
Quando o assunto é dinheiro, sempre se discute problemas e possibilidades. No Rio Grande do Sul o tema tem sido um desafio e dos grandes. As famílias gaúchas sentem na pele a moradia, alimentação, transporte, saúde e despesas básicas pesarem cada vez mais e veem a renda mensal se despedir da conta muitas vezes logo na primeira semana.
Em pesquisas realizadas pelo Serviço de Análise de Risco e Solvência de Ativos (SERASA) entre 2 de dezembro de 2025 e 6 de janeiro de 2026, constatou-se que no Brasil, a média do custo mensal é de R$ 3.520 e que apenas 2 em cada 10 brasileiros consideram fácil gerenciar pagamentos e despesas do dia a dia. O supermercado, contas recorrentes e moradia concentram quase 60% do orçamento mensal.
Isso colabora para que o Rio Grande do Sul ocupe o 10º lugar no ranking nacional quando o assunto é custo de vida, segundo a pesquisa, superando o gasto médio nacional em mais de um setor, como nas compras de supermercado e no transporte, que chegam a aproximadamente R$ 1.110 e R$ 410, respectivamente. Com isso, o planejamento financeiro exige cada vez mais rigor e o conforto e o lazer, que já trilhavam caminhos sinuosos por inúmeros motivos, agora ficam ainda mais esquivos na vida de muitos gaúchos que precisam tentar equilibrar as finanças para obter o essencial.
Em pesquisa de opinião pública realizada para esta reportagem, dos 20 respondentes, 95% consideram que o custo de vida aumentou nos últimos anos. O setor que causa maior preocupação com os gastos entre os participantes é o da alimentação, seguido de transportes.

Fonte: Google Forms
Para Ana Eliza Falqueto, o aumento no custo de vida impactou a sua rotina especialmente nas compras de supermercado. A assistente contábil afirma que precisou mudar os hábitos de compra, diminuindo o consumo de carne e frangos de qualidade, além da quantidade de vezes por mês que consome leite e derivados. Para ela, o impacto também foi sentido nos produtos industrializados, como refrigerantes e chocolates.
As respostas do formulário também demonstram preocupação dos moradores de Santa Maria com a locomoção. Os participantes afirmaram passar a percorrer distâncias maiores a pé, na tentativa de diminuir os gastos com transporte público. Impacto que também é perceptível no setor da saúde, com respostas que comentam o cancelamento de planos de saúde e a troca de medicamentos manipulados por genéricos. Todos os participantes afirmaram que o salário recebido não acompanha o aumento do custo de vida.

Fonte: Serasa
Segundo os dados de março de 2026 do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a variação de preços de produtos e serviços consumidos por famílias com rendas de 1 a 40 salários mínimos, a Região Metropolitana de Porto Alegre – que representa o Rio Grande do Sul – apresentou inflação de 0,96%, acima da média nacional, que ficou em 0,88%. Entre os grupos pesquisados, os maiores aumentos ocorreram em transportes (1,96%) e alimentação e bebidas (1,10%), itens essenciais no orçamento das famílias.
Embora a inflação seja um termo muito debatido nas diferentes esferas sociais, muitos brasileiros ainda não sabem descrever o que o termo significa. Quando se diz que determinado bem ou serviço sofreu inflação, o que isso significa?
INFLAÇÃO
A inflação é um fenômeno econômico caracterizado pelo aumento generalizado dos preços de produtos e serviços ao longo do tempo. Na prática, isso significa que o dinheiro perde parte do seu poder de compra: com a mesma quantia, o consumidor consegue adquirir menos bens e serviços do que conseguia anteriormente. Quando essa elevação de preços não se limita a um único produto ou setor, mas atinge diferentes áreas da economia simultaneamente, como alimentação, transporte, habitação e saúde, configura-se um cenário de inflação.
Diversos fatores podem contribuir para o aumento da inflação. Entre eles estão o crescimento da demanda por produtos e serviços acima da capacidade de oferta, o encarecimento dos custos de produção, como energia e matéria-prima, a ampliação da quantidade de dinheiro em circulação na economia e fatores externos, como crises internacionais e oscilações cambiais. Como consequência, a população enfrenta redução do poder de compra, aumento do custo de vida e maior dificuldade para planejar gastos e investimentos.
Abaixo é possível observar um quadro comparativo que mede a proporção inflacionária entre a Região Metropolitana de Porto Alegre e a Média Nacional nas áreas de transporte e alimentação, dois dos setores que disparam nos índices de inflação no Rio Grande do Sul.

