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A culpa não é de Werther



Em 1774, o escritor e filósofo alemão Johann Wolfgang von Goethe publicou “Os Sofrimentos do Jovem Werther”. A obra narra as desilusões amorosas de Werther, jovem de personalidade sensível e artística. O enredo se desenvolve a partir do momento em que o personagem principal conta ao amigo Wilhelm a história de seu amor impossível por Charlotte, prometida em casamento para outro. Werther não consegue esquecê-la e também não encontra outra saída. Assim, no decorrer das páginas, acaba se suicidando. 

Após o lançamento na Europa, a história de Goethe inspirou dezenas de jovens leitores, que passaram a se vestir como o protagonista, com calças amarelas e colete azul. Além disso, foi atribuída à história a culpa por outro fenômeno: uma onda de suicídios. O livro, inclusive, foi proibido em países como Itália e Dinamarca. 

O romance, a onda de suicídios e as discussões que aconteceram em torno disso deram origem a um termo da psicanálise: o Efeito Werther. Concebido pelo sociólogo David Phillips, em 1974, para definir a imitação do comportamento suicida, a expressão significa que, de certa forma, o suicídio, ou o fato de falar sobre o tema, seria “contagioso”. 

No entanto, para o professor de Filosofia e Ensino Religioso Márcio Marangon a interpretação que se tem do Efeito Werther somente a partir da onda de suicídios pode ser equivocada. De acordo com o especialista, os jovens começaram a reproduzir as vestimentas e as expressões do personagem. Passaram, também, a se ver como ele. Assim, para Márcio, o Efeito Werther, na Europa, foi – para além dos suicídios – o romantismo. A partir dessa obra, o romantismo ganhou notoriedade, e, dele, outros movimentos artísticos, políticos e filosóficos tiveram origem.

O livro de Goethe, então, pode ser compreendido como uma obra que, além de conhecida pela série de suicídios, também, e principalmente, provocou reflexões sobre sentimentos. Assim, serve de alerta para outras épocas, como a nossa.

 

“O Efeito Werther precisa ser revisto novamente, na atualidade, como um problema que vai muito além das estatísticas. É um problema de sentimentos, de estética, de vida”, argumenta o professor Márcio Marangon.

 

O professor conta ainda um fato curioso sobre a obra. O imperador Napoleão Bonaparte tinha “Os Sofrimentos do Jovem Werther” como uma distração literária. Ele confessou que havia lido o livro sete vezes e que era seu predileto, inclusive, guardava-o no bolso para as viagens. Porém, isso não mudou sua forma de agir no mundo. Assim, Márcio defende que a obra precisa servir de base para compreender como nossas regras sociais causam pressão sobre nossos jovens, por exemplo.

 

O significado do livro de Goethe nos dias de hoje

A discussão sobre essa obra é centenária, mas está longe do fim. Para o professor Márcio Marangon, “Os Sofrimentos do Jovem Werther” é um livro que contém denúncias que são importantes nos dias de hoje, já que o suicídio segue como um tema tabu e que causa medo. 

Em artigo produzido em conjunto com os professores Miguel Rossetto e Claudio Dalbosco, ambos da Universidade de Passo Fundo (UPF), Márcio abordou o papel do mestre para Goethe e Foucault. O trabalho fez distinção das formas de mestres em obras dos dois autores e apontou, a partir de passagens, como Werther é um personagem carente de bons mestres – sem se restringir aos professores. “Na obra, ele é caracterizado por estar por si só no mundo. Sem amparo, sem cuidado. E este é um fator determinante para o seu desfecho”, conta. 

 

No contexto atual, o pesquisador acredita que a denúncia da carência de mestres segue forte. 

 

“Nossos líderes pregam novamente a guerra, o lucro, os números acima de tudo. Nossas escolas priorizam as disciplinas técnicas e até mesmo a música deixou de ser um refúgio estético. É triste e preocupante entender como o “Efeito Werther” continua com suas denúncias mais de cem anos após sua publicação”, reflete o pesquisador.

