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Psicologia do medo



Por que sentimos medo, e como ele é explorado pelos filmes de terror?

Outubro: o mês do Halloween. É nesse período que entusiastas de obras aterrorizantes encontram um motivo a mais para apreciarem as narrativas que exploram o sombrio. Sejam os clássicos ou as novas produções, os filmes de terror provocam curiosidade e despertam sentimentos que nos deixam na beira da poltrona. A principal das sensações provocadas é o medo.

Mas afinal, por que o sentimos? E como as narrativas de terror exploram as suas mais diversas facetas?

Situações de arrepiar

O medo é basicamente a maneira que o corpo encontra de nos preparar para algo que nos represente ameaça ou perigo. Quando somos confrontados com uma situação como esta, o cérebro envia para o corpo sinais que buscam maximizar as chances de sobrevivência. As partes do cérebro responsáveis por essa reação são, principalmente, a amígdala – que faz parte do sistema límbico, onde, por exemplo, processamos as emoções – e o córtex frontal – a parte do cérebro que trabalha, entre outras coisas, com a resolução de problemas e com o controle de impulsos. 

Visto isso, vale lembrar que os sinais sensoriais chegam mais rápido na amígdala – que aciona o pânico e produz uma resposta “instintiva”.  Isso explica o motivo de às vezes nos assustarmos de início e, após a mensagem chegar ao córtex frontal, local que promove o pensamento consciente e racional, percebemos que o que antes nos representou uma ameaça, não necessariamente era uma.

Nesses momentos de estresse, o cérebro libera hormônios químicos – a adrenalina e o cortisol – na corrente sanguínea. Assim, reagimos de maneira fisiológica: há um aumento da pressão sanguínea, da frequência respiratória e dos batimentos cardíacos, além da pupila dilatar e os pelos se arrepiarem. No caso do medo, essas alterações buscam aumentar as chances de sucesso num possível confronto com a ameaça, já que nesse contexto, existem apenas duas reações: lutar ou fugir.

Porém, respostas físicas como a dilatação da pupila e a aceleração dos batimentos cardíacos também acontecem em outros momentos, como por exemplo ao vermos a pessoa amada. É por isso que, segundo o professor de Ciências Sociais da UFSM e doutor em sociologia, Francis de Almeida, ao tratarmos do medo além da óptica de “reação” automática, ele se caracteriza como uma emoção provocada por uma percepção.

Assim, o professor explica que existe um debate entre duas linhas principais: a naturalista – que pensa no medo como manifestação universal entre seres humanos – e a culturalista – que considera as variações que decorrem dos diferentes valores perceptivos de cada um. “A naturalista diria: há elementos que são universalmente produtores de reações de medo. Enquanto a culturalista diria: aquilo que é percebido como objeto causador de medo varia histórica e culturalmente de acordo com o estoque cultural daquela pessoa.”

A segunda concepção justifica a principal diferença entre o medo humano e o medo animal: nós, humanos, não tememos as mesmas coisas. Isso porque o medo é causado pela percepção que temos de objetos e contextos – a qual seria subjetiva, baseada nas interações que estabelecemos com o desenvolvimento pessoal e a estrutura social e simbólica na qual estamos inseridos. Francis lembra que um exemplo disso seria o fato de algumas pessoas se sentirem confortáveis em assistir filmes de terror do subgênero “gore” – caracterizado pelas representações gráficas de sangue e violência –, enquanto outras não.

A subjetividade de nossas percepções, explica o professor, também se relaciona com o fato de estímulos externos percebidos como ameaçadores e produtores medo, não necessariamente serem ameaças reais. Porém, se não formos considerar o medo como uma manifestação patológica, em certas proporções ele é necessário para a proteção da espécie – na medida que pode nos alertar para situações de perigo e assim, as evitar. 

Stephen King e os três níveis do horror

Já entendemos que apesar de natural para todas as espécies, o medo pode ser algo extremamente relacionado com a subjetividade e com aspectos culturais humanos. Mas como essa premissa se adapta às narrativas ficcionais? E afinal, o que o que faz uma série ou um filme de terror serem bons? Stephen King, aclamado escritor norte-americano do gênero, tem uma teoria sobre isso.

O autor, que conta com um acervo de mais de 60 romances e de 200 contos, recebeu a Medalha de Eminente Contribuição às Letras Americanas da National Book Foundation em 2003. Ele escreveu clássicos do terror como “Carrie, a estranha”, “O Iluminado” e “It – a coisa”, os quais foram posteriormente adaptados para as telas de cinema – e fazem parte das mais de 100 adaptações feitas das obras de King. Segundo ele, existem três níveis a serem aplicados em uma narrativa do gênero: a repulsa, o horror e o terror.

