Ir para o conteúdo Revista Arco Ir para o menu Revista Arco Ir para a busca no site Revista Arco Ir para o rodapé Revista Arco
  • Acessibilidade
  • Sítios da UFSM
  • Área restrita

Aviso de Conectividade Saber Mais

Início do conteúdo

Setembro amarelo: solidão na pandemia

Estudo que contou com a participação de pesquisador da UFSM investiga o impacto das relações sociais nos pensamentos sobre suicídio dos brasileiros



Esta matéria possui conteúdo que pode desencadear fortes emoções.

Caso você esteja passando por um momento de maior sensibilidade tenha cautela ao prosseguir com a leitura. Se se sentir desconfortável interrompa a leitura e volte quando estiver mais forte emocionalmente.

A cada 41 minutos, alguém tira a própria vida no Brasil. Só em 2020, houve mais de 12 mil registros de suícidio, de acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O distanciamento social, associado ao medo e ao estresse também decorrentes da pandemia de Covid-19, afetou a saúde mental dos brasileiros. Contudo, a principal causa de pensamentos suicidas nesse período foi o sentimento de solidão – algo que não está necessariamente associado ao isolamento.

Um estudo que contou com a participação do professor Maurício Hoffmann, do Departamento de Neuropsiquiatria da UFSM, analisou se aspectos subjetivos, como a solidão; e medidas objetivas, como distanciamento social e morar sozinho, podem levar à ideação suicida. A pesquisa, desenvolvida nos primeiros meses da pandemia, foi feita em duas etapas: a primeira entre maio e junho e a segunda entre junho e julho de 2020. Ela teve a participação de 1674 pessoas que responderam questionários online e constatou que, dentre as variáveis analisadas, a solidão foi a mais significativa.

“Não encontramos evidências de que o auto-isolamento e o distanciamento social aumentassem o sentimento de solidão – pode ser que essas pessoas já se sentissem sozinhas antes. Outros estudos também mostraram que as medidas de controle da pandemia não necessariamente irão colaborar no aumento de pensamentos suicidas”, analisa Hoffmann. A solidão apresentou grande fator de risco e foi constantemente associada com a ideação suicida na pandemia. Mesmo levando em consideração sintomas de depressão, ansiedade, uso de álcool e medicamentos, o sentimento foi o principal determinante para a ocorrência de pensamentos suicidas.

A solidão é uma sensação subjetiva de despertencimento, que pode existir mesmo quando o sujeito está acompanhado de muitas pessoas. Hoffmann explica que a solidão é um sentimento muito desesperador que causa grande sofrimento e pode ser classificado como um sintoma depressivo: “Por mais que os outros queiram ajudar uma pessoa com solidão, ela vai se sentir incompreendida e, mesmo rodeada de amigos, ela ainda vai se sentir solitária. Para ela, o mundo não é mais o mesmo, ela não reconhece mais o que construiu e viveu, por isso é um sentimento muito doloroso”.

De acordo com os resultados de um levantamento feito pelo Instituto Ipsos no início deste ano, os brasileiros são o povo que mais se sente solitário na pandemia. A pesquisa, que ouviu 23 mil pessoas de 28 países, também revelou que 52% dos participantes do Brasil afirmaram que esse sentimento de solidão cresceu no segundo semestre de 2020. 

O impacto das emoções na saúde mental

As emoções e os sentimentos estão presentes na vida de todos os seres humanos, mas, por possuírem diferentes manifestações, podem ser difíceis de serem explicados. O professor do Departamento de Filosofia da UFSM, Flávio Williges, é especialista em Filosofia das Emoções, área que busca estudar a natureza das emoções e a sua relação com outros domínios da condição humana. Ele explica que os sentimentos – como o de solidão – podem impactar significativamente a saúde mental das pessoas e até mesmo gerar distúrbios mentais. 

Para ele, as emoções são como um alarme: quando algo significativo acontece, ele dispara para ajudar a pessoa a monitorar o ambiente e, assim, se adaptar. O problema surge quando este “alarme” dispara por tempo demais. “Ele acaba te deixando preso naquela ameaça que está sendo sugerida pelo seu estado emocional e acaba por afetar outros segmentos da sua vida. Então a pessoa não vai conseguir focar em realizar suas atividades rotineiras, pois a atenção estará sempre direcionada para o risco”, complementa Williges.

Assim, as emoções podem tomar conta da mente e fazer com que a pessoa fique presa dentro da ativação que elas promovem. Isso, associado com a mudança emocional que eventos traumáticos causam, pode gerar consequências graves. Nesse sentido, a pandemia de Covid-19 pode ser considerada um evento traumático, e a pesquisa integrada por Hoffmann associa o sentimento subjetivo de solidão à incidência de ideação suicida.

Segundo Williges, a solidão pode ser classificada em três tipos: a solitude, a solidão transitória e a solidão crônica. A solitude é, de certa forma, positiva. É um tipo de solidão necessária e que ajuda as pessoas, pois se trata do ato de se isolar para se concentrar melhor em uma tarefa, para relaxar ou para se organizar. Já os outros dois tipos são mais preocupantes.

Williges classificou como solidão transitória um sentimento de solidão mais leve e momentâneo, percebido em muitas pessoas na pandemia. Esse tipo de solidão é marcado pela consciência de que a sensação não vai perdurar para sempre e de que o convívio social será restabelecido. Além de que o período também possui consequências positivas, como um processo de autoconhecimento e de reformulação do círculo social, na medida em que a pessoa passa a perceber quem realmente é importante em sua vida. Entretanto, o docente reforça que a pessoa com solidão, mesmo que transitória, sente-se desprovida de conexão e abandonada no mundo.

