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A resistência dos clubes de leitura em um Brasil cada vez mais afastado dos livros

Pesquisa Retratos da Leitura revela que os brasileiros que não leem são maioria pela primeira vez



SANTA MARIA, RIO GRANDE DO SUL

Em uma das salas de aula do Colégio Politécnico da Universidade Federal de Santa Maria, um grupo de estudantes do Ensino Médio organiza as classes em forma de roda. Se reúnem uma vez por mês para debater obras literárias. Estevan Drescher dos Santos é um dos alunos presentes, ele está no último ano do Ensino Médio e, nas palavras dele, “tentando recuperar um hábito que havia deixado de lado”. “Eu tinha perdido esse hábito de leitura por conta das atividades da escola”, conta. Ainda que as demandas estudantis tenham o afastado dos livros, foi dentro do Colégio onde ele encontrou o incentivo para a reaproximação. “Quando começou o projeto, comecei a voltar a ler ativamente”, relata.

Estevão faz parte do clube de leitura criado pelo ‘Laboratório de escrita’. Fundado em 2025 e idealizado pela professora professora Cândida Martins Pinto e pelo bibliotecário Daniel Machado, o clube é uma extensão das ações do laboratório. Por natureza, o clube de leitura do Politécnico, assim como diversos outros mundo afora, navega contra a enxurrada digital de hoje em dia. “Nós estamos no caminho contrário. Um caminho de processo e não de produto, de autodesenvolvimento, de olho no olho, de uma hora e meia em que ficamos sem o celular”, reflete Cândida.

Essa preocupação com a disputa entre as telas e as páginas preocupa o mercado literário. Conforme a Rafaela Pechanski, publisher da TAG Livros, um Clube de Assinatura de Livros brasileiro, o “maior concorrente da empresa são as telas”.  De acordo com ela, a disputa pela atenção “acontece o tempo inteiro entre as redes sociais, streaming, notificações e, a leitura exige justamente o contrário: presença, concentração e tempo de qualidade”, compara.

O grupo se reúne uma vez por mês para discutir obras literárias
A obra lida em maio foi O Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus

Mais telas, menos páginas

Dados do portal Electronics Hub mostram que o Brasil está entre os países com maior tempo de exposição às telas no mundo. Em média, os brasileiros passam 9 horas e 13 minutos por dia diante de dispositivos eletrônicos, o equivalente a 54,7% do período em que permanecem acordados. O país ocupa a segunda posição no ranking, atrás apenas da África do Sul, cuja média é de 9 horas e 24 minutos diárias, correspondendo a 56,8% do tempo acordado. O cenário brasileiro também se destaca quando comparado à média global, de 6 horas e 43 minutos por dia.

A tendência se repete no uso das redes sociais. Os brasileiros são os segundos que mais dedicam tempo a essas plataformas, com uma média de 3 horas e 37 minutos diárias – o equivalente a 21,48% do tempo acordado. Mais uma vez, a África do Sul lidera o ranking, com média de 3 horas e 41 minutos por dia, representando 22,26% do período em que seus habitantes permanecem despertos.

De fato, os clubes não só estão no caminho contrário a hiperconexão, como também existem em um Brasil onde a população está cada vez mais afastada dos hábitos de leitura. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil evidencia uma queda significativa no número de leitores no país nos últimos anos. Em 2019, 52% da população brasileira era considerada leitora, enquanto em 2024 esse percentual caiu para 47%, o que representa uma redução expressiva no hábito de leitura. 

Em números absolutos, o Brasil passou de cerca de 100,1 milhões de leitores para 93,4 milhões, ou seja, uma diminuição de aproximadamente 6,7 milhões de leitores em quatro anos . Pela primeira vez na série histórica da pesquisa, os não leitores se tornaram maioria, com 53% da população afirmando não ter lido nem parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento.

Quando se observa o recorte regional, o cenário também indica retração. Na Região Sul, o percentual de leitores passou de 58% em 2019 para 53% em 2024, acompanhando a tendência nacional de queda . Embora o relatório da pesquisa permita a leitura por unidade federativa, os dados detalhados por estado não aparecem de forma destacada.

