Por Bianca Persici Toniolo (Doutora em Ciências da Comunicação)
A passagem da depressão Kristin expôs de forma evidente fragilidades estruturais na comunicação de emergência em Portugal. As mortes, os danos materiais e o impacto psicológico nas populações afetadas levantam uma questão central que não pode ser ignorada: a forma como o risco foi comunicado contribuiu para a incapacidade de muitos cidadãos adotarem medidas de autoproteção eficazes?
Importa sublinhar um dado incontornável: o número de vítimas mortais apenas não foi mais elevado porque o fenómeno ocorreu durante a noite. Caso o pico de intensidade se tivesse verificado em período diurno, com maior mobilidade populacional, o desfecho poderia ter sido significativamente mais grave. Este facto, por si só, reforça a importância da comunicação de emergência como instrumento de mitigação de danos.
A mensagem de alerta transmitida às populações resumiu-se a um SMS genérico sobre vento de até 140 km/h de intensidade, acompanhado da expressão “fique atento” e da recomendação para seguir orientações das autoridades. Mas quais orientações? Como os resultados da passagem da depressão Kristin por Portugal, infelizmente, comprovaram, esta comunicação foi insuficiente para promover a perceção adequada do risco e para orientar comportamentos preventivos concretos.

Informar não é sinónimo de comunicar. A transmissão de dados isolados, desprovidos de contextualização, não ajuda os cidadãos a compreenderem o significado real do perigo nem a traduzirem esse conhecimento em ações protetoras.
Uma escalonada no tempo, com reforços sucessivos à medida que a ameaça se tornava mais próxima, poderia ter promovido uma perceção de risco progressiva e a ativação atempada de medidas de autoproteção. Ao mesmo tempo, a articulação entre autoridades meteorológicas, proteção civil, poder local e meios de comunicação social teria permitido uma mensagem mais consistente e contextualizada ao nível do território.
A comunicação de emergência é um estágio crítico dentro de um continuum comunicacional que se inicia na comunicação de risco e evolui para a comunicação de crise diante da iminência de um desastre. Este período de transição, quando um risco está prestes a materializar-se ou acaba de se manifestar, constitui uma janela decisiva para reduzir impactos humanos, materiais e ambientais.
A literatura sobre comunicação de risco e crise sublinha que, na fase de alerta — que marca a transição entre risco e crise — as mensagens devem ir além da simples notificação da ameaça. Devem convocar a ação imediata, fornecer orientações claras e acionáveis, manter um fluxo permanente de informação, indicar recursos disponíveis e reforçar a capacidade dos cidadãos para se protegerem de forma autónoma e coordenada. Quando esta comunicação falha, instala-se a incerteza, reduz-se a adesão às recomendações institucionais e aumenta-se a vulnerabilidade coletiva.
No caso da depressão Kristin, a ausência de instruções explícitas sobre comportamentos seguros — como a permanência em casa, a limitação de deslocações, o afastamento de estruturas frágeis ou a proteção de bens e animais — comprometeu a capacidade de resposta das populações. A mensagem transmitida não refletiu a gravidade potencial do fenómeno nem traduziu a linguagem técnica em implicações concretas para o quotidiano das pessoas. O resultado foi uma comunicação que alertou, mas não preparou; informou, mas não protegeu.
Quando a crise se concretiza, entra-se na fase de socorro, na qual a comunicação deve concentrar-se na proteção imediata da população, no reforço da perceção de risco, na divulgação de instruções práticas de autoproteção e na atualização constante da informação disponível. Esta fase exige mensagens acessíveis, inclusivas e adaptadas à diversidade social, etária e funcional da população. No entanto, a eficácia desta resposta depende, em grande medida, da qualidade da comunicação estabelecida na fase anterior, bem como da resiliência dos próprios sistemas de comunicação utilizados.
A degradação de infraestruturas essenciais, nomeadamente fornecimento de eletricidade e acesso à internet, limitou a capacidade de difusão de informação em tempo útil e expôs a fragilidade de estratégias excessivamente dependentes de canais digitais no caso em questão. Em emergências, é fundamental que os mecanismos de comunicação não dependam exclusivamente de tecnologias vulneráveis à própria crise, devendo ser assegurada a existência de recursos alternativos e redundantes capazes de alcançar as populações mesmo em cenários de falha sistémica.
O impacto da comunicação deficiente não se mede apenas em danos materiais. Mede-se também na erosão da confiança institucional e na sensação de abandono sentida por muitas comunidades. Quando a última mensagem recebida antes de um evento extremo é vaga e genérica, o que se instala é a perceção de que a proteção individual foi deixada ao acaso.
A fase de recuperação, que se segue ao socorro, não deve limitar-se à reconstrução física. Deve incluir uma reflexão crítica sobre os processos comunicacionais adotados, com vista ao fortalecimento da resiliência social e institucional. Recuperar implica aprender, corrigir falhas e reconstruir a confiança entre autoridades e cidadãos. Implica reconhecer que a comunicação é, ela própria, uma forma de intervenção.
Diante da intensificação dos fenómenos meteorológicos extremos, a questão central não é se eventos semelhantes voltarão a ocorrer, mas quando irão decorrer. Quando isso acontecer, a eficácia da resposta não dependerá apenas dos meios técnicos disponíveis, mas também da capacidade de comunicar o risco de forma clara, compreensível e orientada para a ação. Um simples “fique atento” não é suficiente para salvar vidas. Comunicação de emergência exige clareza, responsabilidade e compromisso com a proteção efetiva das populações.
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