Para marcar o final deste primeiro semestre na disciplina de Projeto Experimental em Revistas Científicas, a equipe da Revista Experimental O QI, que nesta edição propõe reflexões sobre o tema “Mulheres Latinas que ocupam, criam e transformam: perspectivas de protagonismos culturais”, entrevistou uma artista pioneira em organização de feiras em Santa Maria (RS), visando valorizar a potente produção cultural local.
Fomos recebidos por Cristina Rios Leme em sua “casateliê”. Em um bate-papo regado a café e muitas trocas, ela compartilhou detalhes sobre a sua trajetória multifacetada enquanto artista visual, poeta, serigrafista e produtora cultural. Confira abaixo a entrevista na íntegra:
PG: Como a arte entrou na sua vida e em que momento ela deixou de ser apenas um interesse para se tornar um caminho profissional?
A arte chegou cedo no cotidiano de Cristina. Na infância, as aulas de educação artística eram as únicas que a faziam esperar ansiosamente, mantendo-a bem longe da matemática. Entre desenhos, recortes e colagens, seus professores já notavam e elogiavam seu potencial criativo.
No entanto, no início seus caminhos profissionais foram outros: formou-se no magistério, chegou a cursar Pedagogia enquanto morava em Campo Grande – MS e por um momento pensou que sempre trabalharia “atrás do balcão”, uma vez que trabalhou nas lojas da família e em videolocadoras. O reencontro definitivo com a sua essência aconteceu anos mais tarde, já em Santa Maria. De forma repentina, Cristina decidiu prestar vestibular para o curso de Desenho e Plástica na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ingressando na instituição em 1992.
“Depois que eu comecei a cursar realmente, que passei a viver o universo da arte, o fazer e todo esse mundo, eu me apaixonei já de cara. Mergulhei nisso e fui percebendo onde eu tinha mais potencial”, relembra a artista. Desde então, ela nunca mais parou. Ainda como estudante, conquistou prêmios e, independente de onde escolhesse morar, a montagem de um ateliê era sempre prioridade. A arte tornou-se parte de sua existência de forma tão natural que se transformou em uma simbiose.
PG: Você transita por diversas técnicas artísticas. O que te atrai nessa multiplicidade de formas de criar?
Cristina transpassa por diversas expressões, mas a base do seu trabalho está firmada na gravura, especialmente a serigrafia artística. O que a atrai nessa técnica é a variedade e a liberdade de passar entre uma prova única e uma série de vinte cópias, abrindo infinitas possibilidades de experimentação. Essa escolha começou na faculdade e sempre foi acompanhada pelo desenho, pela pintura e por outras técnicas de apoio.
“O mix das artes também dá essa amplitude, de configurar uma nova experimentação. Conseguir criar unindo um pouco de colagem e um pouco de pintura.”
PG: Quando olha para sua trajetória desde a formação na UFSM até hoje, quais transformações considera mais significativas no seu trabalho e na sua forma de enxergar a arte?
Embora tenha praticado a colagem na infância, foi apenas após a formatura, por volta de 2011, período em que morava em Florianópolis, que a artista retomou a técnica com força, integrando-a definitivamente à sua rotina. “Às vezes eu quero sair dela, mas ela está ali. Eu quero limpar a mesa e fazer outra coisa, mas acaba ficando desse jeito, cheio de recortes” aponta Cristina.
A colagem atual, contudo, carrega a maturidade do tempo. Deixou de ser uma prática ingênua para ganhar uma dimensão poética que se consolidou no decorrer dos anos, tornando-se sua principal forma de expressão. A partir dela, surgem desdobramentos em gravuras, estampas de camisetas e pôsteres. Sobre suas ambições, ela afirma: “Meu sonho é colocar uma colagem numa parede inteira”.
PG: A escolha de estar parcialmente desconectada das redes sociais, como ela influencia seu processo criativo?
Ao contrário do ritmo frenético do mundo contemporâneo, Cristina escolheu caminhar na contramão da hiperconectividade. A artista não tem televisão e opta por não utilizar o WhatsApp. Prefere o silêncio de sua “casateliê”, onde encontra o prazer de recortar, colar e transformar. Essa escolha não foi uma decisão política deliberada, mas uma necessidade orgânica de proteger seu processo criativo.
