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Aluna assentada forma-se em Pedagogia pelo Centro de Educação

Estudante foi criada no Assentamento Bela Vista, em Jari

 

Sair da cidade de origem para estudar é uma escolha comum à maioria dos estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mas nem por isso fácil. Implica em saudade de casa, adaptação à cidade e às pessoas. Mas este caminho foi ainda mais árduo para a recém-formada pedagoga Deise Rabelo, 27 anos. Criada no assentamento Bela Vista, em Jari, Deise veio para Santa Maria aos 16 anos trabalhar como doméstica e estudar. Queria formar-se em Pedagogia para um dia dar aula no campo, e conseguiu no último dia 6 de julho. É a primeira aluna assentada a formar-se em Pedagogia pelo Centro de Educação.

“Eu sempre quis Pedagogia porque meu sonho é voltar para dar aula lá. Desde que a gente entra na escola alguns professores tentam fazer a gente sair, mas eu quero mostrar que é possível viver lá, tirar o sustento da terra. Precisamos formar cidadãos que busquem seus direitos e que exijam qualidade na educação no campo”, afirma a recém-formada. O trabalho de conclusão de curso apresentado pela estudante — “Saberes achados e perdidos: A luta pela valorização da educação no campo” — foi fundamentado na trajetória pessoal e orientado pela professora Ane Carine Meurer.


Deise Rabelo é a primeira aluna assentada a formar-se em Pedagogia pelo CE

A família de Deise é composta por agricultores familiares, uma das primeiras a se estabelecer no assentamento Bela Vista desde a sua fundação pelo Movimento Sem Terra (MST), no final da década de 1980. As famílias que migraram para Jari eram oriundas do assentamento da Fazenda Annoni, o primeiro a ser realizado por famílias organizadas no MST. À época, 7 mil trabalhadores rurais sem-terra ocuparam a fazenda, em 29 de outubro de 1985. Hoje, somente a mãe da estudante e um dos seus 12 irmãos ainda vivem em Bela Vista.

Embora acredite que é possível viver no campo, Deise relembra as dificuldades que enfrentou pelo desejo de estudar. “Eu vim sozinha, com 16 anos, trabalhar de doméstica para fazer o segundo grau, que lá [no assentamento] não tinha. Na cidade até tinha [escola], mas lá em casa não chegava transporte, e eu precisaria caminhar uma hora e meia à noite para estudar”, conta.

A única alternativa era vir para Santa Maria. “Foi muito difícil no começo porque eu trabalhava de doméstica e não ganhava nada, a primeira senhora com quem morei não me pagava. Depois, quando consegui uma família que me apoiava, consegui estudar”, conta. Cheguei aqui entre 2002 e 2003, casei em 2006 e comecei a estudar, fiz vestibular e entrei para pedagogia”, conta. É a primeira do assentamento a se formar em Pedagogia. “A maioria do pessoal foi se dispersando, casaram e vivem da agricultura familiar, ou foram embora. Conversei com professores e eles me disseram que a maioria não se formou nem no segundo grau, por causa da dificuldade.”

Filha mais nova, Deise é a primeira a concluir o ensino superior. Mãe de um menino com um ano e oito meses, já trabalha como professora em Santa Maria e, apesar da jornada dupla, pretende continuar estudando. “Fiz um concurso para Jari e, se eu passar, vou para o assentamento estudar. Se não, quero seguir estudando, já até solicitei disciplina no mestrado”, conclui.

 


Assentamento Bela Vista, em Jari, foi fundado no final da década de 1980

 


Família da estudante migrou do assentamento da Fazenda Annoni, o primeiro do MST