Comemorado hoje, 18 de maio, o Dia Internacional dos Museus dialoga sobre o papel desses espaços como ponte para a integração e valorização de comunidades em todo o planeta. Neste ano, a celebração opera sob o tema “Museus unindo um mundo dividido”, definido pelo Conselho Internacional de Museus (ICOM) que, desde 2020, apoia os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).
A data congrega não apenas estruturas formalmente instituídas, mas também espaços de salvaguarda e coleções que, embora não se configurem juridicamente como museus, desempenham funções essenciais para a preservação e comunicação do patrimônio. Outra programação referente à temática é a 24ª Semana Nacional de Museus, que ocorre de 18 a 24 de maio, promovida pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).
De acordo com a definição aprovada pelo ICOM, na Conferência Geral de Kyoto, esses lugares proporcionam experiências diversas para educação, fruição, reflexão e partilha de conhecimento. Conforme determinado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) na Resolução N° 252, de 3 de março de 2026, a instituição reconhece museus, acervos e coleções como bens de relevância histórica, científica e cultural, no âmbito da instituição.
Ao todo, são 11 locais voltados à promoção, à manutenção e ao resguardo da ciência na Universidade. Cinco deles são geridos pela Pró-Reitoria de Extensão (PRE) da UFSM: Museu Gama D’Eça e Victor Bersani, Planetário Professor José Mariano da Rocha Filho, Acervo Artístico, Museu de Arte, Ciência e Tecnologia (MACT) e Laboratório de Arqueologia, Sociedade e Cultura das Américas (LASCA).
A museóloga e chefe da Divisão de Museus da PRE, Aline Vargas, reforça que o não reconhecimento de determinada coleção como museu não a torna menos relevante, uma vez que muitos desses ambientes realizam práticas museológicas fundamentais, como guarda, documentação, conservação e ações educativas. “A museologia se manifesta em diferentes formatos, o compromisso com a salvaguarda do patrimônio ultrapassa a nomenclatura formal. É o caso da UFSM, que possui Museu, Planetário e Acervos/Coleções de ciência e arte, cujos servidores integram a Rede de Museus da Universidade”, destaca a profissional.
UM ARCO DE EVOLUÇÃO CIENTÍFICA E SOCIAL
Diferentemente de museus tradicionais, os acervos institucionais frequentemente se constituem a partir de projetos acadêmicos, atividades científicas e práticas de ensino, reunindo materiais que, com o tempo, passam a adquirir valor histórico, cultural e institucional, pois carregam consigo a história do fazer universitário. Aline ressalta que as coleções universitárias cumprem um papel estratégico na preservação, produção e difusão da ciência institucional, visto que articulam diretamente ensino, pesquisa, extensão e salvaguarda patrimonial.
De acordo com a museóloga, centros de memória e produção científica universitários têm se tornado, cada vez mais, terreno de debate e ações no campo do patrimônio das universidades, configurando um movimento nacional de reconhecimento e valorização desses acervos. “Esse movimento envolve discussões sobre políticas museais, gestão de coleções, documentação, conservação preventiva e estratégias de comunicação”, afirma.
Aline enfatiza que a presença de profissionais em formação é fundamental, pois amplia seus horizontes de atuação futura e contribui diretamente para a formação acadêmica e profissional. Esses espaços transdisciplinares, nos quais o museólogo atua em consonância com diferentes áreas do conhecimento, permitem ao estudante vivenciar práticas reais de salvaguarda e produção científica.
Embora não se constitua formalmente como museu, o Laboratório de Arqueologia, Sociedade e Cultura das Américas (LASCA), por exemplo, é uma Instituição de Guarda e Pesquisa (IGP) reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional Autarquia (IPHAN). Isso possibilita que estagiários acompanhem etapas como escavação, tratamento, análise e extroversão do conhecimento histórico-arqueológico, aplicando na prática os conteúdos aprendidos em sala de aula e desenvolvendo competências técnicas e críticas essenciais para sua atuação futura.
DA ERA DA PEDRA À ERA DIGITAL
Acompanhando os avanços tecnológicos, a divulgação do trabalho desenvolvido na Universidade, de modo geral, ocorre por meio de estratégias integradas de comunicação institucional. Utilizando plataformas digitais como sites e redes sociais, além da produção de conteúdos informativos e educativos, esses ambientes ampliam o acesso do público às ações realizadas.
No caso da UFSM, essa articulação se dá em múltiplos canais, incluindo páginas institucionais, redes sociais e veículos próprios como TV e rádio universitárias. Além disso, há participação em eventos regionais e nacionais que fortalecem a troca entre profissionais, ampliam a visibilidade das coleções e contribuem para a valorização e criação de diretrizes voltadas ao patrimônio universitário.
