A revista O QI, produzida por estudantes do curso de Produção Editorial da UFSM na disciplina de Projeto Experimental para Revistas Científicas, chega à sua 15ª edição. Esta publicação propõe reflexões sobre o tema “Mulheres Latinas que ocupam, criam e transformam: perspectivas de protagonismos culturais”. Com o objetivo de representar visualmente este conceito, a equipe de projeto gráfico se inspira na estética dos ladrilhos e mosaicos, elementos tradicionais nos lares latino-americanos, para construir a identidade visual da revista, tanto em sua versão impressa quanto em seu posicionamento digital.
Nesse cenário, convidamos a artista, jornalista e escritora Fernanda Moreira, idealizadora do projeto “A Ladrilha”, para compartilhar sua trajetória e os caminhos que a levaram a transformar a palavra em presença no espaço público. A partir de sua vivência, ela aborda questões como autoria, pertencimento e resistência, revelando como a arte e a escrita podem atuar como ferramentas de ocupação para mulheres latinas.
O projeto teve início em 2017, no Rio de Janeiro, a partir da necessidade que Fernanda encontrava de colocar sua palavra no mundo. A ideia inicial não tinha muitas pretensões em relação ao digital nem buscava alcançar grandes proporções; surgiu, sobretudo, como uma ferramenta de expressão para a artista, que enxergava na escrita uma forma de se comunicar com o outro. Fernanda ressalta que sua graduação em jornalismo serviu como um reforço para esse desejo, mas também como confirmação de que o modelo tradicional da área não era exatamente o que buscava. A escolha pelo ladrilho 16X16 se deu na busca de uma forma diferente de expressão artística, distinta das intervenções já comuns nas ruas cariocas, como o lambe-lambe e o grafite.
O nome do projeto surgiu em um momento em que a artista ainda se sentia insegura para expor sua própria identidade. “A Ladrilha”, no feminino, nasceu então, como uma maneira de se manter no anonimato e, ainda assim, compartilhar sua arte. Durante a entrevista, Fernanda destacou que o projeto foi fundamental para o desenvolvimento de sua autoestima, tornando-se não apenas uma ocupação do espaço público pela palavra, mas também um “projeto de ocupação de mim”.
No decorrer do tempo, à medida que conquistou legitimidade em relação ao próprio trabalho e diante da oportunidade de publicar livros, a artista incorporou seu nome à biografia da marca. Dessa forma, sua arte tornou-se não apenas em um movimento de auto expressão, mas também em um processo de cura.
[PG]: Como a sua área de atuação inicial (o jornalismo) influenciou para que o projeto ganhasse a proporção que ele tem hoje?
Fernanda afirma que sua formação em jornalismo e a trajetória na comunicação de marcas foram fundamentais para o desenvolvimento de “A Ladrilha” enquanto projeto. Atuar em empresas e projetos culturais ao longo da carreira, permitiu que ela mantivesse uma relação próxima com o fazer jornalístico, especialmente na produção de conteúdos e no contato com artistas. Segundo ela, essa experiência contribuiu para a construção de um olhar ético e o compromisso com “a verdade daquilo que você se propõe a falar”.
Além disso, destaca que a área da comunicação a ajudou a estruturar “A Ladrilha” enquanto marca, tornando-a mais clara e acessível ao público. Ainda assim, reconhece as dificuldades de aplicar essas estratégias ao próprio projeto, apontando que comunicar seu trabalho segue sendo um desafio pessoal, mesmo com toda a bagagem profissional.
No que diz respeito ao seu processo criativo, Fernanda entende que o ladrilho, por ser um espaço restrito, exige estratégias de síntese. Nesse sentido, sua formação jornalística foi essencial para o exercício de “cortar palavras”, permitindo que a mensagem fosse lapidada para caber na cerâmica, transformando a escrita em um trabalho braçal e diário.
[PG]: Como funciona seu processo criativo e quais referências você traz para suas obras?
Fernanda explica que seu processo criativo é consistente, diário e regular. Ela busca não depender de inspirações pontuais ou, como costuma dizer, de “esperar a luz mágica e milagrosa acontecer” para começar a criar. Para a artista, a criação está intrinsecamente ligada à constância e à maneira como absorvemos o mundo ao nosso redor.
Nesse sentido, relembra uma experiência recente ao assistir a uma palestra de Fernanda Montenegro, na qual a atriz afirmou que “tudo importa”. Essa fala ressoa em seu fazer artístico como: “tudo que você assimila, tudo que você engole e digere artisticamente, toda linguagem artística importa, mesmo que você não faça uso dela”.
A partir dessa perspectiva, o processo criativo de Fernanda Moreira inicia-se na observação e na leitura de mundo, elementos que considera fundamentais para a construção de repertório. Embora a artista destaque a importância da literatura como um pilar essencial na formação de um “repertório de palavras, de imaginação, de contexto e de linguagens”, ela amplia essa noção para além dos livros. Para a carioca, a experiência cotidiana é matéria-prima da criação; criar envolve, portanto, “olhar para as pessoas, ouvir o que elas estão falando, entender o mundo do outro”, construindo um universo interno que se fortalece nessas trocas.
