Por João Fortunato (Jornalista, Mestre em Comunicação e Cultura Midiática e especialista em Gestão de Crises e Media Training)
O caso Flávio Bolsonaro expõe como erros básicos de gestão de crise e comunicação pública podem transformar uma controvérsia política em um processo acelerado de desgaste de imagem.
Não são apenas as empresas que, muitas vezes, precisam adotar estratégias claras e bem definidas de gestão de crise para preservar sua reputação e garantir a continuidade de seus negócios. Personalidades públicas — artistas, políticos, acadêmicos e influenciadores — também podem enfrentar episódios que afetam profundamente sua imagem perante a Opinião Pública.
Nessas situações, é comum que a figura pública tente reduzir sua exposição midiática temporariamente, buscando diminuir a pressão e reorganizar sua comunicação. A estratégia procura criar tempo para reavaliar posicionamentos e construir respostas mais consistentes. Nem todos, porém, adotam esse caminho.
Esse parece ser o caso do senador Flávio Bolsonaro, do PL/RJ e pré-candidato na corrida para o Palácio do Planalto. Desde o início das revelações envolvendo o chamado “caso Master”, o parlamentar negou conhecer o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Posteriormente, vieram a público áudios divulgados pelo The Intercept e depois pelos demais veículos de imprensa, mostrando conversas telefônicas entre ambos sobre questões financeiras relacionadas, em tese, à produção do filme Dark Horse, obra inspirada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os valores mencionados nas reportagens — superiores a R$ 135 milhões — chamaram atenção pela dimensão considerada incomum para os padrões do cinema nacional. Questionado inicialmente, o senador negou a existência da conversa e criticou o jornalista responsável pela pergunta. Mais tarde, diante da divulgação dos áudios, retornou aos microfones para tentar explicar os fatos, mas encontrou dificuldades para sustentar a narrativa inicial.
Sob a ótica profissional da gestão de crise, percebe-se uma sucessão de erros estratégicos elementares. Em situações de alta exposição pública, especialmente envolvendo personagens já associados a episódios controversos – rachadinhas, milicias, mansões, chocolates etc.-, torna-se indispensável a existência de uma equipe especializada em gerenciamento de crise, preparada para: antecipar cenários; mapear vulnerabilidades; produzir respostas técnicas; reduzir danos reputacionais; alinhar discurso e narrativa.
Antes de negar publicamente qualquer informação, o ideal seria compreender exatamente quais documentos, provas ou registros estavam em posse da imprensa. Somente depois de avaliar o alcance da revelação e definir uma linha de comunicação coerente é que deveria ocorrer o pronunciamento público.
A crise ganhou novas proporções quando o senador admitiu ter visitado Daniel Vorcaro em São Paulo após a prisão do ex-banqueiro. Segundo sua versão, o encontro teria ocorrido para encerrar relações financeiras ligadas ao projeto cinematográfico. A declaração gerou novos questionamentos públicos, especialmente sobre a necessidade de um encontro presencial com um “personagem tóxico” para a sua imagem pública, diante da existência de meios digitais formais para esse tipo de tratativa.
Do ponto de vista técnico, o caso revela um erro clássico de gestão de crise: respostas fragmentadas, reativas e contraditórias. Em crises reputacionais, versões alteradas sucessivamente tendem a ampliar a desconfiança da Opinião Pública e aumentar o desgaste político.
Outro aspecto importante envolve a ausência de centralização da comunicação entre os envolvidos no projeto. Integrantes da produção do filme inicialmente negaram vínculos financeiros com Vorcaro, mas posteriormente admitiram sua participação como investidor. Esse desencontro de versões enfraqueceu ainda mais a credibilidade dos envolvidos.
Em gestão de crise, uma das primeiras providências recomendadas é reunir todos os atores diretamente ligados ao episódio para levantar integralmente os fatos conhecidos, avaliar riscos futuros e construir uma estratégia única de comunicação. O objetivo não é apenas responder à imprensa, mas evitar contradições públicas que alimentem novas ondas de desgaste.
A imprensa, exercendo seu papel de fiscalização e representação do interesse público, passou então a formular uma série de questionamentos decorrentes das revelações: Qual era exatamente a relação financeira entre os envolvidos? Qual o destino dos recursos mencionados? Por que houve negativas iniciais sobre vínculos posteriormente confirmados? Qual era a estrutura financeira internacional do projeto audiovisual? Existem impactos políticos ou eleitorais decorrentes dessas relações? Em crises dessa natureza, respostas superficiais costumam ser insuficientes. A Opinião Pública tende a exigir explicações coerentes, transparentes e verificáveis.
Outro fator que amplia a tensão é o fato de que as investigações ainda estão em andamento, com análise de materiais eletrônicos apreendidos pelas autoridades. Em situações assim, profissionais de gestão de crise trabalham não apenas com o impacto presente, mas também com cenários futuros e possíveis novas revelações.
Ao final, o caso reforça uma das principais lições da comunicação de crise contemporânea: em ambientes de hiperexposição digital e cobertura jornalística contínua, improviso, negação precipitada e contradições públicas costumam amplificar o dano reputacional. Transparência estratégica, preparação prévia e alinhamento narrativo seguem sendo pilares fundamentais para qualquer figura pública que enfrente situações de elevada pressão midiática.
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