Para além disso, o livro e os acontecimentos que sucederam o lançamento trazem a reflexão sobre a predisposição a alternativas para findar as dores e sofrimentos. “O livro não levou as pessoas a cometerem suicídio. Levou-as a refletir sobre o tema e, então, cada uma expressou sua dor de determinada maneira. Não significa que causou dor, mas sim que permitiu que ela fosse expressada”, argumenta.

Tanto a obra de Goethe, quanto os casos mais conhecidos relacionados ao tema são fundamentais para a discussão sobre suicídio. Um exemplo é o mítico Clube dos 27, artistas que acabaram com suas vidas aos 27 anos: Janis Joplin, Jim Morrison, Jimi Hendrix, Brian Jones, Kurt Cobain e Amy Winehouse. E, por ser importante para a sociedade e bastante sensível, o tema desperta a curiosidade de pesquisadores.  

 

Suicídio pode ser evitado com mais espaços de escuta e de fala

Em “A influência no outro: das escritas do eu ao suicídio de Werther”, dissertação do psicólogo Roberson Rosa, pelo Programa de Pós-Graduação em Letras da UFSM, a obra de Goethe também se mostra importante para problematizar o suicídio, mesmo que o assunto ainda assuste as pessoas. 

“O tema é muito provocante. E, em uma cultura como a nossa, na qual sempre pensamos em nos mantermos, em sobrevivermos, o suicídio vem como essa interrupção da vida de modo voluntário, intencional, e isso cria um choque de alguma forma”, conta Roberson.

Entretanto, para o psicólogo, há uma evolução nas compreensões sobre o assunto, já que existem mais discussões e espaços de escuta e de fala. Hoje, as pessoas falam mais sobre saúde mental, como no Setembro Amarelo, mês dedicado à promoção da vida. Para ele, quanto mais existirem espaços que se propõem a explorar o tema, maior será a possibilidade de evitar suicídios. 

“Falar é um modo mais interessante de poder tratar as coisas. Podemos usar os meios de expressão para que a gente possa repensar algumas questões”.

Segundo dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio causa uma morte a cada 40 segundos no mundo. Logo, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), os dados globais apontam que cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos, estimativa superior ao número de mortes por malária ou câncer de mama, guerra ou homicídio.

Só no Brasil, entre 2007 e 2016, relatórios do Ministério da Saúde mostram que o número de casos de suicídios foi de 106.374. Assim, a taxa geral do país é de 5,3 a cada 100 mil habitantes. 

 Logo, o Efeito Werther, apesar de relevante para a discussão e importante para a psicanálise, não pode ser um fator determinante na hora de abordar o tema suicídio.

“Os suicídios acontecem todos os dias e nunca têm um motivo único. Então, não podemos dizer que só isso foi o disparador. Uma característica de identificação com algum personagem fictício pode ser somente a ponta do iceberg”, afirma Roberson. 

O professor Márcio lembra ainda que as vítimas estão todos os dias em todos os cantos do mundo. Por isso, a oportunidade de expressar a dor que as consome deve existir e não ser evitada. “É como se, por não falarmos todos os dias sobre a fome na África, as pessoas deixarão de sentir fome, ou, por não falarmos da destruição das nossas matas, elas deixarão de ser destruídas”, ressalta Márcio. 

Portanto, a obra de Goethe pode ser extrapolada e compreendida de diferentes formas. Por exemplo, pode-se dizer que o autor demonstrou, por meio do livro, a necessidade de expor nossas dores, para que as pessoas ao nosso redor possam nos ajudar. Ou, para que a própria exposição nos leve a compreendê-las e superá-las. 

Repórter: Leandra  Cruber, acadêmica de Jornalismo

Ilustradora: Giovana Marion, acadêmica de Desenho Industrial

Mídias Sociais: Carla Costa, relações públicas, e Nataly Dandara, acadêmica de Relações Públicas

Editora de Produção: Melissa Konzen, acadêmica de Jornalismo

Editor Chefe: Maurício Dias, jornalista


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