No mesmo sentido, iniciativas como a digitalização de acervos, além de possibilitarem maior difusão da ciência e acesso remoto a obras, são uma forma de preservar materiais que, fisicamente, podem sofrer com deterioração. No entanto, a museóloga ressalta que a ideia de um acesso plenamente universal é um desafio, considerando as diferentes limitações físicas, sensoriais e cognitivas, assim como as desigualdades de acesso às tecnologias.
A profissional salienta que o digital, embora facilite muitos processos, não se opõe ao real. “Para acesso on-line é necessário uso de celular ou outro aparato tecnológico conectado à rede, realidade inviável para muitos brasileiros. A digitalização é uma estratégia complementar de conservação e difusão que permite a catalogação, organização e atualização mais ágil das informações, facilitando consultas e pesquisas inclusive de pesquisadores e interessados geograficamente distantes”, complementa.
Aline frisa que exposições interativas também podem ampliar o envolvimento do público com o acervo, não sendo necessariamente dependente de tecnologias digitais. “Essa medida pode ocorrer por meio de réplicas táteis, jogos educativos, mediações participativas e experiências sensoriais que aproximam diferentes públicos do patrimônio de forma mais dinâmica e significativa”, conclui.
CONHECIMENTO ARTICULADO É CIÊNCIA PROPAGADA
A casa que guarda memórias em suas paredes
O mais antigo dos acervos institucionais da UFSM é o Museu Gama D’Eça e Victor Bersani. Ele surgiu em 1981 da fusão de dois locais existentes em Santa Maria: o Museu Victor Bersani, fundado em 1913 e pertencente à Sociedade União dos Caixeiros Viajantes (SUCV), e o Museu Educativo Gama d’Eça, criado em 1968 pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Atualmente localizado na Rua do Acampamento, no centro de Santa Maria, o museu tem como sede o Palacete, anteriormente residência e consultório médico do Dr. Astrogildo César de Azevedo. A construção, que teve início em 1912, foi a primeira casa a contar com piscina na cidade, além de um mini zoológico e um jardim temático com elementos dos jogos de cartas, chamado Jardim dos Naipes.
O prédio foi ocupado pela Prefeitura Municipal de Santa Maria de 1964 a 1984, com um serviço de saúde anexado. No fim desse período, a residência foi assumida pela UFSM para reforma e, em 10 de dezembro de 1985, foi inaugurada a sede do Museu Educativo Gama d’Eça e Victor Bersani. Pela primeira vez, as duas coleções dividiram o mesmo local.
De acordo com o auxiliar em administração Christian Dias, o recinto possui artefatos arqueológicos, fósseis, documentos e objetos históricos, animais taxidermizados, e coleção de numismática e de entomologia. Há, ainda, outras peças com significativo valor histórico e cultural, como a Coleção Victor Bersani da Sociedade União dos Caixeiros Viajantes do Rio Grande do Sul (SUCV), tombada pelo IPHAN em 1938, uma das poucas coleções tombadas a nível nacional no estado do Rio Grande do Sul.
Temporariamente fechado ao público para realização de obra no telhado, o acervo segue com trabalho interno voltado ao seu inventário que conta com mais de 13 mil peças. “Ele pode ser visto ainda como um importante instrumento para a extensão universitária e para a valorização da cultura da cidade”, afirma Dias.
Mais do que um pedaço de história
O LASCA, resultado de mais de 40 anos de arqueologia na Região Central do estado, tem se destacado por seu trabalho de educação patrimonial e aproximação com as comunidades externa e acadêmica. Por meio de exposições, oficinas e ações educativas, o espaço reforça o compromisso com a democratização do conhecimento arqueológico e a formação crítica acerca da valorização e preservação do patrimônio cultural.
De acordo com Aline, neste ano, mais de 300 estudantes de projetos e escolas da cidade e de municípios vizinhos já visitaram a mostra Escavando Histórias: a trajetória da arqueologia através dos tempos. Desenvolvida com foco em uma abordagem lúdica e interativa sobre a arqueologia enquanto ciência, a exposição foi inaugurada em dezembro de 2025 e reúne mais de 90 objetos de pesquisas da UFSM.
Localizado no centro de Santa Maria, na Rua Floriano Peixoto, 1176, ao lado do prédio da Antiga Reitoria da UFSM, o laboratório fica aberto de segunda a sexta-feira. As visitações ocorrem das 8h às 12h e das 13h às 17h, sem necessidade de agendamento.