Nesse contexto, a escuta aparece como um eixo central das produções de “A Ladrilha”. Esse exercício de atenção é diretamente atravessado por sua formação em Jornalismo, que a ensinou a importância de “ouvir todos os lados”. No plano prático, a artista mantém a escrita e a leitura como práticas recorrentes, ainda que reconheça os atravessamentos da vida cotidiana. Ela pontua: “a gente é atravessada por milhões de coisas, eu preciso pagar conta”, o que nem sempre permite uma dedicação constante. Contudo, encara esse movimento como uma disciplina, um exercício diário ao qual busca se manter fiel.
Atualmente, suas principais referências residem em autoras latino-americanas, com destaque para a poeta argentina Alejandra Pizarnik, uma de suas maiores inspirações no momento. Para a artista, o processo criativo nasce da atenção constante ao mundo e às trocas cotidianas. As ladrilhas podem surgir de diferentes formas: por vezes, uma frase transforma-se em um texto maior; em outras, um texto já escrito é condensado até virar uma intervenção. Há também momentos em que uma simples conversa desperta uma ideia imediata, registrada rapidamente em seu bloco de notas. Segundo Fernanda, criar exige estar “sempre atenta” e manter “esse corpo disponível e disposto para receber”, compreendendo a criação como um exercício contínuo de escuta, observação e sensibilidade.
[PG]: Que tipo de impacto e sensação você busca gerar nas pessoas que encontram suas intervenções ou adquirem suas peças?
Por meio dos ladrilhos, a artista busca estabelecer um diálogo com o público, construindo uma conversa com outra pessoa através da arte. Devido às dimensões reduzidas das peças, o trabalho acaba atraindo os olhares daqueles que se atentam aos pequenos detalhes do cotidiano, transformando a paisagem urbana em um espaço de troca entre artista e espectador.
Desde muito jovem, Fernanda convivia com sentimentos de angústia e solidão em relação ao mundo, e foi na poesia que encontrou um caminho para transformar essas emoções em arte. “Eu busco um diálogo e uma companhia assim, sabe?‘’, afirma a artista. Esse desejo de conexão por meio da escrita intensificou-se durante sua formação, ao descobrir a literatura e encontrar autores que compartilhavam dessa mesma sensibilidade artística.
Ao colocar sua arte na rua, o sentimento que mais a impacta é a troca com os receptores. Desta forma, quando alguém fotografa uma peça e compartilha o que sentiu, a importância dessa intervenção faz com que ela sinta-se alimentada por essas histórias. Fernanda recorda, por exemplo, de uma de suas ladrilhas colocada no estacionamento do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Logo após colar a peça na parede, foi surpreendida por um segurança. Embora ele não a tenha visto instalando a ladrilha, precisou retirar a obra ao encontrá-la. Posteriormente, enviou uma mensagem à artista relatando que, apesar de ter removido a intervenção, levou-a para casa porque a frase era exatamente o que ele precisava ler naquele momento.
Para Fernanda, é isso que realmente importa: o impacto que um pequeno ladrilho pode causar na vida de alguém. É quase como algo místico da arte.
Apesar de se considerar cética, a artista carioca reconhece um encanto misterioso na poesia e na literatura. Esse encantamento impede que o olhar se acostume com o óbvio, instigando a busca pelo deslumbre no mistério do cotidiano. Durante a entrevista, Fernanda cita a poetisa brasileira Adélia Prado: “De vez em quando Deus me tira a poesia, eu olho para uma pedra e vejo apenas pedra mesmo’’. Essa reflexão, define perfeitamente sua visão artística: ela acredita que somos afastados da poesia diariamente, perdendo nosso encantamento. A arte, entretanto, tem o papel de nos resgatar, permitindo-nos “ver além da pedra”, como sugere Adélia, e acreditar em um mistério que nos move adiante.
Assim, Fernanda conclui que o que a motiva a seguir é saber que pessoas são tocadas por seu trabalho. O impacto causado no outro é sentido por ela de forma recíproca, transformando sua trajetória em um caminho que é trilhado em conjunto, onde a paixão pela palavra torna-se uma companhia compartilhada.
Imagens via @ladrilha no Instagram.
Confira mais desta entrevista exclusiva na versão impressa da Revista O QI (15ª Edição). Nela, Fernanda aprofunda as discussões sobre latinidade e gênero, analisando como a arte pode atuar como ferramenta de resistência contra as culturas hegemônicas e as estéticas de “limpeza” e “higienização”, que historicamente tentam silenciar a potência e o movimento das mulheres latinas.
Texto: Hugo Borges, Naira Prado e Zoé Queiroz, acadêmicos de Produção Editorial