Em 15 de outubro, data que celebra o Dia do Professor, uma matéria combinada dos resultados da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (TALIS 2024) e a tese da de Doutorado da egressa do Programa de Pós-Graduação em Educação, Thais Pulgatti Trindade, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) revela um cenário de contrastes para a docência no Brasil: enquanto os educadores demonstram profundo comprometimento e iniciativa profissional, eles enfrentam condições de trabalho marcadas pela precarização, alto estresse e desafios pedagógicos intensos.
O Perfil do Docente e a Crise de Valorização Salarial
O corpo docente brasileiro nos Anos Iniciais e Finais do Ensino Fundamental se mostra relativamente mais jovem do que a média da OCDE. Os professores no Brasil possuem alta qualificação em nível de graduação (86,8% nos Anos Iniciais e 82,4% nos Anos Finais). No entanto, a porcentagem de docentes com Mestrado ou Doutorado é drasticamente inferior à média da OCDE.
Apesar do alto nível de formação inicial, a carreira docente no Brasil é marcada pela vulnerabilidade laboral. Dados da TALIS 2024 indicam uma alta incidência de contratos por tempo determinado (36,5% nos Anos Finais e 31,9% nos Anos Iniciais), e uma proporção alarmante de professores em regime de tempo parcial involuntário (19,2% nos Anos Finais e 17,5% nos Anos Iniciais).
Embora uma grande maioria dos professores reporte estar satisfeita com o trabalho em sua escola atual (mais de 86,6% em ambas as etapas), a satisfação com o salário é extremamente baixa: apenas 22,3% dos docentes dos Anos Finais e 25,0% dos Anos Iniciais declaram-se satisfeitos com a remuneração. Essa baixa satisfação salarial coloca o Brasil entre os países com os índices mais baixos na TALIS 2024.
A Sobrecarga e o Adoecimento Docente
A TALIS 2024 indica que o trabalho dos educadores brasileiros tem um impacto negativo alto na saúde, especialmente na saúde mental, afetando 16,5% dos professores nos Anos Finais e 12,7% nos Anos Iniciais.
As fontes de estresse são múltiplas e acentuadas no Brasil, superando em quase todas as áreas a média da OCDE. Entre as maiores pressões reportadas estão a responsabilidade pelo desempenho dos alunos (66,3% nos Anos Finais) e a necessidade de manter a disciplina (63,8% nos Anos Finais).
Um dado alarmante é o da violência verbal: 46,6% dos professores dos Anos Finais e 34,4% dos Anos Iniciais relatam sentir estresse por serem intimidados ou ofendidos verbalmente pelos alunos, índices que chegam a ser quase o triplo da média internacional.
A tese de Doutorado “AS VIVÊNCIAS COTIDIANAS NA CONSTITUIÇÃO DE SER PROFESSOR NO INÍCIO DA CARREIRA DOCENTE DOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL “, defendida em 26 de fevereiro de 2025 pela egressa Thais Pulgatti Trindade, orientada pelo professor Celso Ilgo Henz, Linha de Pesquisa Linha de Pesquisa 1: Docência, saberes e desenvolvimento profissional, corrobora o quadro de sobrecarga e mal-estar, destacando que as demandas excessivas e as exigências da profissão levam ao mal-estar e adoecimento docente.
Os Desafios do Cotidiano e a Luta pela Inclusão
O início da carreira é descrito na tese como um período de dúvidas, angústias, medos e desafios. Muitos docentes manifestaram que a formação inicial não foi suficiente para as demandas encontradas no cotidiano das escolas, notando a distância entre a teoria e a prática.
Entre os desafios práticos, destacam-se:
• Adaptação ao Sistema: A necessidade de se adaptar a um sistema de ensino tradicional, baseado em regras, disciplina, conteúdo e prazos, muitas vezes deixando de lado a criatividade das crianças.
• Solidão e Acolhimento: A pesquisa ressalta a solidão pedagógica, atribuída à ausência de trabalho coletivo e compartilhado. Os professores iniciantes podem se sentir “mal vistos” por colegas experientes, especialmente quando tentam propor um trabalho diferenciado, o que pode levar à perda de autonomia. O acolhimento e o apoio da gestão são considerados cruciais para a segurança e permanência na profissão.
• Infraestrutura e Turmas: A TALIS 2024 aponta que a infraestrutura escolar no Brasil é um obstáculo crítico, com problemas como má acústica, falta de controle de temperatura e falta de acesso a elementos naturais, reportados em proporções muito maiores do que a média da OCDE. Além disso, o tamanho médio das turmas nos Anos Finais é de 32,5 alunos, 7,4 a mais que a média da OCDE.
• Inclusão e Formação Específica: A inclusão aparece como um dos maiores desafios. Os docentes enfrentam a falta de estrutura física adequada, recursos pedagógicos escassos e a falta de apoio para a inclusão de estudantes com deficiência. Os professores iniciantes sentem despreparo, especialmente em educação especial.
O relatório TALIS confirma que a principal necessidade de formação profissional reportada é em “ensino para alunos com necessidades educacionais especiais” (52,0% nos Anos Iniciais) e em “promoção do desenvolvimento social e emocional”.
Avaliações Externas e a Lógica de Controle
As avaliações externas (em larga escala) são uma fonte significativa de angústia. Os professores iniciantes criticam essas avaliações por serem padronizadas, massivas e por não considerarem o processo de desenvolvimento e o contexto real das crianças. Além disso, elas são vistas como ferramentas para “avaliar, regular e controlar o trabalho e o desempenho dos professores”.
Os docentes observam que as avaliações frequentemente excluem alunos com deficiência, ao invés de incluí-los. A tese também problematiza o uso de apostilas (como Aprende Brasil, Alfabetiza Tchê), que, para alguns coautores, engessam o trabalho e se assemelham a um “telecurso”.
A Resiliência e a Auto(Trans)formação: O Caminho para Seguir
Apesar de todos os desafios, a docência é marcada por um forte senso de agência e resiliência. O processo de ser professor é entendido como não-linear e está intrinsecamente ligado às mudanças do sujeito como pessoa, exigindo reflexão e questionamento contínuo da prática.
Há um alto senso de colegialidade nas escolas brasileiras, com 87,1% dos professores dos Anos Finais concordando que podem contar uns com os outros. Além disso, 88,8% dos professores dos Anos Iniciais e 88,1% dos Anos Finais afirmam liderar suas atividades de crescimento e desenvolvimento profissional, demonstrando iniciativa no autodesenvolvimento.
O estudo qualitativo ressalta que o diálogo e a partilha de experiências em espaços como os Círculos Dialógicos Investigativo-Auto(trans)formativos são cruciais. Nesses momentos, os professores podem desabafar, identificar problemas, e reelaborar seus pensamentos, promovendo o amadurecimento profissional.
Em homenagem aos professores, que se dedicam incansavelmente à educação em um contexto de grandes adversidades, a tese de Thais Pulgatti Trindade (2025) conclui com o reconhecimento de que “Ser professor é a arte de aprender todos os dias com quem você achou que iria ensinar”. Trata-se de uma busca constante por novos saberes e conhecimentos, na certeza de que a auto(trans)formação é a chave para a superação dos desafios da carreira.
Texto e edição: Alessandra Alfaro Bastos – Subdivisão de Comunicação do CE