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Driblando o preconceito

Paulistas criam programa de rádio voltado para a inserção da mulher no esporte



 

O esporte, desde a Grécia Antiga, era considerado uma atividade “para homens”. Quando falamos de futebol, então, essa vinculação com o gênero masculino desponta ainda mais forte nos discursos, sejam eles reproduzidos na mídia ou em uma conversa de bar. Entretanto, para “ganhar de virada” do preconceito, cinco paulistas se uniram para criar o “Dibradoras”, blog e programa de rádio semanal voltado para ampliar as experiências de mulheres que gostam de esportes.

 

O primeiro programa foi ao ar na Rádio Central 3, de São Paulo, em junho de 2015, com a cobertura da Copa do Mundo de Futebol Feminino. A ideia era de que o programa durasse apenas seis semanas, porém, polêmicas no mundo dos esportes fizeram com que a parceria das “Dibradoras” com a Rádio Central 3 se fortalecesse. Uma dessas confusões envolveu a saltadora Ingrid Oliveira, que foi taxada de “musa do Pan” após postar uma foto em uma rede social. As “Dibradoras” querem mostrar que isso ocorre sempre com mulheres no mundo do esporte, já que elas são vistas como ‘musas’ e não como atletas.

 

A equipe é formada pela publicitária Angélica Souza, as jornalistas Renata Mendonça e Roberta Nina, a designer Nayara Perone e a internacionalista Júlia Vergueiro, que produzem os podcasts semanais, além de reportagens e entrevistas para o site do programa. A revista Arco conversou com as integrantes para entender melhor a proposta do “Dibradoras” e abordar questões relacionadas à mulher no jornalismo esportivo.

 

Como surgiu a ideia de criar o “Dibradoras”?

O “Dibradoras” tinha a proposta de oferecer oportunidades para mulheres que gostam e acompanham o futebol. Esse foco não se perdeu, mas foi ampliado. No início, iríamos organizar eventos, encontros e viagens para a mulherada que curtia futebol. Realizamos encontros em parceria com a marca Penalty, no Morumbi, e também fizemos o “Majestosas”, no Pacaembu, quando reunimos as torcedoras de São Paulo e Corinthians para assistirem ao clássico juntas, no Dia Internacional da Mulher.  Mas além dos eventos, partimos para o conteúdo e, além de falar do futebol feminino, abrimos espaço para falar de mulheres de diversas modalidades e áreas de atuação que lutam por seu espaço no meio esportivo.

 

Qual é o principal objetivo do “Dibradoras”?

Nosso principal objetivo é dar voz e espaço às mulheres no meio esportivo, pois isso é algo que elas não têm em outros canais. São mulheres produzindo conteúdo esportivo sob o ponto de vista feminino para dar destaque ao que geralmente passa batido na maioria dos veículos de mídia esportiva, que são predominantemente masculinos e que tratam as mulheres sempre pelos [termos] “musa” disso, “musa” daquilo, sempre objetificando-as. Nosso canal é um espaço livre, onde homens e mulheres podem interagir e se inteirar sobre os feitos das mulheres dentro do esporte, com o intuito de dar mais visibilidade e valorizar suas lutas, esforços e vitórias. Como mídia independente, queremos dar voz e vez às atletas que dedicam grande parte de suas vidas ao esporte e pouco recebem em troca. Combatemos o sexismo, o preconceito e a discriminação em qualquer âmbito da sociedade. 

 

Em cima: Angélica Souza, Nayara Perone e Roberta Nina Fileira de baixo: Renata Mendonça e Júlia Vergueiro.

Como vocês veem a inserção da mulher no jornalismo esportivo?
É preciso dizer que já evoluiu, mas está bem longe daquilo que nós gostaríamos de ver. As redações são majoritariamente masculinas – existem mulheres, mas elas ainda são uma minoria gritante, numa relação em que homens compõem 80% das redações esportivas e as mulheres são 20% ou nem isso. Na televisão, as mulheres já conquistaram espaço para serem apresentadoras ou repórteres de campo, mas ainda é muito raro ver mulheres comentando jogos, da cabine, ao lado do narrador, ou até em programas de mesa redonda. Muito mais raro do que deveria ser, se considerarmos que as primeiras mulheres começaram a atuar como repórter de campo na década de 1970, com a Gegê, que foi uma das primeiras mulheres a atuar no ramo. Quarenta anos depois, esperávamos que isso já não fosse mais tabu, mas infelizmente é. E não é por falta de mulheres competentes na área, mas por falta de ousadia dos meios de comunicação, ainda muito influenciados pelos homens que os dominam.

 

As pautas que vocês priorizam são relacionadas apenas às mulheres nos esportes? Por quê?

Sim, priorizamos divulgar os feitos das mulheres dentro do esporte, porque poucos canais o fazem de fato. O futebol feminino é nossa bandeira maior, mas também estamos de olho nas outras modalidades e nas mulheres que fazem a diferença dentro do esporte. Elas ainda são privadas de muitas coisas e não competem de igual pra igual com os homens. Eles têm apoio, reconhecimento, premiações maiores e acesso livre a qualquer ambiente. Elas ainda são privadas disso tudo.

 

Vocês sofrem ou já sofreram algum tipo de preconceito por falar de futebol?

 Para mulheres que gostam de futebol, o preconceito é constante. Cada comentário que você faz em uma mesa de bar sobre um jogo que está passando na TV recebe em troca um olhar desconfiado dos homens, antes de eles começarem sua tradicional “chamada oral” para ver se entendemos mesmo de futebol. “Vai, então me diz o que é impedimento?”;“Fala a escalação do seu time”, entre outras perguntas que jamais seriam feitas a homens. Até concluírem: “Olha, mas você realmente entende de futebol”, como se isso fosse algo de outro planeta, ou como se mulheres não pudessem entender desse assunto.

 

De que forma vocês lidam com isso?

A gente combate o preconceito em todas as frentes que atuamos. Não queremos impor nada à sociedade ou aos preconceituosos, queremos apenas mostrar o quanto essa segregação faz mal e não tem sentido algum. Recentemente gravamos um vídeo super descontraído que aborda justamente isso: o preconceito que as mulheres sofrem ao falar que gostam e entendem de futebol. Os homens – em sua maioria – ficam espantados e nos fazem responder diversas perguntas, como se nos colocassem em xeque. E aí perguntamos: qual a finalidade disso? Por que mulher não pode gostar e entender tanto de futebol quanto os homens? É um preconceito ridículo que nem deveria existir nos dias de hoje.

 

Reportagem: Marina Fortes
Fotografias e Vídeo: Arquivo Pessoal

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