
Dezessete ocorrências por dia. Esse é o número médio de atendimentos envolvendo emergências em saúde mental registrados pelo SAMU e pela Brigada Militar, no Rio Grande do Sul, nos primeiros meses de 2026. No ano passado, eram 12 por dia. São crises psicóticas, tentativas de suicídio, episódios de agitação intensa. E, na maioria das vezes, quem chega primeiro ao local não é um psicólogo nem um psiquiatra. É um policial da Brigada Militar.
Atendimento em crises de saúde mental
Antes de falar sobre a atuação policial, é preciso entender o que está em jogo nessas ocorrências. O termo “surto psíquico”, comum no vocabulário popular, não existe como diagnóstico nos principais sistemas classificatórios da medicina, como o DSM-5-TR (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) ou a CID-11, da Organização Mundial da Saúde. O que esses sistemas descrevem são episódios específicos: episódio psicótico, episódio maníaco, crise dissociativa, descompensação aguda de um transtorno mental.
O bacharel em direito, mestre e doutorando em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e especialista em Criminologia, Política Criminal e Segurança Pública, Lenon Goulart, prefere outra terminologia: crise em saúde mental. “Quando a gente fala em surto, eu particularmente prefiro muito mais pensar em crise de saúde mental e aí a gente tá falando em episódios. Por exemplo, episódio psicótico agudo. Episódio que envolve delírio, alucinações, agitação psicomotora. Muitas vezes a gente vê a pessoa manifestando com o corpo ali”, explica Lenon, que atua na Delegacia de Pronto Atendimento (DPPA) de Santa Maria e pesquisa, na pós-graduação, prevenção ao suicídio na adolescência.
Para ele, usar o termo “surto” carrega um risco: o de reduzir a subjetividade de uma pessoa a um único episódio de sofrimento, criando um rótulo que a define. “Quando a gente fala em surto, parece doença. Tem aquele rótulo que na verdade pode ser um episódio. Você está passando por um momento muito difícil da sua vida”, avalia
Segundo o DSM-5-TR, um episódio psicótico envolve a presença de um ou mais dos seguintes sintomas: delírios, alucinações, pensamento ou discurso desorganizado, comportamento muito desorganizado ou catatônico, e sintomas negativos. A crise, explica Lenon, envolve três dimensões de desorganização: psíquica, emocional e comportamental. E nem toda crise é um caso policial. “A autoagressão não é um crime propriamente dito, percebe? E então, necessariamente, a crise em saúde mental para eu poder classificar como uma crise em saúde mental que envolve agressividade vai envolver uma desorganização que é de três dimensões: psíquica, emocional e também comportamental.”
Samu ou Brigada Militar: quem deve atender?
No cotidiano das ruas, porém, a teoria encontra uma realidade complexa em fração de segundos. Um morador liga para o 190 para reclamar de um vizinho perturbando o sossego. O policial chega ao local e se depara com alguém em crise psicótica. Não havia essa informação na chamada.
Esse cenário é cada vez mais comum. Segundo dados do Sistema de Informações Operacionais (SIOP) do Estado Maior da Brigada Militar, em 2025 foram 4.207 ocorrências envolvendo emergências em saúde mental com participação da Brigada Militar no RS, uma média de 12 por dia. No ano de 2026, considerando o período de janeiro a maio, já foram contabilizadas 2.488 ocorrências, alcançando uma média diária de 17 atendimentos, o que representa um aumento de 41% de atendimentos diários em comparação com o mesmo período do ano anterior.
Na prática, quem recebe essas chamadas e decide para onde elas vão é o SAMU. O médico do serviço em Santa Maria, Leonardo Luiz Sangaletti, descreve como a equipe é preparada para esses atendimentos.”Recebemos orientação sobre atendimento de paciente psiquiátrico no nosso ciclo de educação continuada, que fazemos mensalmente na base, com palestra e orientação de um psicólogo convidado. No mais, é com a experiência diária na abordagem dos pacientes e na discussão interna dos casos”, conta.
Quando há risco, a atuação não é de uma só equipe. “O atendimento de pacientes em surtos, que se mostram agressivos ou que possam estar portando algum objeto perigoso, é feito em conjunto com a Brigada Militar para garantir a segurança da equipe em atendimento”, explica o médico.
Uma das fragilidades do sistema atual, no entanto, é a ausência de um fluxo integrado de atendimento. A articulação entre SAMU, hospitais, UPAs e os serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), como os CAPS, segundo Sangaletti, é essencial. “Acredito que não exista até o momento uma rede integrada de cuidados. Após o atendimento, deslocamos com o paciente para uma das portas de entrada onde é passado o caso ao médico plantonista da emergência.” Em Santa Maria, os pacientes são encaminhados ao PA Patronato ou à UPA 24h. a mesma porta de entrada para casos clínicos, psiquiátricos e de trauma, sem diferenciação de fluxo. Segundo o profissional, não existe um protocolo específico para Santa Maria funcionando na prática até o presente momento.
Diante desse cenário, o governo do Rio Grande do Sul lançou, em março de 2026, o Programa de Resposta Integrada nas Emergências em Saúde Mental. A iniciativa, inédita no estado, estabelece a atuação conjunta entre o SAMU, a Brigada Militar e o Corpo de Bombeiros Militar, com protocolos unificados e definição clara de papéis. O programa é executado pelas Secretarias da Saúde (SES) e da Segurança Pública (SSP), e foi regulado por uma instrução normativa conjunta publicada no Diário Oficial do Estado em 12 de março de 2026.

