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Vivências de Mulheres na Ciência

Entrevistas com pesquisadoras em Comunicação da UFSM



Nesta 15ª edição da Revista Experimental O QI, através do dossiê temático intitulado “Mulheres Latinas que ocupam, criam e transformam: perspectivas de protagonismos culturais”, os estudantes do 7º semestre do curso de Produção Editorial buscam refletir de forma interseccional questões sobre gênero, latinidade e cultura. Para expor um pouco mais sobre essa temática no âmbito acadêmico, entrevistamos duas pesquisadoras da área da Comunicação da UFSM: a doutora em Ciências da Comunicação e professora do Curso de Produção Editorial Liliane Dutra Brignol, e a doutoranda em Circulação Midiática e Estratégias Comunicacionais Márcia Zanin Feliciani. A partir de trajetórias e áreas de atuação distintas, ambas compartilharam experiências e perspectivas sobre pesquisa, comunicação e vivências dentro da academia.

1- [PG] Você observa que existe algum tipo de distinção entre homens e mulheres na academia? Você já viveu uma experiência na qual isso ficou visível?

Márcia: A doutoranda Márcia compartilha que, por sempre estar rodeada de mulheres muito fortes no meio acadêmico, tanto na graduação em Produção Editorial quanto no POSCOM (Programa de Pós-Graduação em Comunicação), sente-se privilegiada em sua trajetória, especialmente no que diz respeito às experiências de desigualdade de gênero na área. Embora relate não ter vivenciado diretamente situações desse tipo, Márcia destaca que já ouviu diversos depoimentos de colegas sobre desigualdades presentes no ambiente acadêmico. Entre os exemplos mencionados, estão mulheres altamente capacitadas que acabam perdendo cargos para homens, além de pesquisadoras que assumem grande parte do trabalho enquanto o reconhecimento é direcionado a colegas masculinos. Ela também menciona episódios recentes envolvendo pesquisadores homens, com posturas inadequadas em ambientes formais, como bancas acadêmicas, além de relatos de assédio, ainda recorrentes nesse contexto, que são consequências das estruturas patriarcais que seguem impactando a vivência das mulheres na academia. 

Liliane: A doutora Liliane percebe as distinções de gênero na academia como reflexo das desigualdades que ocorrem na sociedade de maneira geral. Ela pontua o impacto causado pelo acúmulo de tarefas profissionais e domésticas, considerando que mulheres costumam assumir uma carga de trabalho maior. Correlacionando com o ambiente acadêmico, Liliane fala que o acesso a bolsas e recursos de pesquisa ainda apresenta desigualdade entre homens e mulheres, mesmo que não se façam visíveis são questões que atravessam as mulheres pesquisadoras.

2- [PG] Como é ser mulher e pesquisar sobre mulheres? Você sente que a sua subjetividade é colocada em campo durante a pesquisa?

Márcia: Ela afirma que a sua subjetividade é colocada em campo durante a pesquisa: ‘’A todo momento!’’. Além disso, sente que sua relação com o objeto estudado afeta a maneira como interpreta sua pesquisa, de forma positiva. A doutoranda acredita no potencial da comunicação e, especificamente, da cultura pop. Portanto, defende o trabalho coletivo, argumentando que a reunião de pesquisas feitas por e sobre mulheres produz uma potência capaz de impactar não só o campo acadêmico, como também diferentes esferas da sociedade.

Liliane: Por mais que sua pesquisa não seja diretamente ligada às questões de gênero, a professora afirma sentir-se atravessada pela subjetividade no encontro com outras mulheres. Segundo ela, ao ser mulher e pesquisar o uso social das mídias em interface com os estudos culturais e os estudos críticos das tecnologias, os contextos vividos e as relações de poder marcadas nas relações de gênero aparecem de maneira constante.

3- [PG] Nossa edição fala sobre mulheres que ocupam, criam e transformam. Como você acredita que isso é feito por meio de suas pesquisas?

Márcia: A discente utiliza sua pesquisa sobre a boneca Barbie intitulada “Midiatização, Circulação e Cultura Pop: Apropriações de Distintos Atores Sociais No Lançamento do Filme Barbie” como exemplo, relatando que o tema foi tratado com deboche em várias ocasiões, fora e inclusive dentro da academia. Segundo ela, isso ocorre tanto  por ser um brinquedo quanto por estar associado ao universo feminino. Márcia compartilha que, durante a infância, almejava ganhar uma boneca, enquanto sua coorientadora afirmava não se identificar com o modelo de feminilidade ao qual a boneca representava. Para a pesquisadora, independentemente dessas diferenças, a boneca impacta gerações há mais de 60 anos. Assim, considera que investigar essa trajetória, mesmo diante de críticas e desvalorização, constitui sua contribuição para a pesquisa acadêmica. 

Liliane: A professora afirma que a pesquisa é sempre uma forma de incidir sobre o mundo, especialmente no campo da comunicação. Para ela, ocupar espaços de produção de conhecimento, incentivar novas pesquisadoras, participar de sua formação e pautar questões urgentes na sociedade são as formas de promover a criação e transformação na nossa realidade. Liliane também destaca a importância da pesquisa vinculada a ações de extensão, mencionando o programa de extensão do grupo Migraidh/CSVM da UFSM, do qual é coordenadora, onde são enfrentados desafios de atuação no acesso a direitos da população migrante e refugiada. Segundo ela, essa atuação representa uma forma de ocupar espaços comprometidos com  transformações individuais e coletivas.

Texto: Hugo Borges, Naira Prado e Zoé Queiroz, acadêmicos de Produção Editorial

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