Ainda assim, estudos específicos sobre o Rio Grande do Sul mostram um comportamento muito próximo da média brasileira: cerca de 51,7% dos gaúchos têm hábito de leitura, enquanto 48,3% não leem, indicando um cenário praticamente dividido e alinhado ao padrão nacional. 

No que diz respeito à escolaridade, a pesquisa reforça uma das tendências mais importantes para a análise da leitura no Brasil: quanto maior o nível de ensino, maior o percentual de leitores. O relatório aponta que pessoas com ensino superior apresentam os maiores índices de leitura, com cerca de 63% sendo leitores em 2024, apesar de uma queda em relação a 2019, quando esse número era de 68%. 

Já entre pessoas com ensino médio, o percentual também caiu, passando de 55% para 48%. Esse dado mostra que, mesmo entre os grupos com maior acesso à educação – incluindo estudantes universitários e pessoas já graduadas – há uma diminuição no hábito de leitura. Em paralelo, a pesquisa também indica que estudantes, de modo geral, leem mais do que não estudantes, muito em função das exigências acadêmicas.

Mas se as telas ocupam uma parcela cada vez maior do cotidiano, por que iniciativas presenciais como os clubes de leitura continuam atraindo participantes? Para Alessandro Valer, psicólogo e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFSM, a resposta pode estar justamente nos efeitos do excesso de conexão. Segundo ele, os jovens cresceram acompanhando a popularização da internet e dos smartphones, fazendo com que o ambiente digital se tornasse parte central da construção de suas identidades. No entanto, a relação constante com redes sociais, notificações e fluxos ininterruptos de informação também pode gerar um sentimento de saturação.

“O padrão de uso está majoritariamente marcado pelo consumo de conteúdos de maneira ininterrupta, com uma enxurrada de informações, notícias e estímulos. Essa grande quantidade de estímulos pode explicar esse maior interesse em atividades fora do meio digital”, explica.

Para Alessandro, a internet oferece inúmeras facilidades para estudo, trabalho e comunicação, mas pode se tornar um problema quando passa a ocupar uma posição central na vida das pessoas. Nesse contexto, o crescimento de atividades presenciais pode representar uma busca por experiências diferentes da lógica acelerada das plataformas digitais. “A internet exige que sejamos rápidos, que estejamos constantemente disponíveis. É uma exposição contínua a estímulos variados que exige um processamento cognitivo constante. E essa velocidade toda do online não é a mesma das relações humanas, das trocas que acontecem presencialmente”, afirma.

O valor dos clubes de leitura

Para Jean Silveira Rossi, pesquisador e doutorando em Comunicação no Poscom UFSM, os clubes ajudam a demonstrar que a leitura não precisa ser encarada como uma atividade exclusivamente escolar ou acadêmica. Ao contrário, ela pode ser uma experiência social, afetiva e democrática. “O livro era esse mediador, mas nunca ficava só ali”, explica Jean, que pesquisou sobre clubes do livro durante o mestrado.

Durante a pesquisa, realizada em clubes de leitura voltados à literatura escrita por mulheres, o pesquisador identificou que um dos principais atrativos desses grupos era justamente a possibilidade de troca. Havia quem buscava ampliar o repertório literário, conhecer novos autores e gêneros ou retomar um hábito abandonado ao longo dos anos. Outras procuravam algo menos palpável: companhia.

Essa percepção é compartilhada por Lisandra Schmitz, estudante de Letras Licenciatura da UFSM e bolsista do ‘Laboratório de escrita’, que reforça a proposta de criar um espaço de troca de experiências e diferentes interpretações sobre as obras. Segundo ela, o ambiente acolhedor é um dos principais diferenciais da iniciativa. “As pessoas se sentem à vontade para falar sobre o que elas quiserem do livro e ninguém é julgado. É uma conversa bem livre”, contextualiza.

