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Defesa Civil e a nova lógica da prevenção em Santa Maria



Em Santa Maria, a resposta veio com uma reestruturação da Defesa Civil, que passou a atuar com foco em três frentes: prevenção, uso de tecnologias e articulação com comunidades. À frente desse processo está o secretário municipal de Resiliência Climática e Relações Comunitárias, Edson Roberto das Neves Junior, que afirma que o cenário atual exige adaptação constante.

“Eu não gosto de dizer que estamos preparados. Nós temos que estar constantemente nos preparando”, afirma. Segundo ele, os eventos extremos recentes reforçaram a necessidade de revisão contínua de protocolos e estratégias de resposta, a partir das experiências acumuladas durante as enchentes de 2024.

Uma das principais mudanças é integrar ações de defesa civil, planejamento urbano e gestão ambiental. A proposta amplia o escopo tradicional da Defesa Civil e busca atuar também na prevenção de riscos, especialmente em áreas mais vulneráveis. De acordo com o secretário, o município está revisando o mapeamento de áreas de risco, os sistemas de drenagem urbana e as diretrizes de ocupação do território.

Outro eixo central da estratégia é o fortalecimento dos núcleos comunitários de proteção e defesa civil. A iniciativa busca capacitar moradores para agir antes da chegada das equipes oficiais em situações de emergência. As ações incluem treinamentos em escolas, unidades de saúde e junto a lideranças locais. A prioridade inicial são comunidades rurais e áreas mais afastadas, onde o tempo de resposta tende a ser maior. “As pessoas precisam saber quais riscos existem no território onde vivem e o que fazer em uma emergência. A primeira resposta, muitas vezes, vem da própria comunidade”, destaca Edson.

Tecnologia a serviço da prevenção

A modernização dos serviços também faz parte da nova estratégia municipal. Diversos procedimentos passaram a ser realizados de forma digital, facilitando o contato entre população e poder público. Atualmente, já é possível efetuar, por meio do site da prefeitura, o cadastro de pessoas afetadas por desastres, solicitar avaliações de risco e realizar inscrições para trabalho voluntário. Boletins meteorológicos e orientações preventivas também são divulgados diariamente à população. Além disso, o município implantou um Plano de Rotina Operacional (PRO), documento que estabelece níveis de alerta e protocolos de ação antes que as situações críticas se agravem. O PRO consiste em cinco Níveis Operacionais, identificados por números e cores:

Fonte: site da Secretaria de Município de Resiliência Climática e Relações Comunitárias

Para o secretário, a comunicação é um dos pilares mais importantes da prevenção. “A comunicação salva vidas. Pode não haver viaturas suficientes para atender todos ao mesmo tempo, mas a informação chega”. Ele reforça a importância de acompanhar os canais oficiais e participar das ações de capacitação promovidas pelo município. A gestão municipal afirma que os avanços representam apenas o início de um processo contínuo de adaptação.

Planejamento urbano e áreas de risco

Em Santa Maria o debate sobre prevenção passa, necessariamente, pelo planejamento urbano e pelo mapeamento de áreas de risco. Uma das principais ferramentas para isso é o Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR), estudo coordenado pela professora Andréa Nummer, do Laboratório de Geologia Ambiental da UFSM. O PMRR é um documento técnico que identifica áreas vulneráveis a diferentes tipos de desastres, como inundações, alagamentos, erosões e deslizamentos de terra. Além do mapeamento dos riscos, o plano propõe medidas estruturais  como obras de contenção e melhorias em sistemas de drenagem  e ações não estruturais, como educação comunitária e conscientização nas escolas.

Segundo Andréa Nummer, o diferencial do novo plano está na participação das próprias comunidades. Moradores de áreas vulneráveis participaram de oficinas e atividades de cartografia colaborativa, ajudando a identificar problemas históricos e pontos críticos da cidade. “As comunidades têm conhecimento do risco que correm”, destaca a pesquisadora. Entre os principais problemas identificados em Santa Maria estão os alagamentos relacionados à drenagem urbana insuficiente, ocupações próximas a arroios e processos de escorregamento de terra em áreas de encosta.

Andréa Nummer, professora de geologia da UFSM. Crédito: foto de Francine Castro Rodrigues.

Para Andréa, as mudanças climáticas tornam episódios severos mais frequentes e exigem um olhar permanente para o território. “A gente está em um período de mudança climática e esses eventos extremos tendem a ocorrer mais”, afirma.

Além de apontar os riscos, o PMRR também funciona como instrumento para a captação de recursos públicos. Com base nos dados do estudo, o município pode elaborar projetos e buscar financiamento para obras preventivas. Segundo a professora, esse já é um avanço importante: Santa Maria possuía um plano antigo, de 2016, e o novo mapeamento oferece diagnósticos mais atualizados e custos aproximados das intervenções necessárias.

