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Quando eu (não) é outro: uma conversa com Fernando Resende



Docente do Departamento de Estudos Culturais e Mídia e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF), o professor doutor Fernando Resende será o palestrante da Aula Magna do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Santa Maria, na próxima sexta-feira, dia 8 de maio. O evento será realizado no Auditório do CCSH, no campus da UFSM, em Santa Maria, a partir das 9h30.

Pesquisador com ênfase nos estudos sobre comunicação, narrativas de conflito e movimentos diaspóricos, Resende vai abordar em sua fala com alunos e docentes da UFSM o tema “Quando eu (não) é outro: uma conversa sobre cortes e travessias”. Antecipando a pauta de debates, o professor concedeu entrevista ao POSCOM, comentando questões sobre alteridade, a representação do outro, comunicação e jornalismo. Confira:

O tema de sua fala na Aula Magna do Poscom tem a alteridade e a representação do outro na enunciação como questão central. Em um contexto como o que estamos vivendo hoje, em que conflitos militares e religiosos se espalham pelo mundo, questões de gênero provocam debates nos mais diferentes campos e, no cenário nacional, disputas ideológicas e políticas polarizam a população, qual a importância da comunicação refletir sobre este tema?

A comunicação, como sempre, é crucial no seu papel mediador. Vivemos hoje cenários de conflitos de diversas naturezas (geopolíticas, religiosas, territoriais, etc). Sabemos, claro, que sempre foi assim, no entanto, esses conflitos, dado o avanço tecnológico e o fluxo global de informação, são hoje experimentados com tanta contundência e imediatez que parece inevitável repensar o papel da comunicação, seja como campo de conhecimento ou prática. Além disso, é cada vez mais óbvio o quanto experimentamos esses conflitos nas suas formas complexas, por exemplo, questões religiosas estão absolutamente imbricadas em questões territoriais, o que inevitavelmente faz com que tenhamos que lidar com os entrelaçamentos e os hibridismos que esses conflitos evocam. Neste contexto, talvez devêssemos pensar que o caráter “mediador” da comunicação assuma nuances muito particulares. Não se trata de mediar para “dar a ver”, no sentido iluminista ou didático-explicativo do termo, pelo menos não tão-somente, mas de colocar em cena o próprio conflito, aquilo que nele se apresenta como paradoxal. Esses conflitos, muitos deles inclusive já de longa duração, acionam vários protagonistas, e por este viés, entre a diferença e o comum, há muitos desejos e muitos poderes em contraposição. À comunicação, do meu ponto de vista, caberia colocá-los em relação, de modo a deixar exacerbar o que no próprio conflito é da ordem do indecifrável. Isso altera o entendimento da comunicação como espaço de elucidação, pois o ideal da produção de uma “comunicação eficaz” teria que ser substituído pela valoração do ruído ou, no mínimo, pelo esforço de colocar em cena o atrito – ou a fricção – que os conflitos evocam.

Durante a SBPJor do ano passado, o senhor enfatizou a importância do jornalismo falar com o outro e não apenas para o outro e pelo outro. De que forma o jornalista pode produzir uma narrativa atenta à questão da alteridade? Qual o principal desafio na representação do outro no discurso jornalístico?

