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Contracultura sobre quatro rodas



Desafios para a prática de skate em Santa Maria

Era um domingo de sol qualquer na cidade rodeada por morros. As ruas no entorno do Calçadão, que costumavam ser movimentadas, estavam vazias. Entretanto, em alguns aspectos, nada mudou em 2020. Ao caminhar pela Venâncio Aires durante o entardecer, ainda é comum ouvir o ruído de rodinhas no asfalto e o som de palmas e assobios. Os skatistas atraem olhares dos cidadãos por mostrarem suas habilidades no concreto. 

Bancos, corrimãos, paredes, muros e escadas. É difícil para quem vive na correria encarar esses elementos urbanos como desafios. Em contraponto, os surfistas de asfalto se reinventam e despertam um olhar diferenciado em relação ao que a cidade oferece. Os “picos” – termo informal para lugares específicos no espaço público – dão o tom da “dança corporal”. Com diversas modalidades, a rua é a que mais se sobressai por ser uma prática de skate mais democrática. Entretanto, a falta de estrutura adequada na cidade desencadeia uma série de problemáticas que envolvem os âmbitos culturais e econômicos do esporte.

Afinal, qual o melhor local para a prática do skate em Santa Maria?

Surfe de asfalto: as origens

O skatista é aquele que se equilibra em uma tábua de madeira com rodinhas. O “surfe de asfalto” começou na década de 1950, na Califórnia, Estados Unidos. Nos dias em que a maré não estava apropriada ao surfe, os praticantes resolveram adaptar as pranchas às ruas. Em 1960, o enfoque foi o movimento de contracultura, que questionava os valores e as condutas conservadoras. Por conta disso, surgiu um movimento que propagou liberdade de expressão. Sua moda tornou-se manifestação política e referência, em específico contra a Guerra do Vietnã. 

O primeiro vencedor do campeonato de Hermosa Beach em 1963, na Califórnia, Larry Stevenson, foi o responsável pelo kicktail, pequenas elevações nas partes dianteira e traseira da prancha, mais conhecida no mundo do skate como shape. O invento facilitou as manobras e conferiu a Larry o título de “pai do skate”.

Considerado uma prática moderna, o skate chegou ao Brasil nos anos 1960 por influência da revista Surfe. Os brasileiros usavam uma prancha com rodinhas de patins de borracha ou de ferro e imitavam manobras de surf ao descer ladeiras. Em pouco tempo a prática se adaptou aos grandes centros, e assim surgiu o street skate. Sérgio Fortunatto de Paula, Sérgio Negão, ficou em terceiro lugar em 1979, durante o 1º Campeonato de Prancha, em Suzano, cidade de São Paulo. Ele se destacou na modalidade vertical, assim como o carioca Bob Burnquist.

Perspectivas locais

Cidades como Porto Alegre investiram em lugares para a prática do skate, e a pista da Orla do Guaíba deverá ser uma das maiores da América Latina. Já os moradores de Santa Maria não dispõem de um ambiente adequado para treinar as modalidades verticais.

No município, existem alguns locais simbólicos com certa tradição da prática do skate. A mini-hamp do Centro Desportivo Municipal, half-ramp no Ginásio Oreco são exemplos dos que foram abandonados. Em contraponto, na Praça Céu na Santa Marta, há uma mini-hamp em condições de uso para iniciantes. 

Entretanto, há perspectiva de criação de uma pista multiuso no Parque Itaimbé. O projeto da Prefeitura existe e a licitação já ocorreu (29/2020). A proposta prevê a revitalização do espaço e a construção de uma pista de multiuso para esportes sobre rodas. A empresa vencedora da licitação é a K. A. J. Materiais de Construção Ltda, de Taquara. Como o ano foi de eleições, a execução não ocorreu por impedimento legal. Por outro lado, a atual gestão foi reeleita.

O canoísta olímpico Givago Bitencourt Ribeiro, 33 anos, vereador eleito pelo PSDB e cotado para a Secretaria de Esportes, comenta que existe uma possibilidade real de construção da pista de skate no Itaimbé mesmo diante das manifestações contrárias. 

Por que o Itaimbé?

O diretor de Projetos no Instituto de Planejamento de Santa Maria (IPLAN), Fábio Nunes Prado Lima, reforça que o Itaimbé é importante pela localização e por ser um marco referencial urbano. É o único parque público no município, construído sobre a área do leito e vale do arroio Itaimbé, afluente do Cadena. Quando projetado em 1980, o parque previa espaço para a prática de esporte sobre rodas, no chamado Setor 1, com pista de patinação e pista de bicicross. 