“Ela vem naturalmente, sabe? De estar naquele prazer da criação, de mergulhar nesse universo. Meu ateliê sempre foi montado para essa forma de criar e evitar distrações”, diz. Nesse ambiente ela mergulha em seu “mundo abstrato”, criando poesias visuais com palavras colhidas aqui e ali. Seu ateliê funciona como um organismo vivo: trabalhando em pé, com uma visão que descreve como “de um drone”, ela organiza palavras e imagens recortadas que se acumulam sobre a mesa. Algumas delas ficam guardadas por anos, esperando o momento exato de se conectarem com um recorte novo.
Trata-se de um processo diário, íntimo e quase autobiográfico. “São coisas do meu dia a dia, é onde resolvo minhas questões. Minha autotransformação; eu digo que até tem muito de cura para mim, sabe? Tudo isso que eu faço.”, reflete. É desse isolamento voluntário que seu trabalho viaja para longe. Cristina já ilustrou livros, organizou feiras, participou de exposições em Madrid e enviou obras para o outro lado do mundo.
PG: Em relação a Feira ReTina, como foi organizar um evento que reuniu tantos artistas e produtores? Quais desafios apareceram ao longo do processo?
Além da produção individual, Cristina foi movida pelo desejo coletivo de fazer as coisas acontecerem, com ou sem ajuda. Após participar de eventos como a Parada Gráfica e a Papelera, em Porto Alegre, decidiu trazer este conceito para o cenário local, fundando junto de outra artista, a ReTina Feira de Arte Gráfica .
“Não importa se tu tem ajuda, se não tem, porque o coletivo se dá no momento que a coisa se forma. Então é isso, se jogar e fazer”, afirma. A ReTina, que aconteceu entre 2016 e 2019, realizou pelo menos treze edições, ocupando espaços como a Gare, o Boteco do Rosário e o Museu de Arte de Santa Maria, além de uma edição em Joinville. O evento colocou Santa Maria no circuito nacional de feiras independentes, atraindo expositores de São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Porto Alegre. O projeto encerrou suas atividades no ano de 2020, mas foi um marco na cultura local, servindo como ponto de partida para que muitos dos artistas participantes, hoje, articulem seus próprios movimentos culturais independentes.
PG: Quando pensa no legado que gostaria de deixar para a cultura de Santa Maria, o que espera que permaneça?
Ao refletir sobre seu legado, Cristina aponta para a paixão que a move: “A arte é minha vida. Não me imagino fazendo outra coisa. Isso é o que me estimula, o que me dá o respiro que preciso para resolver minhas questões, para me compreender e avançar”. Para ela, criar não é uma busca por reconhecimento, mas uma necessidade vital de permanência. “O fato de espalhar minha arte por aí também vai me manter viva depois. É uma forma de permanecer.”
Mesmo sem buscar apenas o reconhecimento, Cristina percebe que sua arte toca as pessoas, criando conexões profundas. Isso é uma grande inspiração para si, é o que dá o verdadeiro sentido para suas obras. “Eu busco configurar alguma percepção minha, mas quando ela alcança o outro… e esse outro se emociona na frente de um trabalho, ali o sentido se completa”, afirma. O seu legado para a cultura santamariense é, portanto, de sensibilidade e inspiração para que a cena artística local siga em constante evolução, que continue sua trajetória de intercâmbio de ideias e fomento à economia criativa.
PG: Existem mulheres artistas, brasileiras ou latino-americanas, que foram importantes referências na sua trajetória?
Cristina destaca: “Alejandra Pizarnik, uma poeta argentina, gosto muito da poesia dela, é densa, mas bastante inspiradora. E aqui do Brasil eu tenho algumas referências, gosto muito de Cecília Meireles, mas a Clarice Lispector é a principal referência; sou apaixonada pela escrita e me identifico muito com ela”.
PG: Que conselho daria para jovens mulheres que desejam construir uma trajetória artística?
Ela resume em poucas palavras: “Sejam as mais originais possíveis consigo mesmas, com sua essência, na hora de expressar e dar forma ao seu conteúdo.” E completa: “Façam isso de uma forma muito verdadeira, com amor, sinto que é isso que o mundo precisa”.
Acompanhe a artista e adquira suas obras pelo Instagram: @cristina.rios.leme
Texto: Hugo Borges, Naira Prado e Zoé Queiroz, acadêmicos de Produção Editorial