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Início do El Niño intensifica debates e coloca a comunicação de riscos e desastres no centro das estratégias de gestão



NASA Earth Observatory / Lauren Dauphin

Em junho de 2026, teve início o El Niño, fenômeno natural que se caracteriza pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico na faixa equatorial. Na interação com as mudanças climáticas, a exemplo do aquecimento global, os efeitos da sua atuação em todo o mundo tendem a ser mais intensos. A previsão é de que o El Niño atue no Brasil entre junho de 2026 e fevereiro de 2027, com potencial de ser o mais forte da história.

Isso sugere aumento nos riscos relacionados a incêndios na Amazônia e no Pantanal, altas temperaturas nas Regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, tendência de aumento relativo dos riscos de desastres de origem hidrológica e geológica na Região Sul, associados ao excesso de chuva, além de episódios de secas e alto risco de incêndios de vegetação nas Regiões Norte e Nordeste do país.

 

O El Niño precisa ser tratado como um alerta climático urgente

 

Segundo o secretário-geral da ONU, Antônio Guterres, o El Niño precisa ser tratado como um “alerta climático urgente”. Na mesma direção, a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, sinaliza que “Previsões sazonais antecipadas e alertas precoces são vitais para salvar vidas e atenuar os impactos em nossas economias e comunidades”. Diante desse cenário, são urgentes estratégias de preparação e resposta a eventos climáticos extremos que deverão ser empreendidas por países, estados e municípios a fim de proteger a população e evitar prejuízos.

 

Comunicação de risco em pauta

 

No Brasil, muitos movimentos para capacitação, qualificação e gestão integrada de riscos de desastres já estão sendo efetivados, principalmente pela rede da Defesa Civil nacional presente nos estados e municípios, além de universidades e outros órgãos públicos ligados aos governos federais e estaduais.

Dentre eles, eventos como seminários e congressos são espaços para o debate sobre temas relacionados à área, a saber: prevenção, vulnerabilidade, monitoramento, educação para redução de riscos e desastres, assim como comunicação de riscos. Tais ocasiões são importantes para reunir gestores públicos, pesquisadores, profissionais da proteção e defesa civil, organismos internacionais e comunidades para pensar, conjuntamente, os desafios.

 

Painel: “Comunicação de Risco” durante o 1º Congresso Internacional de Proteção e Defesa Civil. (Foto: Anselmo Cunha)

 

Em tempos em que a desinformação se prolifera nas redes sociais digitais provocando alarmismo, insegurança e medo, é imprescindível que a discussão sobre gestão de riscos e desastres considere o papel estratégico da comunicação em todas as fases do desastre. Afinal, a comunicação precisa ser clara, acessível e baseada na confiança, orientada para o enfrentamento do negacionismo climático e do El Niño. Para isso, a pauta que se impõe deve ser considerada contínua e permanentemente, não apenas como uma agenda sazonal. A comunicação de risco precisa ser reconhecida como parte estruturante das políticas públicas de proteção e defesa civil, e não acionada somente às vésperas ou quando um acontecimento já ocorreu.

 

Comunicação de risco é infraestrutura de proteção coletiva

Para Rosângela Florczak, professora e pesquisadora da PUCRS, que participou do painel Comunicação de Risco, no 1º Congresso Internacional de Proteção e Defesa Civil, “Os primeiros sinais de um El Niño potencialmente forte exigem preparação imediata. Na prática, isso significa tratar a comunicação de risco como infraestrutura de proteção. Não basta emitir alertas: é preciso garantir que eles sejam compreendidos, confiáveis e acionáveis. O roteiro é complexo, mas viável. Precisamos: (1) mapear vulnerabilidades comunicacionais nos territórios; (2) Identificar quem não recebe, não entende ou não consegue responder aos avisos; (3) Formar lideranças e mediadores locais antes da crise; (4) Cocriar protocolos simples com as comunidades; (5) Produzir mensagens acessíveis para diferentes públicos e situações;  (6) Monitorar dúvidas, boatos e desinformação em tempo real. Em eventos extremos, comunicar bem é parte da capacidade pública de salvar vidas.”

 

Não basta emitir alertas!


Em contextos de eventos extremos e desastres não basta emitir alertas. É preciso construir confiança antes da crise, traduzir informações técnicas em linguagem acessível, reconhecer vulnerabilidades dos territórios, fortalecer redes locais e criar condições reais para que as pessoas possam agir e se proteger. Alertas são indispensáveis. Mas, sozinhos, não bastam. Entre a informação emitida e a ação possível, existe um caminho que passa pela escuta, pela mediação, pela presença institucional, pelo enfrentamento da desinformação e pela construção cotidiana de vínculos de confiança.

 Relembre alguns eventos da área realizados nos últimos meses.

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