O arquiteto Fábio, que também é skatista, ressalta que “embora a denominação seja de uma ‘pista para skate’, irá contemplar todos os esportes sobre rodas, como bicicletas e patins, além de adaptação para cadeirantes. Fábio reforça que estão previstas melhorias nas quadras esportivas e no entorno do Centro de Atividades Múltiplas Garibaldi Poggeti, popularmente conhecido por ‘Bombril’, que totalizam mais 13 mil metros quadrados de área a ser revitalizada. 

Segundo a Assessoria de Imprensa da Prefeitura, o investimento previsto por parte do Executivo é de R$ 474.972,66 e as obras devem durar em torno de 120 dias após a assinatura da ordem do serviço. Já a Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos alega que o projeto tem enfoque em calçadas e na iluminação do Itaimbé a partir da Rua Silva Jardim até a região do ‘Bombril’, para garantir segurança e acessibilidade aos moradores e usuários do espaço público.

Sobre a escolha do Itaimbé, Fábio conta que o espaço foi definido em reunião com o presidente do IPLAN, Vilson Serro, e com representantes da Associação de Skatistas de Santa Maria, Carlos Alexandre, Franco Schneider e a estudante de Arquitetura da Universidade Franciscana, Samanta Michelotti, Apesar disso, existe resistência por parte de alguns moradores, que já fizeram até abaixo-assinado pela revogação do projeto.

“A atividade é sobre rodas, além do uso do corpo, trabalha a mente dos seus participantes através da concentração, tomada de decisão, confiança, criatividade, determinação e segurança”, destaca o arquiteto. A necessidade de uma pista adequada é reflexo da quantidade de praticantes da modalidade que acabam se arriscando nas ruas movimentadas ou em áreas não permitidas.

Manobras de skate em imagens

Mente e corpo

Para o professor Marcos Vieira, egresso do curso de Educação Física da UFSM, o skate é “uma cultura de movimento que teve seu início nas ruas, nos guetos americanos e no desenvolvimento desse trajeto, houve uma transformação mercadológica no mundo inteiro”, ressalta. Somente em 2020 o Skate entrará em novas modalidades nas Olimpíadas, graças à difusão do que engloba o esporte e suas tendências. 

Em contraponto, Marcos diz que, no Brasil, existe uma estrutura precaríssima relacionada ao skate e outros esportes não-convencionais. Em relação à cultura de movimento, quanto mais pessoas usufruam, mais democrático será e irá incentivar aqueles que se sobressaem em suas habilidades no esporte. “Devido ao histórico de resistência e o surgimento do esporte na periferia, é por conta do preconceito que cega as pessoas. Nas relações que se estabelecem como uma questão de perspectiva cultural como a arte, dança, graffiti, moda, é visível sua influência cultural”, complementa Marcos. 

A economista egressa da UFSM, Viviane Silva, 25 anos, enfatiza que uma pista de skate pode gerar benefícios para a localidade. “É uma área da economia municipal, pois envolve a questão cultural. A rede do investimento nesse nicho é de se pensar a longo prazo”, explica. Em sua visão, uma pista de skate, em bom estado e em local seguro, atrai um certo público, que em sua maioria é jovem, favorece o bem-estar em âmbito cultural e esportista. Quando o município abre portas para esse tipo de investimento, é um incentivo da prática do esporte diminuir os índices de criminalidade e facilitar o jovem da periferia a ter acesso à uma futura profissão.

“Não necessariamente gera um retorno econômico, mas deixa de causar prejuízos sociais e, a partir disso, movimenta a economia. A Prefeitura pode usar o espaço para arrecadar fundos com licitações de venda em barracas de comida, por exemplo”, enfatiza Viviane. Ainda em suas palavras, o setor privado também pode ser uma alternativa a ser explorada quando o público é semelhante, como ações de marketing e relações públicas 

Expediente

Repórter: Juliana Brittes, acadêmica de Jornalismo da UFN, estagiária

Ilustradora: Beatriz Dalcin, bolsista de Publicidade e Propaganda

Mídia Social: Nathalia Pitol, acadêmica de Relações Públicas

Editora de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo 

Editor Chefe e supervisor dos estágios: Maurício Dias, jornalista


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