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Aviso de Conectividade Saber Mais

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O alerta da Defesa Civil chega ao celular. Mas o cidadão sabe o que fazer?



Por Luiz Celso Piratininga Jr. (Sociólogo e publicitário, Diretor da ADAG Comunicação)

 

Com um El Niño potencialmente muito forte no horizonte, o sistema já opera em todo o país.

O desafio agora é transformar o aviso em orientação para agir.

 

Fato

 

O El Niño está de volta. O boletim mais recente do Painel El Niño 2026–2027, referente a julho, reforçou a previsão de intensificação do fenômeno. Confirmado em junho, o El Niño deve permanecer ativo pelo menos até o início de 2027 e tem 81% de probabilidade de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro deste ano.

 

Os efeitos não serão iguais em todo o Brasil. Enquanto o Sul tende a enfrentar chuvas intensas, áreas do centro-norte podem registrar menos chuva e calor excessivo. No Centro-Oeste e no Sudeste, ondas de calor e baixa umidade aumentam o risco de queimadas e de insegurança hídrica.

 

O país entra neste novo ciclo com uma diferença importante. O Defesa Civil Alerta começou a operar em dezembro de 2024 e foi ampliado gradualmente até alcançar todo o território nacional, em outubro de 2025. A tecnologia envia avisos aos celulares compatíveis conectados às redes 4G ou 5G, sem cadastro prévio nem pacote de dados. Em situações extremas, a mensagem ocupa a tela e aciona um sinal sonoro, mesmo que o aparelho esteja no modo silencioso.

 

Segundo a ABR Telecom, associação responsável pela infraestrutura tecnológica do sistema, no primeiro semestre deste ano foram emitidos 1.768 alertas, que alcançaram 2.779 municípios:  mais de quatro vezes o volume registrado no mesmo período de 2025.

 

A mensagem na tela é um avanço tecnológico. Fazer com que diferentes públicos compreendam o risco, confiem na orientação e saibam como agir é uma tarefa de comunicação pública.

 

Entre receber e compreender

 

A capacidade de avisar com antecedência salva vidas. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, a mortalidade associada a desastres é pelo menos seis vezes menor nos países que contam com bons sistemas de alerta precoce. Uma antecedência de 24 horas pode reduzir os danos em até 30%.

 

Mas a palavra importante é “sistema”. O modelo defendido pelas Nações Unidas reúne quatro elementos: conhecimento do risco; monitoramento e previsão; comunicação do alerta; e capacidade de preparação e resposta. Fazer a mensagem chegar é uma parte decisiva. Não é a única.

 

No Defesa Civil Alerta, a infraestrutura de transmissão é nacional, mas o conteúdo e o momento do envio são definidos pelos órgãos estaduais e municipais. Cabe a eles dizer qual é o perigo, quem está ameaçado, o que deve ser feito, para onde a pessoa deve ir e quando haverá uma nova orientação.

 

“Chuva forte. Há risco de deslizamento. Fique atento” descreve uma ameaça.

Não necessariamente permite que alguém se proteja dela.

 

Um morador antigo de uma área de risco, um turista, uma pessoa idosa, alguém com deficiência e uma família recém-chegada ao bairro podem compreender a mesma mensagem de maneiras diferentes. Há também quem esteja fora da cobertura de telefonia ou não tenha aparelho compatível.

 

O canal distribui o aviso. A comunicação pública precisa fazer a orientação alcançar cada um desses cidadãos.

 

O ponto cego

 

O ponto cego está em tratar a comunicação de risco como um texto produzido somente quando a emergência já começou. Nesse momento, há pouco espaço para descobrir quem precisa ser alcançado, testar a clareza da mensagem, apresentar uma rota desconhecida ou construir confiança em uma fonte até então ausente da comunidade.

 

Os dados mostram grandes diferenças na capacidade de resposta dos municípios. O Indicador de Capacidade Municipal, com dados de 2024, apontou que em 3.253 cidades 58,49% dos municípios brasileiros) estavam nos estágios iniciais de gestão de riscos e desastres. Em estudo divulgado em maio de 2026, o Cemaden constatou que 75% dos municípios prioritários possuíam menos da metade dos planos e mapeamentos necessários. Em 91% deles, não havia plano de obras e serviços para a redução dos riscos.

 

Esses números não medem a qualidade das mensagens, mas revelam as condições necessárias para que uma orientação possa ser cumprida. Um alerta que determina a evacuação não cria uma rota de fuga, não abre um abrigo nem providencia transporte para quem precisa de ajuda para se deslocar.

 

A comunicação não substitui essa estrutura. Mas pode revelar o que falta antes que o desastre o faça, além de preparar a população para utilizar aquilo que já existe.

 

O que desenvolver

 

A comunicação precisa ocupar um lugar na mesa de preparação, e não ser chamada apenas para publicar o alerta. As equipes municipais devem participar da construção dos protocolos, conhecer os riscos de cada território, testar as mensagens e manter um fluxo direto de informações verificadas com a Defesa Civil e os responsáveis pela resposta.

 

É um trabalho que começa antes da emergência, acompanha o resgate e continua depois que o perigo imediato passou.

 

Antes do evento, é preciso mapear as áreas ameaçadas, as pessoas que vivem nelas e os lugares pelos quais a informação circula: escolas, igrejas, unidades de saúde, associações de moradores e mercados. Esses espaços podem ajudar a divulgar previamente os níveis de alerta, as rotas de fuga, os pontos de apoio, os abrigos e os números que devem ser acionados.

 

O planejamento deve considerar quem não recebe o aviso pelo celular, quem depende de ajuda para se deslocar e quais recursos de acessibilidade são necessários. Simulados permitem verificar se a população compreendeu a orientação e se a própria prefeitura está preparada para cumpri-la.

 

Durante a emergência, a comunicação precisa estar integrada ao centro de decisões, com acesso permanente a informações confirmadas, uma fonte oficial reconhecível, porta-voz e boletim com hora marcada. O aviso à população tem de dizer o que está acontecendo, quais áreas estão ameaçadas, o que fazer naquele momento, para onde ir, quais serviços funcionam e quando virá nova atualização.

 

Atender aos repórteres, aqui, é mais do que tarefa de assessoria de imprensa: o jornalismo ocupa o espaço que o boato ocuparia, se tiver acesso permanente a informações confirmadas, uma fonte oficial reconhecível, um porta-voz e boletins com hora marcada. O celular também deve ser combinado com sirenes, rádios locais, carros de som, WhatsApp, agentes de saúde, escolas e redes comunitárias. Em uma emergência, repetir uma orientação correta por diferentes canais não é excesso: é proteção.

 

Depois do evento, a comunicação informa se o risco diminuiu ou terminou, o que continua interditado, quando escolas, postos de saúde e estradas voltam a funcionar e onde buscar ajuda. Também é preciso avaliar o que funcionou, o que falhou e o que deve ser mudado nos protocolos. A avaliação vai além do número de pessoas alcançadas:  importa saber quantas compreenderam o aviso, quantas conseguiram agir e quais grupos ficaram de fora.

 

Nada disso se resolve com uma campanha publicitária no mês do desastre. Exige tratar a comunicação de risco como serviço público permanente, integrada à Defesa Civil, à saúde, à educação, à mobilidade e à assistência social. O objetivo não é apenas informar que existe um perigo. É preparar a população antes, orientá-la durante e prestar contas depois.

 

Uma pergunta para o setor

Quando o alerta chegar, o cidadão saberá apenas que corre perigo — ou saberá o que fazer para sair dele?

 

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Artigos assinados expressam a opinião de seus autores.

 

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