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Mais filmes, menos espectadores: como mudou a experiência de ir ao cinema no Rio Grande do Sul

Mesmo com mais filmes disponíveis e o audiovisual mais presente no cotidiano, os cinemas gaúchos ainda não recuperaram o público registrado antes da pandemia



Totem para compra de ingressos no Cinépolis Praça Nova em Santa Maria. Foto: Isadora Juliatto.

Em 2019, a democratização do acesso ao cinema foi tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Sete anos depois, a discussão continua atual. Embora o acesso ao audiovisual tenha aumentado por meio das plataformas digitais, a experiência da tela grande, da sala escura e da sessão compartilhada ainda não se recuperou após a pandemia de Covid-19, que alterou hábitos de consumo cultural e acelerou a migração para o streaming.

Dados do Sistema de Controle de Bilheteria (SCB) mostram que o Rio Grande do Sul passou de 7,7 milhões de espectadores em 2019 para 4,9 milhões em 2025, uma queda de aproximadamente 36%. Ao mesmo tempo, o número de filmes exibidos aumentou e o streaming passou a fazer parte da rotina de mais da metade dos lares gaúchos. A transformação do cinema, porém, vai além dos números.

Dados do Sistema de Controle de Bilheteria (SCB) disponibilizados pela Agência Nacional de Cinema (Ancine). Gráfico: Isadora Juliatto.

Menos pessoas nas salas

Sala de cinema vazia do Cinépolis Praça Nova em Santa Maria. Foto: Isadora Juliatto.

Os dados revelam que a recuperação do setor após a pandemia não foi suficiente para devolver o público aos níveis anteriores a 2020.

Após o impacto causado pelo fechamento temporário dos cinemas, houve crescimento gradual no número de espectadores entre 2022 e 2024. No entanto, a tendência de recuperação perdeu força em 2025, quando o público voltou a diminuir.

A redução ocorre em um cenário em que a experiência de frequentar uma sala de cinema se tornou mais cara. O preço médio do ingresso no Rio Grande do Sul passou de R$ 14,88 em 2019 para R$ 19,23 em 2025.

Dados do Sistema de Controle de Bilheteria (SCB) disponibilizados pela Agência Nacional de Cinema (Ancine). Gráfico: Isadora Juliatto.

Mesmo com menos espectadores, a arrecadação dos cinemas não caiu na mesma proporção. Isso acontece porque o aumento dos preços compensou parte da perda de público. 

Dados do Sistema de Controle de Bilheteria (SCB) disponibilizados pela Agência Nacional de Cinema (Ancine). Gráfico: Isadora Juliatto.

Os números indicam que os efeitos da pandemia vão além de uma queda momentânea na frequência às salas. Embora o público tenha retornado gradualmente após a reabertura dos cinemas, os hábitos de consumo audiovisual passaram por transformações significativas nos últimos anos. Nesse contexto, a disputa pela atenção dos espectadores deixou de ocorrer apenas entre os filmes em cartaz e passou a incluir uma variedade crescente de plataformas e formas de entretenimento.

Assistimos mais filmes do que nunca (mas em casa)

Plataformas de streaming democratizam o acesso, mas afetam a ida ao cinema. Foto: depositphotos.com/AntonGarin

Se as salas perderam espectadores, o consumo audiovisual não diminuiu. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua TIC 2024, 51,3% dos domicílios gaúchos possuem acesso a serviços de streaming. O Rio Grande do Sul está entre os estados brasileiros com maior presença dessas plataformas.

Dados do Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Gráfico: Isadora Juliatto.

Pesquisa da Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados mostra que apenas 28% dos brasileiros não assinam nenhum serviço de streaming. Já 45% possuem duas ou mais assinaturas.

Dados da Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados. Gráfico: Isadora Juliatto.

Para a integrante do Cineclube da Boca, Taiane Wendland, essa mudança alterou profundamente a relação das pessoas com os filmes.

“Hoje assistir filmes virou algo extremamente individual, fragmentado e acelerado. O cineclube faz justamente o contrário: insiste em uma experiência presencial, compartilhada e dialogada.”

A fala evidencia uma mudança que os números sozinhos não conseguem captar: o acesso ao audiovisual aumentou, mas a experiência coletiva do cinema perdeu espaço para o consumo individual.

