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Efeitos colaterais do distanciamento físico na saúde mental



Além de transformar a rotina, isolamento pode causar ou agravar problemas psicológicos

Confinamento, distanciamento social, perda da rotina, redução nas atividades físicas. Em 2020 vimos nossa realidade ser transformada pela pandemia do novo coronavírus. Doença contagiosa e letal, sem vacinas e tratamentos eficazes até o momento, a principal recomendação dos órgãos de saúde é a quarentena. Além disso, ela também é importante para evitar a contaminação em massa e a superlotação dos hospitais. 

O vírus SARS-CoV-2 pode causar diversos danos em nosso corpo, principalmente no sistema respiratório. Mas, para além dos sintomas físicos, os efeitos da covid-19 e da quarentena podem acarretar problemas psicológicos. O grande número de mortos pela pandemia, o distanciamento social, o medo de contrair o vírus, o luto, a crise financeira, a falta de suprimentos, o excesso de informação e o tédio são alguns dos estressores que podem causar ou agravar doenças mentais. 

A curto prazo as consequências começam pelo aumento do estresse. O que é normal numa situação como a atual. Mas o professor do Departamento de Neuropsiquiatria da UFSM, Vitor Crestani Calegaro, explica que algumas pessoas podem ter um comprometimento psíquico além do esperado, que pode ocasionar transtornos como o de estresse agudo, de adaptação, de ansiedade, do pânico, aumento do consumo de substâncias, depressão, entre outros.

 Já a longo prazo o doutor destaca que pode haver um cenário mais otimista e um mais pessimista. Mesmo assim, em ambos é esperado um aumento nos transtornos mentais. “Se houver realmente um grande número de mortes, somado ao isolamento social, à crise econômica, mais a questão das revoltas que podem surgir, tanto revoltas populares, quanto a questão da agressividade doméstica, violência urbana, pode aumentar o número de assaltos. Isso tudo pode vir como consequência social da pandemia, dependendo da maneira como ela for conduzida ao longo do tempo no país”, declara. 

Importância de manter a rotina

O distanciamento do ambiente escolar ou de trabalho e, por consequência, o aumento do tempo em casa provocou duras alterações em nossa rotina. Diante de uma pandemia e as várias sensações que ela desperta, tentar seguir a vida normalmente pode ser uma tarefa difícil. Se manter os velhos hábitos já não é mais possível, criar novos é uma boa alternativa. 

“Quando a gente não tem uma organização da rotina, é mais fácil também a gente se desorganizar em termos emocionais. Manter uma rotina também mantém uma certa estrutura na nossa vida. Nos mantém ocupados, com uma função, e isso é importante”, observa. O psiquiatra recomenda a adaptação a um cotidiano temporário, novas formas de trabalho e de lazer e, futuramente, se for o caso, retornar aos hábitos anteriores. 

Enquanto alguns podem ter dificuldades em realizar suas atividades, outros as utilizam para ocupar totalmente seu tempo. O médico afirma a importância de manter o trabalho de segunda à sexta, sem se sobrecarregar, com períodos para descansar e fazer atividades de lazer. Criar uma rotina equilibrada ajuda a reduzir a ansiedade provocada pela quebra dos hábitos cotidianos. 

Outra recomendação do professor para mantermos a saúde mental durante a quarentena é quanto à necessidade que temos de informação e ao acesso dela que fazemos de maneira excessiva. Ele sugere assistir ao noticiário ou ler um jornal uma vez por dia, já que a abundância de informações talvez não nos deixe mais preparados para lidar com a situação, mas sim cause um aumento no nível de estresse e ansiedade. 

Equilíbrio emocional em tempos de crise

“Vai ter um antes e um depois, com certeza”, enfatiza o psiquiatra Vitor, a respeito do desenvolvimento de problemas psicológicos ao longo do tempo devido à quarentena. Para ele, é possível que, quando a pandemia do novo coronavírus passar, nossa sociedade tenha que lidar com um outro grande problema: os transtornos mentais que surgiram a partir disso na vida de muitas pessoas. 

Embora as perspectivas sejam de aumento do estresse, desenvolvimento de sintomas e transtornos mentais, o professor comenta maneiras para enfrentar o momento atual e preservar o equilíbrio emocional. Algumas delas são: viver o presente sem se prender a pensamentos negativos do que foi perdido durante a pandemia; focar em novas habilidades e no desenvolvimento criativo; colocar em prática atividades que já havia planejado mas não tinha tempo para realizar; manter uma regularidade de sono; praticar exercícios físicos; buscar se aproximar afetivamente das pessoas e, mesmo que isolado fisicamente, manter a comunicação. 

Nesse âmbito comunicacional, as redes sociais e, principalmente, as chamadas e conferências em vídeo ganharam destaque durante o surto do novo coronavírus. A doutora em Comunicação e professora da UFSM, Eugenia Barichello, ressalta como a utilização de vídeos e a possibilidade de ouvir a voz do outro têm sido aliados neste período de distanciamento físico. 

