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Como funcionam as pesquisas para a criação de uma vacina?



Confira as etapas e saiba mais sobre os estudos que buscam imunizar contra a covid-19 

Pandemia, quarentena e expectativas: o novo coronavírus veio para colocar a nossa paciência à prova. A atenção está voltada à comunidade científica e, nossos diálogos cotidianos compreendem a produção de vacinas. A internet vai à loucura: os memes são uma forma bem-humorada para tratar da espera pela cura do novo coronavírus. Contam-se os dias para a descoberta que simbolizará a liberdade para a vida tal como a conhecíamos. A partir dos veículos de informação nos atualizamos sobre os avanços das pesquisas na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Alemanha, na China, na Rússia e no Brasil. Mas afinal, como é o processo para criação de uma vacina?

Com mais de 25 milhões de casos e de 859 mil mortes ao redor do mundo, a COVID-19 passou a ser considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma pandemia no início de 2020. A partir disso, a indústria farmacêutica e os centros de pesquisa de todo o planeta entraram em uma grande corrida para descobrir uma forma de proteger as pessoas. Porém, os processos que envolvem a elaboração de uma vacina são rigorosos, principalmente porque existem várias etapas de testes antes que ela chegue ao cidadão.  Isso ocorre para se certificar de que a imunização é eficaz e segura, e torna todo o seu desenvolvimento mais lento, o que, muitas vezes, não combina com a urgência de uma pandemia.

Etapas do desenvolvimento da vacina

As pesquisas são divididas em três períodos, entenda cada um deles:

Etapa 1: Laboratorial

É restrita aos laboratórios e é composta pelas pesquisas iniciais e análises de possibilidades. O agente responsável pela doença é identificado e são ponderadas até centenas de moléculas e métodos para se definir a melhor composição da vacina.

Etapa 2: Pré-clínica

Aqui outros seres vivos começam a serem envolvidos na busca pela cura. Antes, os testes eram feitos in vitro ou com células, e agora são realizados em animais para comprovar os dados obtidos nas experimentações anteriores. Buscam-se animais cujos corpos reajam ao vírus de forma semelhante ao organismo humano. Em geral, são usados camundongos e macacos. Ainda assim, por mais que os resultados sejam encorajadores, não há garantia de que a vacina não cause danos quando aplicada em humanos. É para isso que existe a próxima etapa.

Etapa 3: Clínica

É a mais complexa e mais extensa – quando o produto começa a ser testado em seres humanos. O processo clínico se divide em três fases:

Fase 1 – Tem como principal objetivo analisar a segurança do imunizador. São testados poucos voluntários, de 20 a 80 pessoas, geralmente adultos saudáveis. São levados em consideração potenciais efeitos colaterais, intensidade do produto e diferentes dosagens para evitar quaisquer danos. Além disso, já são possíveis algumas observações a respeito da resposta imunológica da vacina.  

Fase 2 – Busca entender de maneira mais concreta a eficácia da vacina. Aqui, a quantidade de voluntários testados aumenta e pode chegar a centenas de pessoas. Os pesquisadores já têm conhecimento de dados importantes, como dosagem e efeitos colaterais esperados, por isso, o grupo a ser testado se torna mais heterogêneo, com pacientes considerados de risco. Para melhor análise da resposta imunológica, muitas vezes são utilizados grupos de controle – medicados apenas com placebo. Isso ajuda a observar de forma mais detalhada a eficácia da vacina e a reação do organismo a ela. Ainda são considerados apontamentos na sua segurança – como possíveis efeitos colaterais mais raros, que não apareceram durante a primeira fase de testes, e podem resultar em um ajuste na dosagem.