Mais filmes disponíveis, menos espectadores

Um dos dados mais contraditórios do levantamento está na quantidade de obras exibidas. Em 2019, os cinemas gaúchos exibiram 409 títulos. Em 2025, esse número chegou a 496, o maior da série histórica analisada.

Dados do Sistema de Controle de Bilheteria (SCB) disponibilizados pela Agência Nacional de Cinema (Ancine). Gráfico: Isadora Juliatto.

O crescimento da oferta de filmes, porém, não se refletiu no aumento do público. A contradição levanta uma questão importante: se existem mais filmes disponíveis, por que há menos pessoas assistindo? Parte da resposta pode estar na forma como os espectadores passaram a consumir conteúdo audiovisual, mas também na própria estrutura do mercado exibidor.

O fenômeno revela uma mudança importante no consumo cultural. Se antes a escassez de opções era um dos principais obstáculos para o acesso ao cinema, hoje os espectadores convivem com uma oferta cada vez maior de conteúdos. Nesse cenário, a disputa deixou de ser apenas entre filmes e passou a envolver plataformas digitais, redes sociais, jogos eletrônicos e outras formas de entretenimento que competem pela atenção do público.

Cinema para quem?

Além das mudanças de hábito, o acesso às salas de cinema continua sendo desigual no território brasileiro. Uma reportagem do Portal Comunicare, baseada em dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine), mostra que 43,5% das salas de cinema do país estão concentradas apenas nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Dados da concentração de salas de cinema no território brasileiro. Fonte: IBGE e Ancine. Gráfico: Isadora Juliatto/via paintmaps

A mesma reportagem aponta que a região Sul perdeu 34% das salas de cinema na última década, ficando atrás apenas da região Centro-Oeste, que registrou redução de 35%. Enquanto isso, centenas de salas foram fechadas fora do eixo Rio-São Paulo.

Para Taiane Wendland, essa concentração ajuda a explicar por que muitas pessoas deixaram de frequentar os cinemas.

“Os cinemas estão concentrados majoritariamente nas capitais ou nos grandes centros. Existem muitas cidades do interior que sequer possuem uma sala de cinema.”

A concentração das salas nos grandes centros urbanos evidencia que o acesso ao cinema continua sendo desigual no país. Para parte da população, especialmente em cidades menores, assistir a um filme em uma sala de exibição depende de deslocamentos para municípios vizinhos ou simplesmente não é uma possibilidade disponível. 

O que não chega às telas

A discussão sobre o futuro do cinema também envolve a presença dos filmes brasileiros nas salas de exibição. Uma das principais políticas de incentivo ao audiovisual nacional é a Cota de Tela, mecanismo que determina uma quantidade mínima de dias para a exibição de produções brasileiras nos cinemas. A medida busca garantir espaço para obras nacionais em um mercado historicamente dominado pelos grandes estúdios internacionais.

Recentemente, uma reportagem da Folha de S.Paulo destacou críticas de representantes do setor audiovisual à forma como a política vem sendo aplicada. Entre os questionamentos está a ideia de que a obrigatoriedade de exibição, por si só, não garante que os filmes brasileiros atraiam público ou alcancem maior visibilidade.

O debate reforça uma preocupação apontada pelos entrevistados desta reportagem: nem sempre a produção audiovisual brasileira consegue alcançar visibilidade proporcional à sua diversidade. Para o coordenador do Cineclube da Boca, Gilvan Dockhorn, existe uma ampla produção nacional que raramente encontra espaço no circuito comercial.

“Você tem toda uma produção de curtas, médias, documentários, ficções e filmes experimentais que não encontra espaço nos cinemas convencionais.”

Segundo ele, a dificuldade não está apenas na produção das obras, mas também na sua circulação. Muitos filmes brasileiros independentes acabam restritos a festivais, mostras e cineclubes, o que limita seu alcance junto ao grande público.

O olhar de quem exibe os filmes

Cinema Arcoplex no Royal Plaza Shopping, em Santa Maria. Foto: Maiara Bersch / Agência RBS 

Se os números mostram uma redução do público nos cinemas gaúchos em comparação ao período anterior à pandemia, quem atua diretamente no setor também percebe mudanças nos hábitos dos espectadores.

