Ir para o conteúdo Revista Arco Ir para o menu Revista Arco Ir para a busca no site Revista Arco Ir para o rodapé Revista Arco
  • Acessibilidade
  • Sítios da UFSM
  • Área restrita

Aviso de Conectividade Saber Mais

Início do conteúdo

E se as vacinas nunca tivessem sido criadas?

É difícil pensar em uma sociedade sem os avanços da saúde, em meio à pandemia de Covid-19



A pandemia do coronavírus atinge uma sociedade com grandes avanços científicos, diferente do contexto de outras crises sanitárias de doenças infecciosas, como a da varíola e a da gripe espanhola. Por isso, desde o dia 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o estado de contaminação do coronavírus como pandemia, a busca pela vacina foi uma prioridade. Um imunizante pode demorar anos para ser produzido, pois os processos que envolvem a elaboração são rigorosos e necessitam de várias etapas de testes antes que chegue à população, mas não existe um tempo pré-determinado. Diante disso, em menos de doze meses, algumas vacinas contra a Covid-19 foram aprovadas com segurança e eficácia, já sendo aplicadas em diversos países, como é o caso do Brasil.

A vacinação junto com as medidas de prevenção – como higienizar as mãos, usar álcool em gel, usar o tipo de máscara recomendada pelos especialistas, em especial a PFF2 – são as únicas formas de prevenir a contaminação e a disseminação pelo vírus. O Brasil vive uma fase calamitosa da pandemia, em que a média móvel de óbitos em 24 horas ficou acima de dois mil por 55 dias. A situação caótica do país deve-se ao descumprimento das medidas sanitárias por uma parcela da população, pelo atraso na campanha de vacinação e também por uma distribuição não homogênea aos estados.

A negligência do governo, que negou a gravidade da doença, a demora para negociar a compra dos imunizantes e até mesmo dos insumos para a fabricação apenas ressalta a necessidade da vacinação em massa para conter o avanço do vírus no país. Sendo assim, já parou para pensar como seria a humanidade se as vacinas nunca tivessem sido criadas?

A relação da varíola com o surgimento da vacina

A varíola, causada pelo Poxvirus variolae, já foi considerada umas das doenças infecciosas mais severas do mundo inteiro, conhecida pela formação de erupções graves na pele. A sua origem específica é incerta, visto que existem poucos relatos antes do século 10. Entretanto, os historiadores acreditam que a doença pode ter aparecido no nordeste da África, antes de Cristo, e por meio de comerciantes egípcios chegou à Índia. 

Anterior ao século 10, a varíola aparecia em episódio, como uma doença com características endêmicas, ou seja, atingia a população de uma região geográfica específica.

Dos século 11 a 15, o vírus começou a se espalhar pela Europa, em locais povoados, com características ainda endêmicas, atingindo em sua maior parte crianças. Em razão de ter começado a contaminar todas as faixas etárias em outras localidades e com um número grande de casos, passou a ser reconhecida como epidêmica.

Nas Américas, a varíola foi introduzida durante a colonização. A professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Beatriz Teixeira Weber, pós-doutora em História das Ciências e da Saúde na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, comenta que “foi uma mortandade geral em vários episódios de varíola. Tem um conjunto de autores que dizem que ocorreu um genocídio na América, pela morte desta população indígena”. A professora ressalta também sobre relatos de colonizadores que colocavam cobertores contaminados dentro de tribos indígenas para ter o controle da população, para dizimá-los ou para dominar o local.

Mas como a varíola possui relação com a criação da vacina? Durante a Idade Média, juntamente à Peste Bubônica – transmitida para os seres humanos por meio de pulgas de ratos contaminados com a bactéria Yersinia pestis – elas  foram responsáveis por milhões de mortes. Apesar de seus agentes etiológicos serem desconhecidos durante o período, várias medidas de controle precisaram ser utilizadas, como a quarentena, a variolização ou inoculação e, por fim, a imunização.

Em 1775, o médico inglês Edward Jenner trabalhava no interior da Inglaterra com a inoculação da doença – o método já era usado na Índia e na China durante o século 11 -, isto é, injetava-se o vírus morto em pessoas saudáveis como uma forma de controle, e uma maneira de torná-la mais branda e o processo ficou conhecido como variolização. Jenner observou que as pessoas, em sua maioria mulheres, eram contaminadas pela varíola da vaca (Cowpox) e só em alguns casos apresentavam erupções na pele. Assim, o médico britânico formulou a hipótese da Cowpox ter um efeito diferente do vírus que afetava apenas os seres humanos.

Quase 20 anos depois, em 1796, Jenner conseguiu comprovar suas observações. Ele inoculou uma criança de oito anos com o material retirado das lesões das vacas contaminadas. Meses depois, a criança recebeu a variolização e não apresentou nenhum sintomas da doença. A partir daí, o processo de imunização contra o vírus começou e com o passar do tempo foi adotado em outros países. Surgia, assim, a primeira vacina, do latim vaccinus, ‘derivado da vaca’ ou ‘que vem da vaca’.

A erradicação de doenças com campanhas de vacinação        

A imunização em massa da varíola permitiu sua diminuição entre os séculos 18 e 20. Em 8 de maio de 1980, na 33ª Assembleia Mundial da Saúde, da OMS, foi declarada oficialmente erradicada. Acredita-se que foi uma das doenças infecciosas com maior número de óbitos da história da humanidade. A erradicação só foi possível, mesmo tanto tempo depois da descoberta do imunizante, devido aos avanços científicos e tecnológicos, os quais proporcionaram investimentos para a fabricação em larga escala e incentivos para as campanhas de vacinação ao redor do mundo.

