Na manhã gelada do quarto sábado de junho, da Penitenciária Estadual de Santa Maria (PESM), sob um céu inicialmente nublado, o frio foi sendo suavizado pela presença curiosa das crianças, pelos olhares atentos e pelas descobertas compartilhadas.
Realizada mensalmente durante o horário de visita de crianças a seus familiares privados de liberdade, essa ação é idealizada pelo Observatório de Direitos Humanos (ODH/UFSM) e reafirma o compromisso da universidade com a defesa dos direitos das crianças.
É nesse contexto que, mensalmente, durante o horário de visita de crianças a seus familiares privados de liberdade na Penitenciária Estadual de Santa Maria (PESM), acontece uma ação idealizada pelo Observatório de Direitos Humanos da Universidade Federal de Santa Maria (ODH/UFSM). Mais do que uma ação extensionista, trata-se de um compromisso ético da universidade com a promoção dos direitos das crianças, com a defesa da dignidade humana e com a construção de práticas que reconhecem as infâncias em sua potência, sensibilidade e capacidade de produzir cultura.
Ao longo dos meses, aquele espaço de espera deixou de ser apenas um local de passagem. Tornou-se um território de infância. Um lugar onde o tempo ganha outro significado, onde a ansiedade da espera é delicadamente atravessada pelo brincar, pela literatura, pela imaginação, pela arte e pelas relações que se constroem entre crianças, entre crianças e extensionistas.
Essa ação é fortalecida pelo envolvimento de projetos de extensão fomentados ou incentivados pelo ODH, entre eles Experiências Literárias com Bebês e Crianças Bem Pequenas, desenvolvido pela Unidade de Educação Ipê Amarelo (UEIA)com apoio do FIEX, e Materiais que se Transformam em Brinquedos, também vinculado à Unidade e apoiado pelo Observatório. Juntos, os projetos constroem experiências que reconhecem o brincar como linguagem, a literatura como direito e a escuta das crianças como princípio educativo.
Durante aproximadamente três horas, bebês, crianças bem pequenas, crianças e adolescentes encontram um ambiente cuidadosamente preparado para acolhê-los em sua integralidade. Não se trata apenas de oferecer atividades para ocupar o tempo. Trata-se de reconhecer que aquele tempo também lhes pertence e que a infância não pode ser suspensa, mesmo quando atravessada por contextos de grande complexidade.
As aprendizagens acontecem em gestos aparentemente simples, mas profundamente significativos. Surgem nas hipóteses construídas durante as brincadeiras, no olhar curioso que investiga cada material, nas mãos pequenas que exploram o brilho e o som do celofane, nos rostos que ganham novos personagens por meio da pintura facial e nas inúmeras possibilidades criadas com blocos de madeira, canos de PVC, cilindros e outros materiais naturais e de largo alcance.
Cada material disponibilizado carrega um convite silencioso para explorar o mundo. As mãos pequenas deslizam pelo brilho e pela textura do celofane, observam a transparência das cores, experimentam sons e movimentos. Os canos de PVC deixam de ser apenas tubos e transformam-se em pontes, túneis ou instrumentos musicais. Os blocos de madeira tornam-se casas, estradas e mundos imaginários. As materialidade ganham novas funções a cada olhar infantil, despertam hipóteses, perguntas e narrativas que somente as crianças são capazes de inventar.
Também há espaço para as histórias compartilhadas, para a pintura facial que transforma rostos em personagens, para os livros que circulam de colo em colo e para os diálogos que nascem espontaneamente entre uma brincadeira e outra. São pequenos acontecimentos que revelam a potência da infância e a extraordinária capacidade das crianças de reinventarem os espaços que habitam.
Ali, a espera deixa de ser apenas espera. Ela se converte em experiência. Em possibilidade. Em encontro. Mais do que oferecer materialidades, esse espaço reafirma a dignidade das infâncias. Reconhece bebês e crianças como sujeitos de direitos, produtores de cultura, capazes de interpretar o mundo, construir conhecimentos, estabelecer vínculos, criar hipóteses, elaborar sentimentos e atribuir novos significados às experiências que vivem.
A cada encontro, também os adultos são transformados. Quem participa da ação extensionista aprende que acolher uma infância é muito mais do que organizar materiais ou propor brincadeiras. É disponibilizar presença. É oferecer tempo. É olhar nos olhos, escutar com sensibilidade e compreender que cada sorriso, cada gesto, cada silêncio e cada descoberta carregam histórias que merecem respeito.
É impossível permanecer o mesmo depois de testemunhar o brilho nos olhos de uma criança ao encontrar um livro que desperta sua curiosidade, ao observar a delicadeza com que mãos pequenas transformam objetos simples em brinquedos ou ao perceber que, por algumas horas, aquele espaço deixa de ser marcado pela espera e passa a ser ocupado pela alegria de ser criança. O sorriso espontâneo diante de uma história compartilhada ou a delicadeza de mãos pequenas que, ao tocar um objeto, parecem reinventar não apenas aquele material, mas também o próprio mundo.
Talvez seja essa uma das maiores contribuições da extensão universitária: construir pontes entre a universidade e a comunidade, aproximando o conhecimento acadêmico das realidades sociais e produzindo experiências que transformam a todos os envolvidos. Não apenas porque ensinam, mas porque sensibilizam; aprendem com as histórias, os afetos e as formas de existir de cada criança.
Estar com as infâncias na PESM é reafirmar, a cada encontro, que o direito de brincar, imaginar, criar, ler, explorar e ser acolhido não conhece muros. É reconhecer que toda criança merece viver experiências de cuidado, pertencimento e dignidade, independentemente do contexto em que se encontre. Porque a infância continua existindo mesmo nos lugares de espera. E quando encontra adultos dispostos a acolhê-la com respeito, sensibilidade e compromisso, transforma não apenas o tempo, mas também as pessoas e os espaços que habita.




Fonte das imagens: Acervo dos projetos de extensão Experiências Literárias com Bebês e Crianças bem pequenas (FIEX/UFSM) e Materiais que se Transformam em Brinquedos (ODH/UFSM).