Para Mario Filho, diretor da rede Arcoplex Cinemas, empresa gaúcha que mantém salas em cidades do Rio Grande do Sul e de outros estados brasileiros, incluindo o complexo de quatro salas no Royal Plaza Shopping em Santa Maria, a pandemia representou um ponto de ruptura para o mercado exibidor. Com os cinemas fechados por mais de um ano, muitas pessoas passaram a consumir entretenimento de outras formas e incorporaram novos hábitos ao cotidiano. 

“O mercado de cinema vinha numa crescente até 2019. Infelizmente tivemos a pandemia no início de 2020, isso fez com que os cinemas ficassem fechados por mais de um ano, fazendo com que as pessoas criassem novos hábitos de consumo.”

Segundo o diretor, apesar da queda registrada após a pandemia, o público vem retornando gradualmente às salas. No primeiro semestre de 2026, a Arcoplex registrou crescimento de aproximadamente 15% em relação ao mesmo período de 2025. O avanço, porém, ainda não representa uma retomada aos níveis observados antes de 2020, quando o setor vivia um período de expansão.

Embora o avanço das plataformas digitais tenha transformado os hábitos de consumo audiovisual, Filho avalia que as dificuldades econômicas enfrentadas pelos consumidores exercem impacto ainda maior sobre a frequência às salas de cinema. 

“O streaming sem dúvida afetou o mercado de cinema, mas o principal fator é o menor poder aquisitivo das pessoas, fazendo com que reduzisse a quantidade de vezes que ela vai ao cinema.”

O aumento dos custos operacionais também aparece entre os desafios enfrentados pelo setor. De acordo com ele, despesas como energia elétrica influenciam diretamente o preço dos ingressos, o que pode impactar a decisão do público de frequentar as salas com maior regularidade.

Para enfrentar esse cenário, os cinemas apostam naquilo que as plataformas digitais não conseguem reproduzir completamente: a experiência coletiva. Qualidade de som e imagem, tecnologia de exibição e a vivência compartilhada da sessão continuam sendo apontadas como diferenciais da tela grande.

Apesar das transformações no consumo audiovisual, Filho conclui que os jovens permanecem como o principal público das salas de cinema. Segundo ele, a faixa etária entre 16 e 26 anos concentra a maior parte dos espectadores da Arcoplex, o que reforça a importância da formação de novas gerações de frequentadores para a sustentabilidade do setor.

Os cineclubes como resistência cultural 

Sessão do filme Fim de Turno, produção independente do curso de extensão em Cinema e Audiovisual da UFSM. Foto: Cineclube da Boca (Divulgação) 

Enquanto o circuito comercial enfrenta dificuldades, cineclubes continuam funcionando como espaços alternativos de exibição e formação de público. Mais do que espaços dedicados à exibição de filmes, os cineclubes se consolidam como ambientes de encontro, debate e troca de experiências, ampliando o acesso à produção audiovisual independente e estimulando uma vivência mais coletiva e participativa do cinema.

Criado na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), o Cineclube da Boca mantém sessões semanais dedicadas exclusivamente à produção local e regional. Segundo Gilvan Dockhorn, coordenador do Cineclube, o projeto reúne em média 35 pessoas por sessão.

Segundo ele, esses espaços garantem visibilidade a obras produzidas fora dos grandes centros e dos padrões impostos pela indústria audiovisual, contribuindo para uma circulação mais democrática da cultura. Mais do que exibir filmes, os cineclubes buscam promover debates, aproximar realizadores e espectadores e ampliar o acesso à cultura. 

“O principal objetivo do cineclube é democratizar o acesso ao audiovisual.”

Além da exibição dos filmes, Gilvan destaca que os cineclubes criam ambientes voltados à reflexão sobre cinema, cultura e sociedade, ao mesmo tempo em que valorizam produções locais e regionais.

“Sem os cineclubes, eu não acredito que essa produção chegasse ao público.”

Formar público é mais do que vender ingressos

A formação de público é um dos conceitos centrais do movimento cineclubista. Para Taiane Wendland, frequentadora do Cineclube da Boca e Lanterninha Aurélio, formar público não significa apenas aumentar o número de espectadores.