Fase 3 – Avalia a eficiência e a segurança da vacina no público-alvo. A testagem envolve milhares de pessoas e as análises são levantadas a partir da observação da vacina no mundo real, ou seja, é esperado que os voluntários se exponham ao vírus para entender a eficácia do produto. Aqui, o uso do placebo é essencial para comparação dos resultados dos dois grupos. Para isso, existe um sistema chamado “duplo-cego”, no qual nem o cientista nem o voluntário sabe se a aplicação é da vacina ou do composto ineficaz. Assim, não há nenhuma mudança de comportamento que possa afetar os resultados. A exposição ao vírus deve acontecer por conta própria – por esse motivo, a terceira fase pode durar anos. Assim, os pesquisadores costumam procurar áreas de maior incidência da doença, com maiores riscos de contágio. Só após esta etapa e a aprovação dos órgãos regulatórios, ocorre a fabricação da vacina em maior escala, seguida pela distribuição. Mesmo depois de aprovada, segue em constante avaliação e observação.

Duração de pesquisa e produção do imunizador

É importante ressaltar que em relação aos processos de pesquisa para a vacina da COVID-19, não há demora. A comunidade científica está a todo vapor para achar resultados eficazes no desenvolvimento dessa imunização. A verdade é que essas pesquisas costumam levar anos, sem nem considerar o tempo de produção.

No caso da Sars-CoV-2, o que acontece é que muitos processos foram radicalmente encurtados, graças a pesquisas prévias em estágio avançado sobre doenças como Sars e Mers – causadas por outras versões do coronavírus. Para as fases clínicas, em especial a 3, tem sido primordial a aplicação em ambientes com grande incidência da doença, para resultados mais rápidos e eficientes. É por isso que o Brasil tem sido um país escolhido para testes.

Além disso, segundo o epidemiologista e supervisor do Programa de Residência em Medicina de Família e Comunidade da UFSM, Ricardo Heinzelmann, um fato importante tem sido a prioridade dos investimentos governamentais e privados no âmbito da saúde: “O ritmo de alocação de recursos públicos e privados de diversos países para desenvolvimento da vacina para COVID-19 impressiona. Orçamentos foram rapidamente revisados para que equipes de pesquisadores em diversas partes do mundo se dedicassem ao desenvolvimento desta vacina. Também o ritmo de celebração de acordos de cooperação técnicas internacionais entre instituições governamentais e não governamentais, com assinaturas praticamente imediatas de acordos ao passo de cada nova fase das vacinas”.  Porém, o especialistas alerta que o rigor científico precisa ser mantido para que os processos não sejam atropelados em nome das demandas mundiais.

Apesar de grande repercussão e expectativas mundiais, recentemente o diretor executivo da OMS, Michael Ryan, afirmou que o fato de uma candidata à vacina para a COVID-19 chegar à fase 3 não significa que ela esteja “quase lá” para ser utilizada. “A fase 3 não significa ‘quase lá’. Significa que é a primeira vez que a vacina será aplicada na população em geral, em indivíduos saudáveis, para ver se ela os protegerá”, enfatizou. “Agora, é uma corrida para a vacina comprovar que é eficaz em um grande número de pessoas ao longo do tempo”, complementou.

Vacinas para Sars-CoV-2 e seus métodos

No contexto de acelerada busca pela vacina do novo coronavírus, são exigidos determinação e esforços internacionais. Isso promove uniões entre pesquisadores, laboratórios e nações – o que resulta em uma superação de obstáculos em conjunto. O fato é algo extremamente positivo na medida que proporciona diferentes análises acerca do problema. No sentido das pesquisas ao redor do globo, isso se representa de uma maneira mais concreta com a diversificação de metodologias utilizadas nas vacinas.

Cada laboratório tem sua aposta, baseada em conceitos como eficiência, segurança, dosagem e velocidade. O último, porém, é o mais desafiador nessa conjuntura de pandemia, que demanda uma rapidez sem precedentes na busca de uma vacina. A consequência é o uso de métodos não tão convencionais e, muitas vezes, inovadores. Entenda sobre como podem ser classificados:

Corrida pelo protagonismo da cura do novo coronavírus

O que podemos afirmar é que nunca tivemos tantos recursos e uma ciência tão avançada para superarmos uma pandemia. Grandes investimentos e trabalho coletivo proporcionam o avanço nas pesquisas mundiais. É assim que já se apresentam opções promissoras na busca pela imunização do vírus.