Gráfico 2: produzido por inteligência artificial
Considerando que a alimentação e o transporte representam parte significativa dos investimentos das rendas mensais familiares, podemos entender de que forma essas despesas básicas são influenciadas pela alta dos preços e quais são os impactos no cotidiano.
| Cenário Internacional Embora o aumento do custo de vida seja uma preocupação frequente entre os gaúchos, o fenômeno não é exclusivo do Brasil. Em países latino-americanos como Argentina, México e Chile, alimentação, transporte e habitação também figuram entre os principais gastos das famílias. A Argentina enfrenta uma inflação elevada que afeta praticamente todos os setores da economia, enquanto o México e o Chile registram pressões mais concentradas em itens essenciais, como alimentos, serviços e moradia. Assista ao reels publicado no Instagram do Bergamota e confira como essa realidade se compara a outros países da América Latina. |
ALIMENTAÇÃO

O agronegócio e o setor de alimentação no Rio Grande do Sul representam a principal força econômica do estado, concentrando cerca de 40% do PIB estadual. Porém, apesar de representar um domínio forte e estável, a alimentação é um investimento custoso para os consumidores que veem as etiquetas das prateleiras com valores expressivos e cada vez mais inacessíveis.
A substituição de um produto, que antes era consumido por agradar o cliente de determinadas marcas, por uma opção mais barata, se tornou a medida menos drástica e mais comum entre os gaúchos e opções mais radicais como o corte no consumo de um alimento X ou Y para reduzir custos também ficaram evidentes.
As respostas da pesquisa de opinião pública realizada para esta reportagem por meio de formulário confirmam essas afirmações. Os participantes mencionaram que, para acompanhar o aumento de custos, precisaram parar de consumir produtos como carne vermelha e refrigerantes, além de trocar as marcas de preferência por produtos de menor qualidade e, consequentemente, menor valor. Para isso, também passaram a acompanhar as promoções de supermercados e adiar compras. Um dos participantes afirmou pular refeições para economizar. Em uma visita ao mercado em diferentes cidades do Rio Grande do Sul, preencher o carrinho com itens essenciais se tornou um desafio, mesmo para quem mora sozinho e principalmente para quem precisa sustentar o mês inteiro as custas de um salário mínimo.

Fonte: Google Forms
Para o economista Lúcio Henrique Spiazzi, graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Santa Maria, é fácil concluir, através de uma breve análise, que o Rio Grande do Sul enfrenta dificuldades nos setores básicos, principalmente na alimentação, saúde e transporte. No âmbito da alimentação, o especialista afirma que o frete, a dificuldade econômica de equalizar custos atrelados à mão de obra e os obstáculos logísticos do país voltados à utilização de caminhões no transporte de produções alimentícias, são as defasagens mais evidentes do setor.
A alta dos valores não fica em evidência apenas nas mãos do consumidor, mas chega bem antes, já na produção. Na indústria leiteira, por exemplo, os custos de fabricação cresceram e seguem em crescimento exponencial há alguns meses. Segundo a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul, o Índice de Insumos para Produção de Leite Cru (ILC), sofreu uma inflação de 2,69% em abril, atrelada às altas nos combustíveis, fertilizantes e energia.