“Quando falamos em formação de público, não estamos falando apenas de quantidade. Estamos falando de modos de assistir e de se relacionar com o cinema.”

A proposta dos cineclubes é incentivar um público mais ativo e crítico, capaz de dialogar sobre as obras e refletir sobre questões sociais, culturais e políticas. Para ela, a principal diferença entre um cineclube e uma sala comercial está na forma como o público se relaciona com a obra.

“Hoje assistir filmes virou algo extremamente individual, fragmentado e acelerado. Já o Cine Clube, ele faz o contrário, ele vai no sentido oposto, a gente insiste numa experiência presencial compartilhada e dialogada”.

Segundo Taiane, as sessões vão muito além da exibição dos filmes, com debates que frequentemente ocupam mais tempo do que os próprios filmes. 

“Muitas vezes a nossa sessão dura duas horas pra um filme que tem 17 minutos, então, dura muito mais o diálogo pós-filme, que aí pode ser pra falar sobre questões técnicas de produção, da narrativa do filme, questões sociais, culturais, políticas que estão dentro dessa história que é contada”, relata.

Ao oferecer sessões gratuitas, os cineclubes desempenham um papel fundamental na democratização do acesso à cultura. Esses espaços também contribuem para tornar a cultura mais diversa e inclusiva, oferecendo ao público a oportunidade de conhecer diferentes formas de fazer e pensar o audiovisual fora das grandes produções.

Além de promover o acesso ao audiovisual e estimular a formação de público, os cineclubes mantêm uma programação regular que permite aos espectadores acompanhar produções diferentes. Em Santa Maria, essas iniciativas se consolidaram como importantes pontos de encontro cultural, oferecendo atividades gratuitas e abertas à comunidade. Confira, a seguir, as sessões realizadas na cidade.

Conheça os cineclubes de Santa Maria

Cineclube Ateliê da Estação 

Local: Ateliê da Estação, na Rua Manoel Ribas, 1900, no Centro. Quando: No primeiro sábado de cada mês, às 19h

Entrada: Gratuita

A programação pode ser conferida pelo instagram @cineclube_atelie

Cineclube da Boca

Local: Auditório do prédio 67, Campus Sede da UFSM

Quando: Nas quartas-feiras, às 19h

Entrada: Gratuita

A programação pode ser conferida pelo Instagram @cineclubedaboca

Cineclube Lanterninha Aurélio

Local: Auditório da CESMA, Rua Professor Braga, 55

Quando: Nas terças-feiras, às 19h 

Entrada: Gratuita

A programação pode ser conferida pelo instagram @cesmasm

Clube de Cinema de Santa Maria 

Local: Auditório Claudio Cardoso na Rua Pinheiro Machado, 2712 

Quando: No último sábado do mês, às 14h30, podendo haver edições extras ao longo do ano

Entrada: Gratuito através de inscrição no e-mail: clubedecinemasm@gmail.com ou no WhatsApp (55) 98439-2565

CineMental

Local: Rua Floriano Peixoto, 1184 sala 308. Antiga Reitoria

Quando: Na última sexta-feira de cada mês, às 15h30

Entrada: Gratuita

A programação pode ser conferida pelo instagram @ens_ufsm

O futuro das salas e da experiência coletiva

Os dados analisados mostram que o cinema não desapareceu. O consumo audiovisual continua crescendo, impulsionado principalmente pelas plataformas digitais. O que parece estar mudando é a forma como as pessoas acessam e compartilham essa experiência.

Enquanto as salas comerciais enfrentam desafios relacionados ao preço dos ingressos, ao streaming e à concentração geográfica, iniciativas como os cineclubes mantêm viva uma dimensão coletiva do cinema que dificilmente pode ser reproduzida pelas telas domésticas.

Afinal, os gaúchos não deixaram de assistir filmes. O que mudou foi a forma de assisti-los.


Texto: Alexandre Vieira La Bella, Isadora Juliatto Piovesan, Luísa Brugnara Soccal, Marina Brignol De Llano Einhardt e Marina Ferreira dos Santos.

Supervisão: Luciana Menezes Carvalho.

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