“É possível observar que em isolamento temos mais tempo, as conversas são mais longas e conseguimos sentir o outro pela voz, além das expressões e gestos”, destaca. Ela também compartilha sua experiência durante o período, com participação mais intensa em grupos online de amigos, ex-alunos, colegas e familiares, além de conversas mais longas e aprofundadas. 

E as videochamadas não só auxiliam nas relações afetivas como também permitem adaptarmos uma rotina escolar ou profissional. Elas desempenham papel fundamental para que escolas, universidades e empresas funcionem, mesmo que a distância. “Estas interações já ocorriam muito nas interações afetivas, e estavam sendo cada vez mais introduzidas no mundo do trabalho. O que a pandemia fez foi acelerar as possibilidades, potencializar o uso destas interações por não haver alternativa e acredito que esta mudança de patamar do uso de tecnologias de informação e comunicação veio para ficar e evoluir”, complementa Eugenia.

A saúde mental quando faltam recursos básicos mínimos 

Como se preocupar com o equilíbrio emocional quando a geladeira está vazia? Quando as contas chegam e a crise escancara, mais uma vez, a desigualdade social de nosso país? Como “ficar em casa” quando não se tem uma? 

Se as angústias sobre o futuro afligem a muitos e são causadoras de doenças mentais, a realidade daqueles que vivem o problema no presente pode ser ainda mais dura. Eles já estão no meio da situação estressora e precisam lidar com ela no momento. “É difícil uma pessoa pensar em realização profissional quando ela não tem o que comer”, enfatiza o psiquiatra Vitor Calegaro. 

A melhor estratégia de saúde mental para ser usada com essa população, segundo ele, viria a partir das instituições e do governo. “É uma coisa política, estratégica, de manejo da pandemia. O governo precisa ter um jeito de lidar com essas pessoas justamente para que elas tenham um conforto mínimo de subsistência, que não precisem entrar em desespero pela falta de alimento, cometer delitos em função disso”, complementa.

Nesse sentido, também se pode buscar ajuda de grupos, organizações que promovem manifestações de solidariedade, que fazem doações…o que não é recomendado é que, em meio à crise, essas pessoas se isolem ainda mais. Dividir as preocupações possibilita procurar e encontrar soluções em conjunto. 

Pesquisa de monitoramento de problemas psicológicos durante a pandemia

A evolução de sintomas de estresse, ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático durante a pandemia é monitorada por um grupo de pesquisa em psiquiatria da UFSM, coordenado pelo professor doutor Vitor Calegaro. O estudo CovidPsiq é realizado por meio de questionários online que podem ser respondidos por qualquer pessoa que more no Brasil, ou por brasileiros que residam no exterior, desde que tenham mais de 18 anos e acesso à internet. 

Os questionários serão preenchidos em quatro etapas, no decorrer de seis meses. A partir das respostas a equipe observará se existe o aumento dos problemas de saúde mental ao longo do tempo e quais são os grupos mais vulneráveis a isso. Após essa identificação e dos fatores que estão relacionados, poderão ser pensadas estratégias eficazes para o manejo da situação em nível coletivo, explica Vitor. 

O grupo de pesquisadores é formado por 15 acadêmicos do curso de Medicina, quatro psiquiatras, dois psicólogos, um educador físico e um matemático estatístico. Bianca Lorenzi Negretto é aluna do 11º semestre de Medicina e bolsista do projeto. Ela avalia a sua participação como “uma oportunidade de experiência para a vida e treinamento para o futuro”. Quase no final da graduação, sua principal opção de especialidade é na área da psiquiatria. 

Para que a pesquisa tivesse adesão nacional, Bianca conta que o grupo entrou em contato com pesquisadores de diferentes partes do país, a fim de buscar respostas que realmente representem a maior parcela possível da população. Dentre os problemas apontados por ela estão a dificuldade em atingir um público mais diversificado, com adesão de pessoas que não estejam em suas redes de contatos, e a necessidade de habilidade digital que a pesquisa exige, o que faz com que informações de parcelas importantes da população não estejam presentes no estudo. 

A primeira fase da pesquisa já foi concluída e alguns resultados puderam ser observados. Dos respondentes, 85,9% afirmaram realizar a quarentena e 14,1% não. Quando questionados sobre a saúde mental durante esse período de distanciamento físico, 18,31% assinalaram “piorou muito”; 46,61% marcaram a opção “piorou um pouco”; 27,34% “nem piorou, nem melhorou”; 5,86% “melhorou um pouco”; e 1,88% relatou que “melhorou muito”. 

Reportagem: Melissa Konzen, acadêmica de Jornalismo

Ilustrações: Beatriz Dalcin, acadêmica de Publicidade e Propaganda

Mídias Sociais: Nathalia Pitol, acadêmica de Relações Públicas

Edição: Maurício Dias, jornalista


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