Onde a chuva ainda assusta

Enquanto especialistas discutem projeções climáticas e autoridades apresentam medidas de prevenção, para muitos moradores de áreas vulneráveis o risco de novas enchentes permanece uma preocupação constante. Moradora do bairro Urlândia, uma funcionária pública de 59 anos, que pediu para não ser identificada por receio de retaliações no trabalho, afirma que ainda não considera Santa Maria preparada para enfrentar um novo evento extremo. Ela vivenciou os impactos das enchentes de 2024, quando ruas da região ficaram alagadas após o represamento das águas do Arroio Cadena. 

Segundo a moradora, a inundação atingiu residências do bairro e provocou perdas materiais, como eletrodomésticos e móveis. Embora tenha conseguido evitar prejuízos maiores ao retirar objetos de dentro de casa com antecedência e contar com a ajuda de vizinhos, a experiência deixou marcas. “Eu rezo para não chover mais para não entrar água dentro da minha casa”, relata. Para ela, os principais problemas estão relacionados à drenagem urbana e à falta de intervenções em pontos considerados críticos da região. A entrevistada cita o transbordamento do Arroio Cadena e a insuficiência da rede de escoamento durante os períodos de chuva intensa. Na avaliação da moradora, além de obras de infraestrutura, é necessário um olhar mais atento do poder público para comunidades que convivem historicamente com situações de vulnerabilidade.

Questionado sobre a avaliação da moradora, o secretário Edson Junior afirmou que a Defesa Civil mantém ações permanentes de capacitação voltadas à prevenção e ao planejamento em áreas de risco. “A Defesa Civil está em constante aprendizado e oferece cursos de capacitação, prevenção e planejamento para a população e para voluntários que atuam em áreas de risco. Convido a moradora a participar, e não há motivos para temer represálias, pois a ideia é que, juntos, possamos estar preparados”, declarou.

O secretário também destacou que o bairro Urlândia integra o Plano Municipal de Redução de Risco e que a região foi incluída no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), no eixo de drenagem urbana. Segundo ele, o projeto já foi aprovado e está em fase de elaboração. “Esta região está dentro do Plano Municipal de Redução de Risco, e Santa Maria cadastrou ela no PAC, na área de drenagem. Tivemos a aprovação e agora estamos elaborando os projetos para implementar ações que vão mitigar os impactos, reduzindo o risco para essas comunidades”, explicou.

Pós-desastre: estamos preparados para uma nova catástrofe? 

As enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024, deixaram um alerta impossível de ignorar: os eventos climáticos extremos não fazem mais parte de um futuro distante e distópico, fazem parte da nossa nova realidade e exigem preparação e adaptação das cidades. Em Santa Maria, o período pós-desastre foi marcado pela necessidade de transformar a experiência da emergência em um planejamento de longo prazo.

Entre os avanços concretos, está a criação da Secretaria Municipal de Resiliência Climática e Relações Comunitárias, uma iniciativa que tem como objetivo concentrar ações de prevenção, preparação e resposta aos eventos extremos. A proposta é fortalecer a capacidade de adaptação do município, articulando diferentes setores da administração pública, Defesa Civil, instituições de ensino e pesquisa, como a UFSM, e a própria comunidade.

Além da criação de novas estruturas administrativas, a experiência de 2024 também reforçou a necessidade de revidar protocolos de emergência, ampliar os sistemas de monitoramento e alerta, qualificar equipes e investir na educação da população sobre riscos climáticos. A eficiência da resposta a um desastre depende não apenas da capacidade de agir durante a crise, mas principalmente do trabalho realizado antes que ela aconteça.

Diante desse cenário, afirmar que Santa Maria está preparada para uma nova catástrofe seria ignorar a complexidade e dificuldade de enfrentamento das mudanças climáticas e eventos extremos. O que se pode afirmar, é que a cidade iniciou um processo de aprendizado e transformação, as instituições e órgãos começaram a falar sobre o assunto. A construção de uma cidade resiliente depende de um esforço contínuo a longo prazo, que se baseie na ciência, planejamento, investimento e principalmente, na execução de ações que auxiliem na prevenção dos desastres. 

Acompanhe mais conteúdos em @jornalbergamota.

Reportagem: Kethelyn Rodrigues Radunz, Francine Castro Rodrigues, Matheus Lanzarin, Eliandro Martins, João Veigas 
Edição: Kethelyn Rodrigues Radunz
Supervisão: Luciana Carvalho

Conteúdo desenvolvido na disciplina de Jornalismo Digital III.

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