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Seminário Internacional na PUCRS inova ao reunir pesquisadores, comunidades e gestores públicos em torno do tema da Comunicação de Risco



Com o tema Inovações comunitárias para a proteção coletiva em eventos extremos, o evento reuniu pesquisadores nacionais e internacionais, estudantes, autoridades, e lideranças e moradores de territórios de Porto Alegre atingidos pelas inundações de 2024.

 

O Grupo de Pesquisa Cuidar_Com (PPGCom/PUCRS) realizou, entre os dias 26 e 28 de maio, o 1º Seminário Internacional de Comunicação de Risco e Cultura do Cuidado, reunindo pesquisadores nacionais e internacionais, docentes, estudantes, lideranças comunitárias, moradores do bairro Sarandi e autoridades para debater o papel estratégico da comunicação no enfrentamento de eventos extremos. Com o tema Inovações comunitárias para a proteção coletiva em eventos extremos, o encontro propôs ampliar o diálogo entre academia e sociedade, apontando caminhos para o fortalecimento da prevenção e da resposta a desastres.

 

“É possível e necessário que a pesquisa acadêmica ultrapasse os muros das universidades para criar soluções junto às comunidades.”

 

Para a decana da Escola de Comunicação, Artes e Design – Famecos da PUCRS, professora Rosângela Florczak, o Seminário nasceu da vontade de ampliar o debate sobre comunicação e construir metodologias que articulem a ética do cuidado na gestão de riscos. “Foi um momento muito importante, foi o ápice de uma parceria que já vem sendo desenvolvida há quase dois anos com a comunidade do Bairro Sarandi, em Porto Alegre. Ao longo desse tempo, percebemos que é possível e necessário que a pesquisa acadêmica ultrapasse os muros das universidades para criar soluções junto às comunidades”,  destacou Rosângela, que também coordena o Grupo Cuidar_Com.

 

A abertura foi marcada pela presença da pesquisadora Norma Valêncio (UFSCar), referência em Sociologia dos Desastres, que abordou as vulnerabilidades socioambientais e as desigualdades e injustiças reveladas em contextos de crise. Na sequência, o pesquisador e fundador da Hopeful, startup que trabalha com educação em desastres, Abner Willian Quintino de Freitas, e a professora Maria Isabel Bellini (PUCRS) trouxeram reflexões sobre gestão de riscos, calamidades e organização comunitária diante de eventos extremos nos estados do Rio Grande do Sul e do Amazonas.

 

O segundo dia aprofundou os debates com uma perspectiva internacional e interdisciplinar. A filósofa Fabienne Brugère, professora da Université Paris 8 e uma das principais pensadoras  sobre ética do cuidado, articulou o cuidado como categoria de resposta a catástrofes. A pesquisadora Cora Quinteros (UTFPR), integrante de redes internacionais ligadas à ONU para redução de riscos, apresentou reflexões sobre comunicação pública do clima, tema de sua tese premiada pela USP em 2024. Já a fotógrafa investigativa e pesquisadora Julia Pontés (Universidade do Tennessee) trouxe ao debate a estética dos desastres e a política do olhar diante do colapso ambiental.

 

Também participou do segundo dia de evento a professora Karla Palma (Universidad de Chile), pesquisadora associada ao Centro de Investigación Interdisciplinaria en Riesgo, Resiliencia y Recuperación ante Desastres (CIGIDEN) e especialista na intersecção entre comunicação, natureza e comunidades em zonas de risco, em painel que teve mediação da professora Eloisa Loose (UFRGS). Para Karla, a raridade de um espaço como este evidencia sua relevância: “É fundamental para poder encontrar outros pesquisadores que trabalham sobre a comunicação de risco. Porque não é usual que esse tema  seja o centro do debate.”

 

O conhecimento produzido nas comunidades afetadas é parte indispensável de qualquer estratégia efetiva de proteção coletiva.

 

O seminário ainda reservou espaço para as vozes que viveram o evento extremo de 2024 de perto. O painel Saberes Locais para Proteção Coletiva reuniu lideranças comunitárias em torno de experiências de enfrentamento e organização territorial. Participaram do painel a Bia da Ilha, representante da comunidade da Ilha da Pintada, João Rocha, gestor da Fundação Pão dos Pobres, e o professor Paulo Sérgio da Silva, vice-diretor da EMEB Doutor Liberato Salzano Vieira da Cunha. O debate evidenciou que o conhecimento produzido nas comunidades afetadas é parte indispensável de qualquer estratégia efetiva de proteção coletiva.

 

À noite, a programação incluiu ainda três oficinas voltadas para alunos da Escola Doutor Liberato Salzano Vieira da Cunha, ministradas pelas palestrantes. Com duração de uma hora e meia cada, os encontros promoveram uma reflexão sobre como a perspectiva do cuidado pode atravessar as experiências pedagógicas e organizacionais e os modos de acolhimento em sala de aula.