São muitos os desafios. Pensemos, por exemplo, nos de natureza ética, questão sobre a qual o jornalismo sempre se debruçou, não resta dúvida, mas exclusivamente, no meu entender, por um viés conteudístico. À luz de uma epistemologia condutista, “o que falar” sempre me pareceu uma questão central em se tratando de pensar o cuidado do jornalismo em relação ao outro, a este de quem e para quem se fala. Este viés, obviamente, segue sendo crucial (mesmo que cada vez aparentemente menos relevante do ponto de vista das práticas jornalísticas que temos acompanhado na atualidade). Porém, minhas reflexões e pesquisas têm me mostrado que a este viés do problema precisamos somar aquilo que diz respeito mais exclusivamente aos modos de representação do outro. Em termos mais amplos, e no caso específico do jornalismo, estou dizendo que a “forma”, sempre equivocadamente separada do conteúdo, passa a ser efetivamente um aspecto relevante. Se partirmos do princípio de que o jornalismo é antes de tudo “um problema de escrita”, havemos de reconhecer (e assumir como problema a ideia de) que a ele cabe representar e mediar os fatos do cotidiano, sendo que representar é aqui uma palavra fundamental que jamais pode ser confundida com “apresentar”. Por este viés teríamos que repensar o próprio exercício da linguagem, ou da escrita no jornalismo. Michel de Certeau, ao tratar do problema da alteridade, nos faz lembrar que o outro se apresenta na escrita pelo viés de “um resto”, ou poderíamos dizer de um rastro, um vestígio. Por esta perspectiva, ele é quase sempre o que a escrita subtrai, aquilo que se dá no limite de uma irrepresentabilidade. É, portanto, a partir deste problema que eu tenho pensado que a sustentação da ideia de objetividade como um dos princípios da escrita jornalística está em questão. Se a objetividade sempre foi um ritual estratégico, como há muito tempo nos disse Tuchman, havemos de pensar a que e a quem esta estratégia tem servido. Ao que me parece, nos modos como apreendemos este princípio, a objetividade tem sido bastante eficaz ao reiterar os autoritarismos e os sistemas de poder, seja do próprio jornalismo, do jornalista, ou mesmo das fontes, principalmente as ditas “oficiais”. Por este viés, este é um princípio que exclui o outro, tira de cena aquele que no cenário dos conflitos, por exemplo, é o “menor”, o “diferente”, o “estranho”. Este me parece um problema crucial, de difícil apreensão, mas fundamental para minimamente nos aproximarmos de um “falar com o outro”.

Suas pesquisas atuais têm como principal foco os conflitos no mundo árabe. De que forma a mídia têm representado estes povos e seus conflitos?

Em aspectos generalistas, temos uma mídia de viés “orientalista”, um termo importante para pensarmos os princípios, valores e saberes que têm regido as mídias que tradicionalmente conhecemos. Ela fala a partir de uma visão muito reduzida, muito pouco aberta ao espaço e aos mundos que não fazem parte do seu escopo de entendimento. Os conflitos do mundo árabe, incrivelmente diversos nas suas formas e conteúdos, conforme tenho podido ver, são claramente alvos de representações midiáticas preconceituosas, tomadas por estereotipias, por visões lacunares a respeito da geografia nas quais se inscrevem e dos povos que os experimentam de modo mais imediato. Para o Ocidente, o Oriente parece ter sido sempre o outro, o estranho, o diferente, o inacessível. Do ponto de vista da produção de conhecimento e da legitimação de práticas “civilizatórias”, as sociedades ocidentais, para que pudessem existir, ativaram o processo de “invenção do Oriente”, o “outro lado do mundo”, que então para nós se tornou “eles”. É, de certa forma, com este Oriente “inventado” que hoje lidamos, é ele que as mídias representam, é por eles, e não com eles que nossas mídias falam. Sabemos que o outro, desconhecido e deslegitimado, facilmente se torna o bárbaro. E sob a perspectiva da divisão nós/eles, sabemos também, quem vence são sempre os mesmos.

Qual sua expectativa em relação ao encontro com alunos e docentes do POSCOM? Como você vê estes momentos de intercâmbio de experiências e conhecimentos entre os programas de Pós-Graduação?

Gosto muito da possibilidade da conversa; este é também um dos princípios básicos quando queremos pensar e quando acreditamos na co-existência do diverso. Além de tudo, levo muito a sério a ideia de que o espaço da sala de aula, no seu sentido mais amplo possível, seja por excelência um espaço político, micro, sem dúvida, mas essencial por ser espaço de produção de saberes e reinvenção de imaginários. Esses encontros, pra mim, significam a possibilidade de ocuparmos juntos este espaço, produzindo, quem sabe, o ideal de um fazer político e estético.


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