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Me vacinei, e agora?

Arco responde questões sobre a imunização e o futuro da pandemia



Posicionado em quarto lugar no ranking entre países que mais aplicaram doses no mundo, o Brasil já conta com mais de 153 milhões de pessoas vacinadas pelo menos parcialmente contra Covid-19. Isso representa 71% da população brasileira, segundo dados desta terça-feira (26/10) do Mapa de Vacinação contra Covid-19 no Brasil, do G1 – o qual é baseado em informações do Consórcio de Veículos de Imprensa, com dados retirados de secretarias estaduais de saúde. Quando se trata de imunização completa, 52% da população já tomou as duas doses ou a dose única da vacina. Essas progressões colocam o Brasil em 62º lugar no ranking mundial referente à classificação proporcional, ou seja, considerando a quantidade de doses aplicadas em relação à população total de um país, segundo a Agência CNN.

Apesar dos avanços nas campanhas de vacinação e da consequente maior flexibilização das medidas de segurança em diversos estados brasileiros, muitas dúvidas permanecem sobre o contexto atual e o futuro da pandemia. Transmissão pós-vacina, passaporte vacinal, vacinação de crianças, dose de reforço, fim da pandemia: a Arco conversou com o professor do Departamento de Saúde Coletiva da UFSM, Marcos Antônio Lobato, para tirar essas dúvidas.

Transmissão pós-vacina

Após a vacinação, seguimos transmitindo? Segundo Lobato, a resposta é sim: “São poucas as vacinas que conseguem nos impedir de transmitir. Por exemplo, a vacina da gripe não nos impede totalmente de contrair ou transmitir a doença. Isso já conhecido na ciência: não é sim ou não, não é branco ou preto. O fato de não haver essa certeza acontece por um motivo semelhante ao de algumas pessoas conseguirem resistir ao vírus, ou transmitirem menos, ou mal adoecerem: porque depende da resposta imune de cada pessoa. Mas, quando temos uma exposição à vacina, isso gera uma resposta imune melhor. O que acontece é que pessoas vacinadas, quando contaminadas, pela memória imunológica recorrente da imunização, têm uma resposta mais rápida ao vírus. Mas existe a possibilidade de nunca deixarmos de transmitir. Na verdade, é essa a expectativa da maioria dos cientistas do mundo e da própria OMS [Organização Mundial de Saúde].”

Vacina x imunidade natural

A imunidade natural se refere à que é construída a partir de uma contaminação prévia. No caso do coronavírus, ela era usada como uma justificativa para negacionistas da vacina relativizarem as campanhas e promoverem que a “imunidade de rebanho” só seria atingida a partir de uma infecção em massa. Porém, segundo estudo norte-americano publicado no CDC (Center for Desease, Control and Prevention), a possibilidade de uma reinfecção do vírus em casos de não vacinados é duas vezes maior do que entre as pessoas totalmente imunizadas pela vacina. 

Lobato explica: “O vírus precisa entrar no nosso corpo para manter a sobrevivência da espécie dele, e nós precisamos evitar que ele nos cause mal. É uma briga. Quem tem as melhores estratégias sobrevive. Os vírus têm essas estratégias envolvidas em enganar o nosso sistema imunológico, mas as vacinas são desenvolvidas estrategicamente para evitar isso. Os desenvolvedores das vacinas procuram características que possam estimular a nossa imunidade de maneira melhor, para [caso haja uma contaminação] provocar mais resposta imune. Por isso, quem é vacinado tem menos chance de ter a doença e de ‘repetir’ a doença, em comparação a quem não é vacinado, e tem o que chamamos de “imunidade natural”, por já ter contraído a doença. E daí, de onde vem a imunidade rebanho? Não vem. A imunidade natural com esse vírus não funcionou, se não o grande experimento natural da história do Brasil, que foi Manaus, não teria acontecido.

Vamos imaginar que temos um sistema de vigilância para detectar [o vírus]. A ‘arma de defesa’ é a mesma, mas, com a vacina, colocamos mais um ‘sensor’ – e, assim, a resposta é mais rápida.”

Vacinação de crianças

No Brasil, a vacinação de crianças menores de 12 anos ainda não foi permitida – como em alguns países como China e Chile. Lobato comenta:  “A regra geral é que, primeiro, testamos as vacinas em adultos, depois em idosos e, depois disso tudo, aplicamos nas crianças. Mas temos que ponderar o risco-benefício: com a Covid-19, nós descobrimos que as crianças têm muito menos probabilidade de adoecer gravemente do que todos os outros grupos etários. Isso nos dá mais tempo, eticamente falando, de estudar mais os efeitos possíveis nas crianças antes de aplicar em massa. O que não era o caso dos idosos: nós tivemos que ofertar antes, porque eles eram o grupo mais frágil, então a chance de ter danos colaterais, o risco disso, era compensado pelo benefício potencial.

E tivemos êxito, porque mesmo tendo menos pesquisas do que seria o ideal, as respostas foram boas entre os idosos – isso levando em conta a experiência que já tínhamos com outras vacinas. Não somos novatos nesse aspecto.”

