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Racismo à brasileira – Educar e Cuidar



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e é de inteira responsabilidade do autor do texto. Contribua você também!

 

Valdo Barcelos – Prof. e escritor-UFSM

Em função dos movimentos antirracistas que se espalharam desde os EUA para o mundo, uma pergunta tem sido feita a intelectuais e pesquisadores das questões raciais no Brasil: porque o movimento negro aqui não tem a força e a visibilidade do movimento negro nos EUA? Os representantes de nossa elite intelectual, via de regra branca, ficam constrangidos. Não é para menos. É essa elite que ocupa os postos de comando nos tribunais, parlamentos, universidades, igrejas, Forças Armadas. Uma das respostas mais frequentes é que o Brasil se constituiu de forma menos violenta que os EUA quanto ao racismo. Essa resposta mostra o enorme sedentarismo intelectual de grande parcela da intelectualidade. Uma preguiça em refletir sobre o país real e um histórico servilismo das elites em relação aos demais intelectuais dos ditos países “desenvolvidos”. O antropólogo Da Matta, afirma que a elite brasileira é uma das mais insensíveis do planeta. Para Darcy Ribeiro, há que nos libertarmos das práticas acadêmicas de copiar e imitar os intelectuais de além-mar, para não nos transformarmos em “acadêmicos perfeitos”, do tipo que só se preocupa em colocar “poréns” nos textos que outros escrevem. De preferência textos de estrangeiros. O que anseia este tipo de intelectual é fazer doutorado fora e quando voltar recitar o que lá ouviu.

Em relação a como se produziu esse “esquecimento” da história do movimento negro no Brasil, vou me deter a apenas um caso: A Revolta da Chibata, que eclodiu no dia 22 de novembro de 1910 no Rio de Janeiro, e foi comandada pelo marinheiro timoneiro negro João Cândido Felisberto, o Almirante Negro. Vamos a um fragmento de um dos interrogatórios a que João Cândido foi submetido: “…o que foi? Engoliu a língua negro F*…?  – É o seu revólver regulamentar, senhor… – seu preto assassino, sabe o que vou fazer com este meu revólver regulamentar? Vamos, seu C*…, marinheiro do C*…! Aqui é um quartel do exército, tá entendendo? Aqui não é nenhum navio de merda, tá me entendendo: Aqui a negrada não manda! E não olhe nos olhos seu corvo imundo… tirem esse negro F*…da minha frente! Antes que eu cometa uma insensatez”. Retirado do livro João Cândido – o Almirante Negro, de Alcy Cheuiche (L&PM, 2010). A Revolta da chibata foi um movimento de marinheiros negros filhos de escravos que decidiram não mais aceitar o suplício a que eram submetidos pelos oficiais brancos da Marinha: a Chibata. Conhecida como o gato de nove caudas. O castigo só terminava quando o comandante do navio decidia. Tudo assistido pela armada. Foi após o marinheiro baiano Marcelino Rodrigues Menezes ter recebido 250 chibatadas de uma só vez, que João Cândido decidiu que isso nunca mais ia acontecer na marinha do Brasil. Nesse dia começou a planejar a Revolta. Os revoltosos acabaram presos, alguns imediatamente fuzilados, outros morreram nas masmorras de inanição, tortura e asfixia pelo calor. Nem julgados foram. Os sobreviventes foram deportados para a Amazônia para cumprir trabalhos forçados na implantação das linhas telegráficas e na Ferrovia Madeira/Mamoré. Durante a viagem de navio, vários morreram de doenças, outros foram fuzilados e seus corpos jogados ao mar. Pode dizer-se tudo, menos que a condição dos negros(as) aqui foi “menos violenta” que em outros países. Que vivemos numa “democracia racial” e outras incompetências intelectuais. Um alerta: documentos não dizem nada. Documentos apenas respondem às perguntas que lhes fizermos. Há que mudarmos as perguntas que se fazem sobre o passado histórico do Brasil. O país que, sozinho, recebeu o maior número dos 12 milhões de escravizados africanos: cerca de 5 milhões. Brasil, o último país do mundo ocidental a proibir, oficialmente, a escravidão de seres humanos. Para finalizar: alguém tem dúvida sobre quem morrerá mais pela COVID-19 no Brasil? Brancos ou negros?


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