Além de estimular novas leituras, os encontros também ampliam o contato dos participantes com obras que talvez não fossem escolhidas espontaneamente. Lisandra destaca que muitos livros lidos no grupo estavam fora de seus interesses habituais, mas acabaram proporcionando reflexões importantes. “Ler sabendo que vamos poder compartilhar nossas opiniões torna a leitura mais divertida”, afirma a estudante.

No caso da TAG Livros, a empresa realiza encontros regionais presenciais em que leitores se reúnem espontaneamente em cafeterias, bares ou livrarias para conversar sobre os livros do mês. Nesse contexto, Rafaela destaca que “essas experiências presenciais ganham ainda mais valor porque criam senso de comunidade e pertencimento a partir da literatura”.

As redes como uma carta na manga

Se por um lado as telas disputam a atenção dos leitores, por outro elas também têm se tornado aliadas na formação de novas comunidades literárias. Nos últimos anos, fenômenos como o “BookTok”, no TikTok, e o “Bookstagram”, no Instagram, transformaram a maneira como os livros são divulgados e discutidos, especialmente entre os jovens.

Nesses espaços, criadores de conteúdo compartilham resenhas, recomendações e experiências de leitura, influenciando diretamente o interesse do público por determinadas obras. O impacto foi tão significativo que livros publicados há anos voltaram às listas de mais vendidos após viralizarem nas redes sociais. Além disso, os ambientes digitais também deram origem a clubes de leitura online, que reúnem participantes de diferentes cidades e até países em encontros virtuais para debater obras literárias.

Para a TAG Livros, Clube de Assinatura de Livros brasileiro e empresa especializada em curadoria e incentivo à leitura, as redes sociais desempenham um papel importante na aproximação entre leitores e livros. “As redes sociais tiveram um papel muito importante em ampliar o interesse pela leitura e tornar os livros mais presentes nas conversas do dia a dia. O BookTok e o Bookstagram ajudaram a criar comunidades extremamente engajadas e despertaram curiosidade por autores, gêneros e temas que antes circulavam em nichos mais restritos”, destaca a empresa.

A TAG também observa que essas plataformas se tornaram espaços importantes para compreender o comportamento dos leitores. “Na TAG, estamos sempre muito atentos às tendências e às movimentações das comunidades leitoras nas redes. Em um sentido mais amplo, talvez, esses espaços funcionem como um termômetro importante para entendermos comportamentos, interesses e discussões que estão mobilizando os leitores naquele momento”, afirma a empresa.

Em 5 de abril de 2026 o Ministério da educação lançou a plataforma MEC Livros, uma iniciativa que disponibiliza gratuitamente milhares de obras literárias em formato digital para leitores de todo o país. A biblioteca virtual pode ser acessada por computador, celular ou tablet mediante login com a conta Gov.br e reúne, em seu lançamento, cerca de 8 mil títulos nacionais e internacionais, incluindo clássicos da literatura, obras contemporâneas e livros de domínio público. 

Segundo o MEC, os usuários podem realizar empréstimos digitais das obras por um período de 14 dias, com possibilidade de renovação. Em sua primeira semana de funcionamento, a plataforma registrou mais de 122 mil empréstimos e alcançou aproximadamente 300 mil usuários. Alguns dos títulos e autores que aparecem no acervo do MEC Livros incluem obras clássicas da literatura brasileira e mundial. Entre eles, destacam-se: 

  • Dom Casmurro, de Machado de Assis
  • Capitães da Areia, de Jorge Amado
  • Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski
  • A Metamorfose, de Franz Kafka
  • Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago

Confira ainda algumas indicações de leitura da redação do Bergamota aqui.

Acompanhe mais conteúdos em @jornalbergamota.

Reportagem: Gabriele Mendes e Nadine Guarize 
Produção e infográfico: João Victor Souza
Fotos e redes sociais: Jessica Mocellin
Edição: Pedro Moro
Supervisão: Luciana Carvalho

Conteúdo desenvolvido na disciplina de Jornalismo Digital III.

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