Passaporte Vacinal

A implementação da exigência do passaporte vacinal na entrada de algumas atividades de lazer e estabelecimentos no Rio Grande do Sul aconteceu no início de outubro. Mas será que essa medida, que já havia sido adotada em outros estados, como em São Paulo, tem eficácia assegurada quando se trata de reduzir os riscos da flexibilização de tais atividades?

Nesse sentido, Lobato explica: “Existe uma certa controvérsia em relação a isso, mas, por princípio, o uso do passaporte vacinal faz todo o sentido. Se pensa assim: ‘qual é o objetivo de fazer a vacinação?’, é que toda a população se vacine e isso garanta que todo o espaço que frequentamos esteja mais protegido. Isso porque as pessoas irão contrair e transmitir menos, assim como ter menos probabilidade de adoecer – e estaremos protegidos contra o adoecimento grave e a morte. Se estamos entre um grupo que não está totalmente vacinado, teremos mais pessoas doentes circulando – mesmo entre as vacinadas -, carregando uma carga viral maior, e mais pessoas com chance de adoecer gravemente. 

Então, separar esses grupos e dizer que quem é vacinado tem mais liberdade de circular ou pode acessar espaços mais confinados, como teatros e cinemas, faz sentido. É como se a gente criasse artificialmente uma comunidade 100% coberta pela vacina. De certa forma, também estimula a vacinação para poder participar. É como todo mundo andar com cinto de segurança nos carros: eu estou me protegendo, mas estou protegendo o outro também.

Mas, ainda assim, tem que haver alguns cuidados, como todo mundo estar de máscara e o ambiente estar com muita ventilação.  Do ponto de vista coletivo, já tivemos muitas flexibilizações. Isso aconteceu porque tem mais gente vacinada. Parar o uso da máscara é o último passo, quando já tivermos o que chamamos de imunidade coletiva.  Isso significa que a pessoa que não está protegida, ao estar no meio de outras vacinadas, conta com uma barreira de proteção, que impede que essa pessoa tenha contato com outros não vacinados. Esse é um dos princípios da vacinação que gera imunidade coletiva. Não há a necessidade de se ter 100% de cobertura da população para isso.  Nos fenômenos de epidemia de transmissão que são com doenças como Covid-19 – doenças de transmissão ampla -, quando não conseguimos identificar exatamente quem transmitiu primeiro, precisamos manter alguns tipos de cuidado até atingirmos uma boa cobertura plena de vacinação em toda a população, pensando coletivamente.” 

Dose de reforço

A aplicação das doses de reforço em idosos e profissionais da saúde já é uma realidade no Brasil. Mas será que, no futuro, ela será aplicada em toda a população? Lobato diz que: “É provável, eu não tenho certeza disso ainda. Com mais certeza, mais evidências, os idosos e as pessoas com algum comprometimento da imunidade têm de receber. Mas, daí, o princípio é outro: a resposta imunológica dessas pessoas à vacina é menor do que das pessoas que têm imunidade plena – jovens, pessoas que não tomam medicamentos que diminuem a imunidade. E o reforço entre pessoas que têm imunidade plena e que são trabalhadores da saúde é justificado porque a exposição ao vírus no ambiente de trabalho ainda é muito grande, mesmo que não seja tão alta como antes. Então faz sentido o reforço para trabalhadores de saúde. E depois, é possível que sim, o resto da população toda. Mas isso não está confirmado, porque tem uma coisa para se ponderar, que é: não é melhor termos todos, no mundo todo, vacinados do que algumas pessoas com três doses? Inclusive tem um questionamento, até da OMS, de estarmos pensando na terceira dose enquanto há alguns países que não conseguiram vacinar nem 10% de sua população. E isso nos deixa em risco: entre essa população que não foi vacinada, onde o vírus ‘original’ ainda circula, pode surgir uma nova variante, inclusive que seja resistente às vacinas – que hoje estão nos protegendo. Isso é uma discussão de saúde global. Pandemias são coletivas, as decisões têm que ser coletivas.”

O fim de pandemia

Em relação ao fim da pandemia, Lobato ressalta: “A classificação de pandemia é feita pela Organização Mundial da Saúde. É a OMS que vai declarar o fim da pandemia. Existem parâmetros técnicos para isso: quando tivermos uma estabilidade e uma queda importante do número de casos, quando chegarmos perto do fim da transmissão, quando tivermos algo que é chamado um estado endêmico. A pandemia é um estado epidêmico, que significa que os casos continuam crescendo ao longo do tempo e que, se liberamos o comportamento para uma normalidade, eles irão aumentar – então temos que estar controlando.  A pandemia terminará quando nós chegarmos em uma dimensão de casos leves, graves e número de óbitos que seja estável, mas não existe um parâmetro de quantidade certo, ainda precisamos de um tempo para entender isso. Podemos projetar: se chegamos nos números de agora com cerca de 50% das pessoas com as duas doses, então devemos esperar ter um número muito melhor quando estivermos perto de 100% das doses”.

Expediente

Repórter: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Ilustrador: Noam Wurzel, acadêmico de Desenho Industrial e bolsista

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Caroline de Souza, acadêmica de Jornalismo e voluntária; e Martina Pozzebon, acadêmica de Jornalismo e estagiária

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

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