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Universidade: Autonomia em Xeque – Aula Inaugural do Centro de Educação da UFSM Desvenda os Embates entre Liberdade e Tutela no Cenário Neoliberal



O Centro de Educação da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) acolheu sua comunidade acadêmica em uma aula inaugural marcante, que reuniu estudantes de graduação e pós-graduação para debater um tema de profunda relevância: “Universidade: os embates entre a autonomia e a tutelagem”. A aula, realizada com imensa alegria e senso de responsabilidade, marcou o início do semestre letivo e destacou a essência e os princípios da existência de uma instituição pública.
 
O evento contou com a honra de ouvir ilustres convidados, os renomados pesquisadores Professor Lucídio Bianquete e Professor Valdemares Guissard, em uma potente dupla de pesquisadores no âmbito das políticas públicas. A mediação ficou a cargo da Professora Dr.ª Maria de Lourdes Pinto de Almeida (Malu), docente e pesquisadora associada do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Gestão da UFSM.
 
A Prof.ª Malu, ao apresentar os palestrantes, destacou a trajetória acadêmica de ambos. O Professor Lucídio Bianquete é graduado em pedagogia, mestre em educação e doutor em educação em história e filosofia da educação. O Professor Valdemares Guissard, por sua vez, é licenciado em filosofia, com mestrado e doutorado na Universidade de Paris 10, e possui vasta experiência na área da educação, com ênfase em fundamentos e políticas de educação superior.
 
A aula inaugural baseou-se em sua obra, “A Universidade Acomod(d)ity: ou de como e quando a educação-formação é sacrificada no altar do mercado – o futuro da universidade se situaria em algum lugar do passado”. Este livro critica o processo de reconfiguração da universidade contemporânea frente às transformações neoliberais, a lógica mercantil e as novas formas de regulação e tutela estatais. A obra revela como a universidade, de um espaço público de produção do conhecimento científico e formação crítica, se converte em uma “commodity”, capturada pela racionalidade econômica, pelo produtivismo acadêmico e pelos sistemas de avaliação e controle que colonizam sua autonomia.
 
O Professor Valdemares Guissard explicou o neologismo “commoditicidade”, cunhado para expressar um fenômeno que vai além da mera privatização, designando a mercantilização sem precedentes da educação superior. Nesse processo, tudo na universidade, incluindo as próprias instituições, é transformado em mercadoria (commodity), submetida às oscilações do mercado. Para os autores, o saber, antes um produto de valor agregado, é reduzido a uma mercadoria, e as instituições se tornam organizações empresariais que visam fundamentalmente o lucro, refletindo um “novo formato hegemônico”.
Uma Longa História de Tutelagens e Desafios Atuais
A discussão aprofundou-se na história da universidade, destacando uma longa trajetória de tutelagens, desde o século XI ao XIX, exercidas predominantemente pela Igreja e pela nobreza. Modelos como o da Universidade de Bolonha (1088), as escolas pós-Revolução Francesa como a École Polytechnique (1792), o modelo humboldtiano da Universidade de Berlim (1810) e o neumaniano da Universidade Católica de Dublin (1851) foram apresentados, mostrando diferentes formas de autonomia e dependência.
 
No contexto brasileiro, a ausência de educação superior foi notória até o século XX, com as primeiras faculdades isoladas surgindo apenas para atender às necessidades da família real a partir de 1808. As primeiras universidades, como a do Rio de Janeiro (1920) e a USP (1934), foram resultado da aglutinação de faculdades pré-existentes. Iniciativas promissoras, como a Universidade do Distrito Federal (1935) de Anísio Teixeira e a Universidade de Brasília (1961) de Darcy Ribeiro, foram extintas ou subsumidas devido a contextos políticos. A importância da pesquisa e da formação de pesquisadores e professores foi sublinhada, com a menção de instituições como INEP, CAPS e CNPq, e o legado de figuras como Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.
 
Ataques à Autonomia e a Necessidade de Intelectuais Militantes
 
O cerne da discussão sobre os “embates entre autonomia e tutelagem” focou nos ataques à autonomia universitária no presente. O Professor Valdemares Guissard criticou veementemente o projeto “Future-se” como o maior atentado à autonomia universitária dos últimos 10-20 anos, visando destruir a autonomia de gestão financeira das universidades públicas. Este projeto, embora não totalmente aprovado, funcionou na prática através do estrangulamento financeiro das universidades, com cortes drásticos em custeio e investimento, forçando as instituições a buscar financiamento no mercado. A tutelagem também se manifesta na heteronomia, onde as normas e avaliações são ditadas por instituições externas, como o mercado e fundos de investimento transnacionais, transformando universidades em “organizações empresariais que visam lucro”.
 
Os palestrantes também destacaram a descrença na ciência e o negacionismo científico como características da universidade neoliberal. Diante da lógica mercantil e do produtivismo acadêmico que valoriza a publicação em detrimento da profundidade e da relevância, os professores reforçaram a necessidade de resistência e denúncia permanente. O Professor Lucídio Bianquete apontou a ética como o “último bastião” para a identidade docente e a formação humana integral frente aos desafios da instrumentalização e do imediatismo.
 
O Professor Valdemares Guissard fez um apelo à militância, distinguindo o pesquisador (que resolve problemas e levanta hipóteses) do intelectual (que defende grandes causas). Ele lamentou a “ausência de capacidade de reação e de resistência” dos professores universitários frente a essas exigências e à crescente individualização.
Engajamento e Convite para o Futuro Presencial
 
A audiência, composta por participantes de diversas localidades como Santa Maria, Campinas, Campo Grande, e Rio do Sul, interagiu ativamente com perguntas sobre o fortalecimento da identidade docente e a resistência à lógica mercantil. Os palestrantes enfatizaram que a luta pela presença física é fundamental para recuperar a identidade docente, combatendo o esvaziamento provocado pelo ensino e encontros à distância, e defendendo a motivação para o estudo e a pesquisa com objetivos e boas causas.
 
A Professora Elisiane, da Coordenação do PPPG, expressou profunda gratidão, comparando a aula a uma “aula magna” e emocionando-se com a forma articulada e inspiradora dos palestrantes. Ela ressaltou a importância de tais debates para a defesa da universidade pública, autônoma e gratuita, e fez um pré-convite para que os professores Bianquete e Guissard participem de um seminário presencial em novembro, um clássico evento dos programas da UFSM, prometendo lotar o Centro de Convenções.
 
A aula inaugural foi considerada um “momento incrível e inspirador”, um “presente” para a comunidade acadêmica. A iniciativa, elogiada por sua temática e por sua contribuição para a formação de professores e intelectuais, deixou a mente dos participantes “em ebulição” e “devolveu a poesia para a alma”, reafirmando a esperança na luta por uma universidade que defende causas e forma cidadãos críticos.
 
Texto e edição: Alessandra Alfaro Bastos – Núcleo de Comunicação do CE
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