 

No terceiro e último dia, o seminário saiu do campus da PUCRS e levou os debates ao bairro Sarandi. A primeira parada foi a Escola Doutor Liberato Salzano Vieira da Cunha, parceira do evento e situada em uma das regiões afetadas pelas inundações de 2024. A mudança de espaço traduziu, na prática, um dos princípios centrais do encontro: aproximar a produção acadêmica das comunidades e buscar cocriar soluções em articulação com diferentes atores. “É necessário que a gente construa coletivamente nossa memória, que a gente dialogue sobre as possibilidades, que a gente compreenda a importância dessa articulação em rede”, destacou o vice-diretor Paulo.

 

A segunda parada foi no Quilombo dos Machado. O líder comunitário Rogério Machado, o Jamaica, recebeu pesquisadores. Lembrando a história do território, uma das maiores comunidades quilombolas do Brasil em número de pessoas, com 1.623 moradores distribuídos em 243 famílias e mais de 75 anos de existência, Jamaica contou sobre o protagonismo do Quilombo durante as enchentes de 2024: “Fomos o primeiro movimento social de todo o Sarandi a fazer esse trabalho. Fomos os primeiros a começar e os últimos a sair”, afirma.

 

“O microfone trocou de mãos. Ele saiu da academia e foi para a comunidade”.

 

A professora Rosângela Florczak sintetizou o impacto social da iniciativa: “O microfone trocou de mãos. Ele saiu da academia e foi para a comunidade”. Esse impacto se fez sentir também entre os jovens presentes. A estudante Francine, 15 anos, que viveu de perto as inundações no bairro Sarandi, destacou: “O que mais me marcou foi quando a palestrante francesa nomeou de catástrofe o evento que teve aqui em Porto Alegre. Eu posso falar com convicção, porque na minha rua, eu e minha mãe ajudamos várias pessoas a evacuarem de suas casas.”

O evento foi uma iniciativa do do Grupo de Pesquisa Cuidar_Com, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCom) da PUCRS, em parceria com a Escola Municipal de Educação Básica Doutor Liberato Salzano Vieira da Cunha e a Cátedra Fulbright da PUCRS, com apoio da CAPES, FAPERGS e SECOM/RS.

 

Manifesto público

 

Após as discussões e atividades, ao final do evento, foi lançado um manifesto público reiterando o papel da cultura do cuidado como norteadora da comunicação de risco enquanto política pública. Leia abaixo na íntegra: 

“Comunicação de risco é cuidado. É cuidado com as pessoas, suas vidas, vulnerabilidades, realidades, histórias, pertencimentos, sonhos. É dignidade.

Comunicação de risco não é a ferramenta, é a própria estratégia de sobrevivência.

Ao poder público propomos a escuta sensível, a disponibilidade legítima de dialogar com vozes historicamente silenciadas e que são ao mesmo tempo protagonistas de sua história, e da história que precisamos construir juntos.

As soluções não são dadas, mas podem ser construídas. Para isso, as relações de confiança entre governos e sociedade precisam ser resgatadas, reconstruídas, fortalecidas. Confiança não é infraestrutura. Se o investimento financeiro é um pressuposto, o seu sentido só se realiza quando conecto com aquilo que é humano, sensível, relacional. O cuidado que vislumbramos se dá na relação horizontal, coletiva, diversa. Isso é urgente. 

O conhecimento acadêmico precisa descer do pedestal. Compreender a realidade é caminhar ao lado de saberes locais. É no diálogo com os saberes ancestrais, tradicionais e comunitários que acontece a transformação social. Precisamos sair da comodidade de descrever e analisar a realidade do outro sem estabelecer a relação com o outro.

É crucial respeitar e construir caminhos com as comunidades locais, compreendendo o sentido dado ao risco pela experiência de cada território. A academia deve colaborar com esse processo e ser auto vigilante em seu suposto lugar de poder.

A comunicação de risco se realiza na cocriação, na troca, em rede. Na potência dessa união entre escola e universidade. No cuidado mútuo e coletivo.

A humanidade persiste e resiste no vínculo. Vínculo não é o cuidado para, é o cuidado com. Esse é o sentido que propomos para a comunicação de risco.

Uma comunicação que valoriza a experiência social aliada ao conhecimento técnico, e que prioriza a prevenção e não só o alerta. Uma informação que de fato comunique o que fazer e como agir.

A comunicação que cuida não enxerga a vulnerabilidade como uma relação hierárquica de poder.

O desastre de maio de 2024 permanece na memória das pessoas, no cotidiano das casas e das ruas. Muitos daqueles que sofreram e sofrem invisibilizados ainda buscam ser vistos, mesmo que algumas marcas sejam invisíveis.

Há mesmo toda essa resiliência esperançosa?

E os gatilhos de um próximo evento extremo já estão sendo acionados. Estamos preparados?

Acreditamos que é possível cocriar estratégias de comunicação e proteção coletiva. Esse é o propósito do Seminário Internacional de Comunicação de Risco e Cultura do Cuidado, realizado pelo Grupo Cuidar_Com junto ao Seminário de Movimentos Sociais da Escola Liberato Salzano Vieira da Cunha. 

Os encontros destes três dias foram o ponto de partida em direção a cultura do cuidado que desejamos, como norteadora da comunicação de risco enquanto política pública nesse mundo tão complexo e desafiador, em que precisamos resistir e re-existir, cuidando uns dos outros”.

Bairro Sarandi –  Porto Alegre (RS), 27 de maio de 2026.

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