Em Santa Maria, mercados, restaurantes, lanchonetes e derivados, apostam em “promoções” chamativas e propagandas para atrair os consumidores na busca por contornar os problemas econômicos que atingem toda a população. Prática que nem sempre angaria bons resultados, tendo em vista que o valor que há algum tempo atrás compraria de duas a três unidades de um produto, hoje, em alguns casos, no valor promocional, compra apenas uma. Isso porque com a redução do poder de compra, os hábitos de consumo passam por adaptações inevitáveis e a lógica de mercado como um todo, do produtor, ao intermediário até o consumidor, enfraquece.
Nesses casos, a redução do poder de compra é tão escancarada que é inevitável não se sentir incomodado. Quando a renda das pessoas não acompanha o aumento dos preços dos bens e serviços, o mesmo poder aquisitivo de antes não tem mais suficiência para adquirir a quantidade de bens de algum tempo atrás, isso implica em mudanças significativas nas rotinas, hábitos e orçamentos de cada indivíduo.
Na lógica de mercado da atualidade é quase impossível que influências externas que alteram determinado setor da economia, não gerem um efeito em cadeia em todo o resto, inflacionando e dificultando os processos comerciais.
É nessa lógica que o transporte entra na jogada, presente em diferentes produções é responsável por carregar, importar, exportar materiais e suprir os serviços. Quando fatores como o combustível sofrem com a inflação, toda a teia econômica é comprometida.
TRANSPORTE

O transporte, elemento fundamental no escoamento das produções, protagoniza na agropecuária, na indústria e no comércio do Rio Grande do Sul, configurado predominantemente como rodoviário.
Apesar dos aumentos tarifários do setor, o transporte não apresenta um cenário suficientemente satisfatório para a população. Do contrário, muitas vezes preocupa pela precarização da infraestrutura.
Parte desse cenário caótico, é atribuído pela Federação das Empresas de logistica e Transporte de Cargas no Rio Grande do Sul (FETRANSUL), a fatores como o aumento do diesel, a deterioração das estradas, além da defasagem dos valores de frete que pressionam a atividade e reduzem a competitividade.
O custo operacional do transporte rodoviário, está diretamente ligado ao combustível, que atualmente passa por aumentos constantes e significativos, refletindo desde a ponta da pirâmide de transporte até o consumidor. Além disso, o comportamento do mercado internacional em relação ao petróleo e derivados é um dos pontos cruciais que atualmente passa por instabilidades.

Mesmo que a alta no mercado incomode a população, outro fator que não pode ser ignorado é a situação em que se encontram as rodovias gaúchas, que por vezes se torna um obstáculo no desenvolvimento econômico.
Segundo pesquisa realizada pela FETRANSUL, 46,7% das rodovias estão em condições irregulares e 26,3% seguem classificadas como ruins ou péssimas, o que é claro, força os motoristas a uma posição em que o tanque de combustível esvazia mais rápido, o bolso fica mais pesado, o risco de acidentes aumenta, o veículo sofre desgastes e os custos de manutenção disparam.
No transporte público, o equilíbrio na qualidade do serviço e no financeiro do passageiro parece um desafio quase impossível. A manutenção da frota, o abastecimento e os salários, são pressionados pela economia e muitas empresas optam pelo reajuste tarifário em diversos municípios do estado.
Em Santa Maria, o setor de transporte público não é muito diferente do restante, a situação das frotas é precária, as altas na tarifa que em poucos meses chegaram e mantiveram-se a R$ 7,25, foram a decisão necessária para que um colapso seja evitado no setor e o serviço mantido, segundo o prefeito Rodrigo Décimo.
O fortalecimento do setor, exige investimentos contínuos em infraestrutura, políticas de previsibilidade dos custos e incentivo de integração a diferentes modais de transporte, como o ferroviário, que já destacou-se no passado como uma força gaúcha, para que a atividade econômica não seja comprometida.
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Reportagem: Giovana Chaves
Produção: Amanda Teixeira
Fotos: Giovana Chaves
Redes Sociais: Maria Luisa Ferreira e Maria Sol Loza
Edição: Maria Luisa Ferreira e Maria Sol Loza
Supervisão: Luciana Carvalho
Conteúdo desenvolvido na disciplina de Jornalismo Digital III.