Um mundo de possibilidades
O Acervo Artístico da UFSM reúne obras de arte contemporânea, especialmente gravuras, pinturas, desenhos e esculturas de artistas nacionais e internacionais. Composto por ambientes como a Caverna, espaço imersivo com ambientação sonora e visual, o Acervo organiza suas exposições por meio da produção própria da Universidade e da seleção de artistas por editais.
O lugar trata questões que vão desde a arte rupestre até produções atuais, trabalhando com símbolos e signos, questões da arte contemporânea, arte urbana, entre outros. Além disso, a equipe detém a guarda da Filmoteca de Santa Maria, conjunto de bens municipal do Santa Maria Vídeo e Cinema, cujos arquivos estão em processo de catalogação. Localizado no prédio da Biblioteca Central, no campus sede, o Acervo pode ser visitado de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h.
Do mesmo modo, o Planetário da UFSM, que atua como um elo dinâmico entre o conhecimento acadêmico e a comunidade externa, democratizando a astronomia e as ciências afins. Para comemorar o Dia Internacional dos Museus e a 24ª Semana Nacional de Museus, a organização preparou uma programação para esta quarta-feira, dia 20.
A diretora do Planetário, Jaqueline Trentim Machado, destaca que pautas como o Dia Internacional dos Museus são fundamentais para ampliar o debate sobre a preservação da cultura, da ciência e da memória coletiva. “Esses momentos reforçam a importância de instituições culturais e educativas para reflexão, pertencimento e acesso ao conhecimento para toda a sociedade”, aponta.
Durante o ano letivo, as visitações podem ocorrer de segunda a sexta-feira em sessões às 8h30, 9h30 e 10h30 e, no turno da tarde, às 13h30, 14h30 e 15h30, mediante agendamento. Semanalmente, ocorrem as sessões abertas gratuitas, divulgadas pelo perfil do Planetário no Instagram.
Outro centro memorial e científico do campus é o Museu de Arte, Ciência e Tecnologia (MACT). Inaugurado em 2021, no mezanino do Planetário, ele busca convergir a interdisciplinaridade das áreas de arte, ciência e tecnologia, abarcando obras digitais e com caráter interativo, experiencial e sensorial. Conforme o secretário do MACT, Evandro Bertol, o espaço, que atualmente está fechado ao público devido a reformas, deve retomar suas atividades no segundo semestre letivo deste ano.
INVESTIR PARA PRESERVAR O PASSADO E CRIAR O FUTURO
A falta de recursos financeiros e de infraestrutura é uma dificuldade para a manutenção de bens culturais. Além de apoio didático e científico, instituições museológicas são parte fundamental da memória universitária e da sociedade e contribuem para manter viva a identidade e a trajetória da cidade.
Aline comenta que a escassez de investimentos compromete etapas essenciais de salvaguarda, como conservação preventiva, acondicionamento adequado, registro, segurança e ações de difusão. A ausência de materiais específicos, a necessidade de restauro, a falta de ambientes apropriados para guarda e exposição de peças e a limitação de sistemas de segurança e controle ambiental aumentam os riscos de deterioração, extravio ou danos ao patrimônio.
Outro desafio é a carência de profissionais especializados, como museólogos e restauradores, o que fragiliza a gestão técnica e dificulta o atendimento de demandas específicas. Entre as medidas necessárias citadas pela museóloga estão: garantia de financiamento contínuo, disposição de infraestrutura adequada, ampliação de equipes técnicas e elaboração de planos de gestão com normas de cuidado e segurança. Também são importantes parcerias institucionais, projetos de extensão e a participação estudantil, fortalecendo o impacto social e educativo dessas instituições culturais.
Para a profissional, pautas como o Dia dos Museus possibilitam ampliar significativamente o debate sobre preservação da cultura e da memória. “Essas abordagens evidenciam a construção social e histórica dessas estruturas que não são neutras. São espaços de poder, onde escolhas sobre o que resguardar, expor e narrar influenciam diretamente a forma como a sociedade compreende sua história”, pontua.
A museóloga ressalta que trabalhar na área exige uma postura crítica diante de desigualdades, apagamentos e silenciamentos. Ela entende essa visão necessária para fortalecer a diversidade e organizar práticas mais inclusivas e socialmente comprometidas com a superação de paradigmas ultrapassados, que compreende o visitante como um sujeito passivo e sem repertório.
Texto: Kemyllin Haana Timm Dutra, jornalista da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).
Revisão: Catharina Viegas, revisora de textos da Subdivisão de Divulgação e Editoração (PRE/UFSM).