Por Patrícia Milano Pérsigo (Professora Associada da UFSM, Doutora em Comunicação)
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) reforça a responsabilidade das organizações pela identificação, avaliação e prevenção dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. Embora esses fatores já estivessem compreendidos no gerenciamento dos riscos ocupacionais, a nova redação, em vigor desde 26 de maio de 2026, passou a mencioná-los de maneira explícita. Com isso, as organizações são convocadas a observar não apenas as condições materiais do ambiente, mas também a organização do trabalho e sobretudo a qualidade das relações que nele se estabelecem.
Esse movimento exige uma análise abrangente dos processos organizacionais, incluindo os canais de escuta, as práticas de gestão e os fluxos de informação que sustentam o cotidiano de trabalho. Esse cenário apresenta, simultaneamente, desafios e oportunidades. O principal desafio consiste em reafirmar a dimensão estratégica, transversal e relacional da comunicação organizacional.
Uma vez que a comunicação permeia todos os processos e relacionamentos de uma organização, não pode ser tratada de maneira fragmentada, meramente instrumental ou utilitária. A atualização da NR-1 contribui para evidenciar essa necessidade ao demonstrar que, no campo dos riscos ocupacionais, a comunicação pode ser tanto fator de prevenção quanto de produção ou agravamento de situações prejudiciais à saúde dos trabalhadores.
A falta de clareza na definição de funções, as solicitações contraditórias, o excesso de reuniões, a sobrecarga informacional, a ausência de feedback, a dificuldade de acesso às lideranças e o uso de linguagem discriminatória ou pejorativa são alguns exemplos de questões comunicacionais que podem contribuir para a ocorrência ou intensificação de fatores de risco psicossociais. Da mesma forma, informações incompletas, mudanças organizacionais conduzidas sem transparência e canais de denúncia que não asseguram confidencialidade podem gerar insegurança e silenciamentos.
Por outro lado, a atualização da NR-1 amplia as oportunidades de atuação das Relações Públicas em interface com diversas áreas. A capacidade de realizar a leitura estratégica de cenários, mapear públicos, diagnosticar relacionamentos e formular, executar e avaliar estratégias comunicacionais constitui uma contribuição relevante para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais e para a implementação das novas disposições da norma.
Se a NR-1 orienta as organizações a examinarem as condições e a organização do trabalho, cabe perguntar: como essas condições são percebidas e vivenciadas pelos diferentes públicos organizacionais?
Esse questionamento é fundamental porque uma mesma política, mensagem ou prática de gestão pode produzir experiências distintas, conforme a posição ocupada pelas pessoas, suas características, identidades, condições de acesso e relações de poder. Nesse sentido, os fatores de risco psicossociais também possuem uma dimensão comunicacional: eles se manifestam nas relações, nas práticas de gestão e nas formas pelas quais as informações circulam, ou deixam de circular, entre os diferentes públicos.
É nesse contexto que a comunicação acessível e inclusiva se torna ainda mais necessária. Embora relatórios de sustentabilidade frequentemente apresentem números relativos à contratação de pessoas pertencentes a grupos historicamente minorizados, é preciso avançar para além da presença quantitativa.
A organização oferece conteúdos em diferentes línguas, linguagens e formatos? Seus canais e sistemas são acessíveis? As pessoas dispõem de condições seguras e confidenciais para se manifestar? Têm acesso a instrumentos de trabalho compatíveis com suas características e necessidades? Sentem-se representadas nas narrativas institucionais?
Os diferentes públicos organizacionais podem estar expostos a situações e intensidades distintas de risco, especialmente quando barreiras comunicacionais, culturais, linguísticas, tecnológicas e atitudinais se somam às desigualdades já existentes.
A diversidade, portanto, não deve ser compreendida como um risco para a organização. Os riscos encontram-se na produção e na perpetuação das desigualdades, na invisibilidade, na exclusão e na reprodução de estereótipos. É justamente nesse ponto que a comunicação inclusiva ultrapassa o discurso sobre diversidade e se concretiza como um processo protetivo, capaz de promover segurança, pertencimento e confiança nas relações organizacionais.
Mais do que atender formalmente às exigências da NR-1, as organizações precisam desenvolver uma cultura permanente de prevenção. Escutar os trabalhadores, reconhecer as diferenças entre os públicos, revisar práticas comunicacionais e assegurar que as informações sejam acessíveis, compreensíveis e coerentes com as experiências vividas no ambiente de trabalho.
A atualização da NR-1, portanto, não apenas explicita a responsabilidade das organizações diante dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho. Ela também coloca em evidência sua responsabilidade comunicacional. Quando os processos de comunicação favorecem a escuta, a participação, o pertencimento e a legitimação das diferentes identidades, a comunicação inclusiva amplia sua contribuição e colabora diretamente para a construção de ambientes de trabalho mais seguros e saudáveis. Concretiza-se assim, como um fator protetivo.
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