Atualmente, estão em desenvolvimento pelo menos 165 vacinas para o novo coronavírus, das quais, 34 estão nas etapas clínicas das testagens, segundo o relatório da OMS, de 3 de setembro. Delas, pelo menos sete já estão na fase 3. 

A liderança é acirrada, porém o Reino Unido se classifica em primeiro lugar com a Vacina da Universidade de Oxford, apoiada pela farmacêutica AstraZeneca,  como anunciado pela OMS no final de julho. Com a metodologia a partir de vetores virais, é baseada em um adenovírus causador de resfriado, alterado com material genético do Sars-Cov-2. Os pesquisadores anunciaram recentemente que a vacina é segura e produz resposta imune”.

Os Estados Unidos também estão na corrida com dois desenvolvimentos principais: a Moderna/NIAID e a BioNTech/Pfizer, em parceria com a Alemanha. Em fase 3, as duas pesquisas utilizam o método de RNA na busca pela imunização. A que está em testes pelo laboratório da Moderna Inc., com apoio do  Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, já recebeu quase 1 bilhão de dólares em investimentos daquele governo e apresentou, em julho, bons resultados na produção de anticorpos em 45 voluntários. A fase 3, que se iniciou no final de julho, deve contar com cerca de 30 mil participantes nos Estados Unidos. 

Já a iniciativa dos laboratórios Pfizer (americana) e BioNTech (alemã) não representa uma parceria inédita – os dois já haviam trabalhado juntos no desenvolvimento de vacinas baseadas em RNA para a prevenção de influenza em 2018. O resultado da recente parceria foi apresentado no estudo publicado na revista “Nature”, referente às fases 1 e 2. Segundo o texto, a vacina BNT162b1, induziu boa resposta imune e não teve efeitos colaterais graves nos voluntários adultos. 

A China participa com outras três vacinas, que são respectivamente do Instituto Biológico de Pequim e Instituto Biológico de Wuhan/Sinopharm, da empresa Sinovac e do Cansino Biologics INC. As duas primeiras são elaboradas a partir de vírus inativado e a última utiliza o mesmo método da vacina de Oxford.

Os testes realizados até o momento pela Sinopharm geraram resposta imunológica após duas doses e não causaram nenhum efeito colateral grave, segundo estudo publicado no periódico “Journal of the American Medical Association” (JAMA). A empresa realiza agora testes em estágio avançado fora do país, com destaque nos Emirados Árabes Unidos, com cerca de 15 mil voluntários – já que a China não tem casos novos suficientes para ser um local de testes útil.

A Sinovac também já divulgou seus resultados da fase 2, porém em uma publicação sem revisão de outros especialistas. Segundo o estudo, feito com cerca de 600 participantes, não houve efeitos adversos preocupantes e 90% dos pacientes desenvolveram a resposta imune. A vacina está em testagem internacional.

Por fim, a Cansino Biologics foi testada em cerca de 500 pessoas em Wuhan. Anunciada como segura e geradora de resposta imune em julho, em uma publicação na revista The Lancet. Mesmo assim, os voluntários ainda não teriam sido expostos ao novo coronavírus para checar a imunidade contra a COVID-19. Essa foi a primeira vacina chinesa a realiza testes em humanos, em março, porém as outras concorrentes – como a Sinovac e a Sinopharm – a ultrapassaram na transição para a fase 3. O produto, primeiro patenteado pelo governo chinês, está no processo de testes internacionais.

