Por João Fortunato (Jornalista, Mestre em Comunicação e Cultura Midiática e especialista em Gestão de Crises e Media Training)
Uma sessão marcada pelo confronto entre ministros expôs uma crise interna e colocou em xeque a imagem e a reputação da mais alta Corte do país.
A reputação do STF está nas cordas e ouvindo a contagem do árbitro após um direto no queixo disparado por seus membros na última e tumultuada sessão do tribunal, transmitida na íntegra, em tempo real, pela TV Justiça. Não fosse o “pedido de vista” do ministro Dino, a reputação do “Guardião da Constituição”, lamentavelmente, teria ido à lona. Um nocaute até certo ponto previsto, mas o presidente do STF, Edson Fachin, como se fosse um apostador, resolveu arriscar todas as suas fichas. E perdeu, ou melhor, perderam todos os brasileiros, que assistiram, perplexos, à principal instituição jurídica do país se encolher no corner das cordas de um ringue despedaçado.
Se a divisão entre os ministros era até então imaginária, durante a sessão ela se tornou real, clara como a luz do sol. Cada lado defendeu sua posição de forma renhida, até certo momento tentando preservar o decoro. O que foi impossível para alguns ministros, que renunciaram à compostura e elevaram o tom de voz de forma extremamente agressiva. É possível intuir o estranhamento de boa parte do público, neófito como espectador dos embates nas arenas jurídicas. Era, o tempo todo, ataque e defesa, que lembravam a balbúrdia dos alunos na classe sem a presença do professor.
A disputa entre os ministros é interna e internamente deveria ser travada. Trazê-la para o lado externo, via transmissão ao vivo pela TV Justiça, foi um erro que atingiu em cheio a imagem do STF, escancarando, sem retoques, o seu estado de crise. Que, vale frisar, os ministros ainda não sabem como solucionar. Agora que a imagem e a reputação da instituição se contorcem e se apequenam no canto do ringue, urge que algo efetivo seja produzido para que se possa esboçar uma reação. É preciso lhe dar fôlego! Alguém precisa jogar a toalha, impor o nocaute técnico e parar a disputa. Há novos rounds para a recuperação, mas, para tanto, há que vigorar o bom senso e a compreensão de todos de que a imagem pública da instituição precisa ser, a todo custo, preservada.
Este espetáculo, que certamente deve figurar com destaque na memória do tribunal, jamais deveria ter acontecido. Há tempos, revelavam os meios de comunicação, o clima interno do STF era de tensão. A respeitabilidade somente era mantida por causa do decoro, mas, fosse possível, uns não dividiriam o mesmo ambiente com outros. O presidente, logicamente, sabia que o clima indicava riscos de chuvas pesadas, trovoadas retumbantes e raios de elevada energia. Em vez de tomar atitudes visando proteger a todos, principalmente a instituição que preside, Fachin, aparentemente, desprezou os sinais da crise e deixou o clima desabar. E o clima, como estava previsto, desabou, levando, na enxurrada, a reputação dos ministros e, sobretudo, a do STF. Os ministros passam, a instituição permanece e sua imagem e reputação devem estar íntegras.
O espetáculo a que o povo brasileiro assistiu abalou a confiança nos ministros e, por consequência, no STF. Dar publicidade a esta sessão do tribunal, que se sabia antecipadamente ser tensa e polêmica, não foi uma boa iniciativa. E tornar público o acontecimento não significa escancarar a sessão em um evento televisivo. A imprensa estava cobrindo. O presidente, ao final, poderia atender aos jornalistas, assim como alguns ministros, e contar sobre o desenrolar da sessão. Franquear som e imagem pelas ondas da TV apenas ampliou a crise, que era interna e passou também para a área externa. Sem nenhum tipo de edição.
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