O terceiro tipo de solidão é o mais perigoso. A solidão crônica é inteiramente negativa: quem a sente se percebe distante das pessoas e não consegue mais estabelecer laços sociais significativos. “O que a pessoa sente internamente é um vazio muito grande, como se estivesse sozinha no mundo, sem ninguém para se apegar, e sente que não tem por quem viver. Por isso, a ideação suicida é parte do padrão de resposta da solidão”, explica Williges.

O filósofo também atenta que nem sempre é fácil identificar qual tipo de solidão está sendo experimentado. Além disso, é possível que a solidão transitória se torne crônica. Alguns fatores como personalidade, grau de comprometimento social e padrão comportamental em relação à família podem fazer com que uma pessoa evolua rapidamente para um caso grave de solidão crônica.

Como combater a solidão

Por ser um dos fatores de risco para desenvolvimento de transtornos mentais e para o suicídio, a solidão é muito perigosa e deve ser tratada com seriedade. Alguns países já possuem grande preocupação com o tema e buscam maneiras de combatê-la. Em 2018, o Reino Unido criou o Ministério da Solidão para lidar com as altas taxas de doenças mentais nas pessoas que vivem com o sentimento. 

Outro país que está atento ao assunto é o Japão: durante a pandemia, a taxa de suicídio no país teve a primeira alta de casos em 11 anos, e o governo também decidiu instaurar um Ministério da Solidão.

Hoffmann explica que essas ações são formas válidas de tratar a solidão, pois tendem a incentivar políticas de assistência social e iniciativas de participação social. Para ele, acesso a serviços públicos de saúde, ações de transferência de renda, incentivo à educação e combate à violência são algumas medidas benéficas para a saúde mental da população que os governos podem adotar.  

No aspecto individual, o psiquiatra também dá algumas dicas para pessoas que sentem solidão como: conversar com um amigo pelo menos uma vez na semana, frequentar lugares públicos como praças e realizar atividades de convivência social. As redes sociais e a internet também são boas aliadas: usar plataformas de vídeo chamada, por exemplo, pode fazer com que as pessoas se sintam conectadas e menos sozinhas. “A internet é uma parte importante da interação social, eu acho que usar a conexão digital para socialização pode ter impactos positivos, principalmente em pessoas com solidão”, diz Hoffmann. 

Para Williges, além de fazer acompanhamento psicológico, é importante ter em mente que, quando se trata de relacionamentos, qualidade é melhor que quantidade. Assim, é importante tentar manter relações saudáveis com pessoas que prestam ajuda nas adversidades e que estimulam a vontade de viver. 

Além disso, é fundamental cuidar da saúde mental. Nesse sentido, Hoffmann recomenda dormir bem, fazer atividade física, manter uma alimentação saudável e fazer pausas para descanso. Ainda, o psiquiatra destaca que se deve ficar atento para detectar precocemente problemas a fim de buscar ajuda profissional o mais rápido possível. 

Prevenção ao suicídio e onde procurar ajuda

É possível e necessário ajudar pessoas com ideações suicidas e, segundo Hoffmann, há três passos que podem ser seguidos nesse sentido: o primeiro é perguntar se a pessoa tem pensamentos suicidas e/ou relacionados à morte, conversar abertamente com a pessoa sobre seus pensamentos suicidas não a influenciará a completá-lo; o segundo é reconhecer o seu sofrimento e dizer que você a entende; por último, incentivar a pessoa a fazer terapia e a buscar tratamentos, de forma a mostrar que existe uma solução. 

“A ideação suicida é um sintoma de alguma coisa, 90% das vezes existe um transtorno mental por trás que pode e deve ser tratado. Há sim saída, o suicídio é a forma de não dar nenhuma chance para o alívio do sofrimento. Toda emoção é transitória, não existe emoção permanente, então esse sentimento vai passar”, afirma Hoffmann.

Um dos falsos mitos em torno do suicídio é que a pessoa não avisa e não fala sobre isso; contudo, deve-se considerar seriamente os sinais de alerta. Alguns deles são: preocupação com sua própria morte ou falta de esperança, visão negativa de sua vida e futuro, expressão de ideias ou de intenções suicidas, isolamento social, agir como se estivesse se despedindo das coisas. Comentários como “vou desaparecer”, “vocês estariam melhor sem mim”, “eu queria poder dormir e nunca mais acordar” ou “eu acho que não faria muita falta” podem parecer sinais óbvios, mas são muitas vezes ignorados. 

Existem muitos locais que oferecem ajuda para prevenir o suícidio. Em âmbito nacional, pode-se ligar para o Centro de Valorização da Vida – CVV no número 188. Na cidade de Santa Maria (RS), pode-se procurar por atendimento psicológico gratuito nos seguintes locais: Santa Maria Acolhe, Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e na Policlínica Nossa Senhora do Rosário. Quando já houve tentativa de suicídio, é necessário encaminhamento para o pronto socorro, como o Pronto Atendimento do Patronato e o Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM) que possuem serviços de psiquiatria públicos.

Expediente

Repórter: Rebeca Kroll, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Ilustrador: Luiz Figueiró, acadêmico de Desenho Industrial e voluntário

Mídia Social: Samara Wobeto, acadêmica de Jornalismo e bolsista; Eloíze Moraes e Martina Pozzebon, estagiárias de Jornalismo

Edição de Produção: Esther Klein, acadêmica de Jornalismo e bolsista

Edição Geral: Luciane Treulieb e Maurício Dias, jornalistas

Publicações Relacionadas

Publicações Recentes