Por último, a Rússia é outro país que integra a participação na corrida pela vacina contra o novo coronavírus. Chamada de Sputnik V, a imunização faz referência à corrida espacial entre a Rússia e os Estados Unidos na Guerra Fria. Sputnik I foi o primeiro satélite a orbitar a Terra, lançado pelos soviéticos em 1957.  O presidente, Vladimir Putin, anunciou no início de agosto o registro da vacina contra o coronavírus. Porém, isso tem sido motivo de questionamento e polêmica entre diversos especialistas. A pesquisa, que teve caráter militar, foi custeada por 4 bilhões de rublos – o equivalente a R$300 milhões – pelo Fundo de Investimento Direto da Rússia e é desenvolvida pelo Instituto Gamaleya. A polêmica se relaciona com o seu cunho extremamente secreto, em colaboração direta do Ministério de Defesa Russo. O que muitos especialistas criticam é o fato de, após o término da fase 1, os russos terem pulado diretamente para a fase 3 – e ao invés de fazerem amplos testes, querem começar a vacinação em massa e acompanhar os resultados. Ainda assim, o país não precisaria da aprovação da OMS para registrar a vacina – só o que acontece é que as entidades costumam pedir uma pré-qualificação, como um selo de qualidade da organização. No dia 4 de setembro foi publicada pela revista Lancet a pesquisa que a classifica como segura e eficaz. A vacina russa estaria no processo das que estão em testes no Brasil. Entenda mais sobre isso a seguir. 

Brasil no epicentro dos testes

O Brasil é um dos países mais afetados pelo novo coronavírus: está em 2º lugar no ranking da Covid-19, com mais de 3 milhões de casos e 122 mil mortes. Esse é o principal fator que nos torna um lugar para as testagens clínicas de vacinas em fase 3. Atualmente, são quatro vacinas em vigência de testes no nosso território.

A vacina de Oxford/AstraZeneca, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz; a Sinovac, da China, em conexão com o Instituto Butantan; a Pfizer/BioNTech, com testes em São Paulo e Salvador; e a Jansen-Cilag, da farmacêutica americana Johnson & Johnson, ainda em fase 2 (vetor viral não-replicante), foi aprovada pela Anvisa para a realização de testes clínicos de fase 3 no Brasil. O governo do Paraná também estaria no processo de acordo com a vacina Sinopharm e Sputnik V.

Em relação à aquisição após o encerramento dos testes, segundo Ricardo Heinzelmann, preocupa o fato do custo unitário ser elevado. “Podemos ter no Brasil o cenário de aquisição para as camadas sociais da população de maior poder de compra, adquirindo direto no setor privado, e uma importante parcela da sociedade sem condição de compra ter atraso no recebimento desta vacina por falta de orçamento do poder público”, alerta.

Nesse sentido, o especialista salienta a importância de investimentos no Sistema Único de Saúde (SUS), o qual garante que a situação brasileira não seja pior, além de ser o responsável por lidar com quaisquer problemas em relação à vacina posteriormente à distribuição – como já ocorreu antes. “Temos um governo federal que não conduz de forma adequada toda esta situação. Não há um plano nacional construído de forma intersetorial e em colaboração com estados e municípios para enfrentamento à pandemia. Não há um conjunto de ações articuladas de políticas das áreas de assistência social, educação, saúde, emprego e renda, coordenadas pelo governo”, destaca.

Segundo Heinzelmann, a pandemia demonstrou que emergências de saúde pública podem afetar a economia mundial e uma das principais consequências disso é a revisão de orçamentos voltados para o estímulo à pesquisa no campo de infectologia e virologia. Estímulos esses, que em conjunto a uma fala clara por parte das autoridades nacionais – ao enfatizar medidas de proteção e distanciamento – e investimento na rede pública de saúde, teriam salvado muitas vidas.

A corrida pelas vacinas continua e o futuro é incerto. Mas a esperança fica de que, após essa pandemia, ocorra uma mudança de conceitos em toda a sociedade.

Expediente

Repórter: Esther Klein, bolsista de Jornalismo

Ilustradora: Beatriz Dalcin, bolsista de Publicidade e Propaganda

Mídia Social: Nathalia Pitol, bolsista de Relações Públicas

Editora de Arte: Marcele Reis, bolsista de Publicidade e Propaganda

Editora de Produção: Melissa Konzen, bolsista de Jornalismo

Editor Chefe: Maurício Dias, jornalista


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