe milhares de visitantes anualmente. O centro ainda desenvolve atividades de ensino como cursos e disciplinas além das pesquisas. Atuam no centro os paleontólogos da UFSM, assim como estudantes do curso de pós-graduação em Biodiversidade Animal e alunos de diversos cursos de graduação. Em virtude das diversas descobertas e da pesquisa realizada no centro, o CAPPA ajuda a projetar a UFSM internacionalmente, não só em periódicos científicos, mas também através da mídia internacional. Essa visibilidade tem ajudado a formar parcerias com laboratórios de vários países, possibilitando o intercâmbio de informação e o refinamento da formação de recursos humanos pela UFSM.

 

Arco – E para ti, enquanto paleontólogo e pesquisador, como é estar envolvido nessa descoberta tão importante?

Rodrigo Temp – Todos que trabalham com dinossauros do Triássico sonham em poder estudar um herrerassaurídeo, afinal eles eram os “T-rex” da época deles. Dessa maneira eles acabam sendo muito raros. Ter a oportunidade de poder nomear um animal desses, especialmente o esqueleto fóssil mais bem preservado já descoberto de um herrerassaurídeo é incrível, não há como descrever. É simplesmente um momento único da carreira. Por outro lado, saber que fósseis tão incríveis estão abaixo de nós, aqui na região, faz com que tenhamos ainda mais ânimo para seguir nossa busca por estes animais incríveis.

 

Arco – Os nomes dos dinossauros que são descobertos também chamam bastante atenção. Como acontece esse processo de nomeação?

Rodrigo Temp –  Nós analisamos todas as características dos ossos do material, através de comparações com outros esqueletos. Então, se observarmos que o esqueleto apresenta uma combinação única de características nós podemos dar um nome novo, porque significa que ainda era uma espécie desconhecida pela ciência.



Arco – Nós temos acesso à reconstrução do dinossauro a partir dos fósseis que vocês estudam. Como a tecnologia ajuda e qual é o trabalho que vocês realizam a partir disso?

Rodrigo Temp – O uso de tomografias revolucionou o estudo de fósseis pelo fato de que agora conseguimos extrair informações inéditas de fósseis que já haviam sido estudados há décadas. Isso porque é possível analisar os fósseis por dentro, sem precisar danificá-los. Isso abre um enorme leque de possibilidades. Soma-se ainda a possibilidade de intercâmbio de informações entre diferentes laboratórios. Com os modelos 3D, gerados a partir das tomografias, nós podemos ter acesso a espécimes de outros países sem precisar ir até o museu de lá. Isso porque basta o curador enviar o modelo para a gente. Da mesma maneira, os modelos 3D do Gnathovorax estarão disponíveis agora para qualquer cientista do mundo, contribuindo com a transparência e replicabilidade da ciência.

 

Arco – Finalmente, o que essa descoberta significa, tanto para ciência quanto para a UFSM e, também, para a região?

Rodrigo Temp – Essa descoberta serve para estimular tanto nós da paleontologia como também jovens que ainda não tiveram muito contato com ciências ou paleontologia. Isso porque nossa região carrega esse enorme potencial e somos nós quem teremos de explorá-lo. Está em nossas mãos a tarefa de salvar esses fósseis da erosão e mostrá-los para o mundo todo. Uma descoberta como essa nos ajuda nessa tarefa, uma vez que é de grande interesse para a ciência e de grande apelo para o público jovem. Estimular jovens a formar interesse pela paleontologia não só aproxima eles de outras ciências, como também pode mudar a vida deles e garantir que o patrimônio fossilífero seja protegido e estudado pelas próximas gerações. Certamente esse dinossauro de 233 milhões de anos ainda terá um papel valioso tanto para a ciência, como para a nossa instituição e para a população da nossa região.

 

Arco – Para quem tiver interesse e quiser conhecer os fósseis do Gnathovorax, é possível?

Rodrigo Temp – Sim, o centro fica aberto de segunda a sábado. Quem tiver interesse em conhecer o centro e os fósseis pode vir tanto durante a manhã como na parte da tarde. Se for um grupo grande de visitantes nós pedimos que façam um agendamento pelo e-mail cappa@ufsm.br. E não há nenhum custo.

Repórter: Leandra Cruber, acadêmica de Jornalismo

Mídias Sociais: Nataly Dandara, acadêmica de Relações Públicas

Editor de Produção: Melissa Konzen, acadêmica de Jornalismo

Editor Chefe: Maurício Dias, jornalista

Colaborações especiais: Márcio L. Castro (modelagem 3D e ilustrações) Rodrigo Temp (fotografias) 

 

 

 


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