A poliomielite possui registros desde a Antiguidade, todavia seu agente etiológico só foi descoberto no início do século 20, o poliovírus (1, 2 e 3). Conhecida também como paralisia infantil, é uma doença com altas taxas de contágio, embora 95% dos casos não sejam graves. Os outros 5%, podem atingir o sistema nervoso e acarretar a paralisia dos membros inferiores do corpo ou dos músculos respiratórios e, nesse caso, pode levar à morte. 

Os estudos para a criação do imunizante estavam ocorrendo desde a década de 1940 nos Estados Unidos. Então, em 1955, realizou-se o maior ensaio clínico para vacinas na história, com 1,8 milhões de participantes, desenvolvido pelo pesquisador John Salk, sob a coordenação do epidemiologista Thomas Francis Jr. Nos resultados, foi declarada segura e eficaz. No Brasil, a imunização começou no mesmo ano, mas de forma branda, com foco principal nos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo.

Em 1986, no Brasil, surgiu o personagem Zé Gotinha, para incentivar as crianças a tomarem a vacina – ou, como ficou conhecida, a gotinha. Em 1988, começou em nível mundial estratégias contra a doença, por exemplo, a criação do Dia Nacional da Vacinação. A data mostrou-se eficaz no país, devido à imunização em massa. 

A erradicação nas Américas ocorreu em 1994 e, a partir de então, o Brasil comprometeu-se em manter as campanhas ativas, já que ainda hoje, em 2021, existem áreas endêmicas de pólio, como no Afeganistão e no Paquistão. Por isso, se a cobertura vacinal diminuir, o vírus pode ser reintegrado a países no qual ele já foi erradicado.

Paralelos de eventos históricos com a pandemia atual

A gripe espanhola foi uma pandemia – atingiu todos os continentes – de 1918 a início de 1920. A doença foi causada pela mutação do vírus Influenza e os primeiros casos registrados apareceram nos Estados Unidos. O vírus espalhou-se por conta das viagens de navios, em decorrência da Primeira Guerra Mundial. A “Influenza Hespanhola” matou cerca de 50 milhões de pessoas ao redor do mundo, equivalente a 5% da população da época.

A doença ficou conhecida por esse nome por ter ocorrido uma forte divulgação de notícias pela imprensa espanhola do período. A gripe alastrou-se em três ondas, a primeira em março de 1918, a segunda em agosto de 1918 e a terceira em janeiro de 1919. A segunda ficou conhecida por ser a mais contagiosa com alta taxa de mortalidade. No Brasil, chegou em setembro de 1918, pelo navio Demerara que saía de Liverpool, na Inglaterra, transportando açúcar. Cinco pessoas morreram a bordo em consequência do vírus.

O projeto de extensão “Mais História, Por Favor”, do Laboratório de História Pública da UFSM, coordenado pelo professor do Departamento de História, João Manuel Casquinha Malaia Santos, pós-doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), realizou uma pesquisa em jornais da época sobre Gripe Espanhola com seus alunos. Diante disso, algumas notícias apresentam certos paralelos com a pandemia de Covid-19.

“Então, existem comportamentos que se assemelham porque somos humanos. Existia a dificuldade de fazer o isolamento, havia pessoas que desdenharam da pandemia, pessoas do governo minimizaram a força do vírus, remédios e curas milagrosas surgiram”, relata João Malaia. Além disso, charges publicadas em jornais de  1918 traçam um imaginário daquela época com o período atual e como disputas políticas atrasaram o combate à pandemia de gripe espanhola.  

Também nesse contexto, o ano de 2021 apresenta semelhanças com o ano de 1904, quando ocorreu a Revolta da Vacina, na cidade do Rio de Janeiro, em oposição à obrigatoriedade da imunização contra varíola – com propagação de notícias falsas em determinados jornais e por políticos. Porém, o tempo atual diverge, e “não podemos cair naquela afirmação: a história se repete”, reflete o professor João Malaia.

Importância da disseminação de informações

O professor também afirma que, apesar dos paralelos, são realidades muito distintas. No tempo atual, aspectos como a população possuir um nível maior de acesso à informação, os meios de comunicação serem mais velozes e os avanços na área da saúde possibilitarem a produção de imunizantes de maneira rápida, reforçam as divergências entre os períodos.  Dessa forma, a divulgação científica em história, que é a proposta do projeto, permite manter viva a memória desses eventos históricos.

A pergunta “e se as vacinas nunca tivessem sido criadas?” de certa forma não tem como ser respondida plenamente, visto que a história consiste em relatar fatos do passado e não acontecimentos que nunca ocorreram. Contudo, a professora Beatriz Weber reconhece: sem as vacinas, “nós não seríamos a sociedade que somos hoje”. A capacidade de viver em áreas urbanas seria ínfima, com altas taxas de mortalidade, baixo desenvolvimento social, econômico e tecnológico, sem falar de várias outras consequências.

Em 2021, a disseminação do conhecimento científico é mais democratizada devido ao maior acesso a educação, tecnologias e saúde, apenas traçando paralelos com os séculos passados. Portanto, uma das maneiras de combater o vírus é mostrar a importância da vacinação para a sociedade por meio da propagação de informações verdadeiras.

Expediente

Reportagem: Eduarda Paz, acadêmica de Jornalismo e voluntária da revista Arco

Ilustração: Renata Costa, acadêmica de Produção Editorial e bolsista

Mídia Social: Nathália Pitol, acadêmica de Relações Públicas e bolsista, e Ana Ribeiro, acadêmica de Produção Editorial e voluntária

Editora de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb, jornalista

Publicações Relacionadas

Publicações Recentes