A repulsa é o nível mais básico e busca infiltrar o sentimento de medo a partir do nojo, ao causar aos espectadores a reagirem fisicamente. Segundo a psicóloga e mestranda em Psicologia pela UFSM, Bruna Schmitz, apesar da repulsa e o medo não serem correspondentes biologicamente, a sua relação é um exemplo de porque temos “medo” de insetos: “O objetivo do medo é nos preparar para lutar ou fugir de situações de perigo. O nojo, por sua vez, cumpre o papel de nos afastar de objetos, alimentos, cheiros, entre outros; que possam ser danosos para o corpo de alguma forma. Assim, faz sentido que, ao sentirmos nojo, também possamos sentir medo, pois o primeiro pode levar ao segundo, uma vez que também põe em risco nossa sobrevivência”.

O horror é a representação do inacreditável ou do impossível – ao fazer com que os espectadores reajam à anormalidade do que presenciam. Nesse sentido, a psicóloga diz que é justamente a falta de conhecimento sobre o objeto que nos aterroriza, ao nos sentirmos despreparados para lidar com a situação: “Não sabemos quais são as características do ‘monstro’ ou ‘entidade do mal’ escondida nas sombras, e com isso nos mantemos sempre preparados para lutar ou fugir desse possível risco. O desconhecido, estranho ou anormal é o que faz o cérebro se manter alerta e preparado para se proteger.”

Por fim, o terror é o elemento utilizado em momentos de suspense, quando se induz o medo pela imaginação – ao se brincar com a falta de informação sobre o contexto. Um exemplo disso é o medo de escuro. Para Bruna, “Ao deixarmos de ver o rosto de alguém, ou de poder enxergar o ambiente a nossa volta, ou de não saber o que acontecerá a seguir, o cérebro irá propor diferentes cenários possíveis para que nos preparemos. Assim, a falta de informações sobre o meio nos faz estarmos preparados para lutar ou fugir de possíveis ameaças, que podem nem estar lá.”

Histórias implacáveis 

“Não é necessariamente a aberração física ou mental que nos aterroriza, mas a falta de sentido e ordem que essas anormalidades podem apresentar” – Stephen King

Essa citação de King representa o último aspecto que pode explicar o porquê de suas narrativas de terror serem tão implacáveis: suas obras abrangem não apenas monstruosidades, mas também aspectos de nossas vidas cotidianas. Muito semelhante a ele nesse processo, H. P Lovecraft, autor estadunidense que revolucionou a escrita de terror no início do século 19, trazia em suas obras – marcadas pela fantasia e pela ficção científica – monstros que eram metáforas para seus medos reais, como o desenvolvimento tecnológico.

Apesar de King também explorar os medos mais individuais – baseados em fobias -, eles atingem apenas um público mais seleto, enquanto tratar sobre os medos da sociedade em geral é o que dá às suas narrativas um toque especial. Segundo a análise feita pelo canal do YouTube “Insider”, um exemplo disso seria “O Iluminado”, que explora os contextos patriarcais da sociedade americana da época. 

A verdade é que diversas produções do gênero de terror acabam por ser extremamente bem sucedidas no mercado. O cinematográfico, por exemplo, conta com a maior bilheteria de 700,4 milhões de dólares, com a versão de 2017 de “It: A coisa”. Mas o nosso interesse por elas poderia significar que gostamos de sentir medo?

Segundo a psicóloga Bruna, ainda que não gostemos de sentir medo – ele nos proporciona altos níveis de estresse – depois de um grande susto ou no final de narrativas marcada por eles, nosso cérebro recebe uma grande dose de endorfina, que causa sensação de relaxamento. “Uma possível explicação é que essa endorfina “pós-medo” faz com que as pessoas se sintam atraídas por narrativas desse tipo, e queiram repetir a experiência. Outra possível explicação é de que, enquanto estamos com medo, nosso foco principal é processar e avaliar os estímulos envolvendo essa resposta, o que ‘bloqueia’ outros pensamentos e ‘preocupações’ menos relevantes para a sobrevivência. Nesse caso, se você estava ruminando pensamentos sobre uma briga com um amigo, mas agora está imerso em uma narrativa de fuga de um serial killer, seu foco atencional será todo dirigido para esse último tema. Por isso, é comum pessoas ‘se sentirem menos preocupadas’ depois de um filme ou livro de terror.”

Embora a existência do medo se relacione diretamente com a importância que nós – e a sociedade em que vivemos – damos a ele, uma narrativa complexa e detalhada tem mais possibilidades de envolver e, assim, afetar os espectadores. Por isso, quase esquecemos que não somos nós ao fugir de um assassino ou desbravar uma casa mal assombrada. De qualquer maneira, sentimos como se fosse. 

Se sentiu inspirado? Confira a lista de filmes de terror da Arco e dá uma olhada em algumas séries do gênero que indicamos para você:

Expediente

Repórter: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Ilustradora: Yasmin Faccin, acadêmica de Desenho Industrial e estagiária

Mídia Social: Nathália Pitol, acadêmica de Relações Públicas e bolsista

Editor: Maurício Dias, jornalista


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