A capacitação
Junto ao lançamento do programa, a Brigada Militar iniciou a 1ª edição do novo Curso de Atendimento de Ocorrências de Emergência em Saúde Mental, abrangendo todo o efetivo da Instituição. A primeira turma, na modalidade EAD, ocorreu em março de 2026 e capacitou 138 policiais militares. O Major Michael Ribeiro, chefe do Instituto de Pesquisa da Brigada Militar (IPBM) e responsável pela execução do curso, explica que a formação está organizada em oito módulos: transtornos mentais; urgência e emergência; classificação de risco; comunicação terapêutica e manejo verbal; manejo clínico da crise; situações práticas e técnicas de contenção; urgências e emergências; e emergência psiquiátrica na infância e adolescência. “Esse curso tem um desafio operacional e um objetivo estratégico, que é um subsídio técnico para uma tomada de decisão de frações de segundos”, explica o major.
Um protocolo, criado pela Secretaria de Saúde do Estado, funciona a partir de uma classificação de risco realizada ainda na central de atendimento, ao receber a chamada:

O curso também trabalha o que o major chama de “descalonamento de tensão”, uma abordagem humanizada com foco na verbalização. “Essa verbalização humanizada envolve uma abordagem que não vá agitar mais o paciente, mas sim que se possa ter pelo menos uma verbalização um pouco mais calma, um pouco mais tolerante”, descreve.
A doutrina de abordagem humanizada foi inspirada nos Bombeiros Militares de São Paulo, referência nacional no tema, especialmente em ocorrências de tentativa de suicídio. A meta da Brigada é capacitar todo o efetivo em um prazo de sete meses. Em uma segunda etapa, serão formados multiplicadores, presencialmente, que irão replicar o conteúdo em suas regiões e nos cursos de formação de novos policiais.
O policiamento ostensivo

Uma das questões mais sensíveis nessas ocorrências é o uso da força. Lenon é direto ao pontuar o limite do papel policial: “O policial não substitui psicólogo, ele não é psiquiatra e ele não substitui o CAPS.”
O Major Ribeiro esclarece que a Brigada segue o protocolo de “uso progressivo da força”, que vai da presença policial até a força letal. O uso de arma de fogo é o último recurso, acionado apenas quando há risco iminente à vida do policial ou de terceiros. “Se houver risco da vida do policial ou de terceiros, aí então ele tá legitimado pelo Código Penal Brasileiro, pelo Código Penal Militar e todas as legislações.”
Sobre a ideia de atirar em regiões não letais para conter uma pessoa em crise, o major é enfático: “Utilizar arma de fogo atirando em perna e mão é um protocolo que não é previsto dentro desse treinamento. O policial tem que ter segurança que o uso da arma seja para cessar a agressão. Não quer dizer que um tiro na perna ou na mão, além de ser mais difícil de acertar e colocar em risco outra pessoa, possa vir a não surtir efeito.”
Diante disso, cabe o questionamento: se o policial é treinado para lidar com crises alheias, quem cuida da sua? Essa é uma pergunta que a própria corporação vem há anos tentando responder de forma estruturada.
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Reportagem: Isadora Bortolotto e Luiza Ventura
Infográficos: Prisley Zuse
Redes sociais: Camila Castilho
Edição: Daniele Gabriel
Audiodescrição: Chrisiele Nunes
Supervisão: Luciana Carvalho
Conteúdo desenvolvido na disciplina de Jornalismo Digital III.